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Crítica | 007 – Sem Tempo para Morrer se despede de Daniel Craig

Com 59 anos de franquia, 25 filmes e 6 atores diferentes responsáveis por sua caracterização, James Bond é um dos ícones inegáveis da História do Cinema. Ao longo dessa jornada imprevisível, foram muitos altos e baixos enquanto o agente 007 se adequava à mudança dos tempos e lutava para sobreviver – não apenas dos mais variados tipos de vilões, mas da mesma coisa que tem assolado a versão mais recente do personagem: a irrelevância. É justamente essa questão que 007 – Sem Tempo para Morrer tenta discutir, ao mesmo tempo em que se esforça para oferecer uma despedida altamente emocional para a versão eternizada por Daniel Craig.

A trama segue os eventos de todos os filmes anteriores da era Craig, mas especificamente 007 Contra Spectre. Nela, vemos Bond e Madeleine Swann (Léa Seydoux) vivendo amorosamente após a aposentadoria do protagonista do MI6. Quando o casal é atacado por agentes da Spectre, Bond precisa voltar a colaborar com o serviço secreto britânico, ao mesmo tempo em que o sequestro de um cientista russo evidencia o plano macabro do misterioso Safin (Ramin Malek), uma figura do passado de Madeline que coloca a sobrevivência do mundo todo em xeque.

Adeus às Armas

Diferentemente de suas encarnações passadas, a versão de Daniel Craig para James Bond oferece uma narrativa longa no decorrer de seus cinco filmes. Não seria nenhum absurdo taxar todos esses filmes como a “Tragédia de Vesper Lynd”, já que a enigmática personagem de Eva Green em Cassino Royale tem sua sombra projetada em todos os demais capítulos, e até mesmo em Sem Tempo para Morrer. Dessa forma, o roteiro que traz de volta a dupla Robert Wade e Neal Purvis (veteranos da franquia desde O Mundo Não é o Bastante), o diretor Cary Joji Fukunaga e a brilhante comediante Phoebe Waller-Bridge procura a forma mais eficiente de amarrar todas essas histórias em uma narrativa única, contando também com o benefício da certeza de que este filme é o último do intérprete do personagem – algo que nunca havia ocorrido com 007 até então.

O resultado é misto. No que diz respeito à trama central envolvendo a ameaça de Safin, o longa volta o olhar fortemente para os filmes da década de 60 estrelados por Sean Connery, apostando em planos mirabolantes, grandes bases secretas de vilões e um tom de Guerra Fria entre o MI6, a Spectre e Safin que soaria até cartunesco perto da proposta mais realista de Cassino Royale. Não é a decisão mais equilibrada, mas funciona graças à força da direção (mais sobre isso, em alguns instantes) e o carisma de todos os envolvidos. Quando o filme volta sua atenção para a “alma”de James Bond, o resultado não é tão satisfatório: é como se a necessidade de um encerramento forçasse uma reviravolta emocional desenvolvida às pressas (apesar da duração de quase 3 horas), e que não vai agradar quem já ficou insatisfeito com o arco amoroso apresentado em Spectre.

Ainda assim, mesmo com decisões de roteiro que variam entre erros e acertos, a maior parte do elenco faz valer a investida. Já tendo se provado como o Bond definitivo, Daniel Craig tem a oportunidade de oferecer sua performance mais emocional e vulnerável aqui, além de trazer um senso de humor extremamente bem dosado com a fúria habitual de seu personagem. Fico feliz também de ver o elenco de apoio do MI6, formado por Ralph Fiennes, Naomie Harris e Ben Whishaw, muito bem entrosado e aproveitado pela história e ação, que também se beneficia da excelente Lashana Lynch como uma nova e habilidosa agente 00 e da carismática Ana de Armas em uma ponta muito divertida e empolgante.

Léa Seydoux também ganha um material bem mais interessante para se trabalhar do que em Spectre, evidenciando mais do trauma e dos dilemas de sua Madeleine Swann. E se Rami Malek decepciona ao criar um dos vilões mais esquecíveis de toda a franquia até então, Christoph Waltz surpreende por trazer um Blofeld bem mais assustador e convincente em uma cena que remete a O Silêncio dos Inocentes. Mas meu grande destaque fica mesmo com a relação entre Bond e o Felix Leiter de Jeffrey Wright, cujo sentimento de amizade e camaradagem é o mais forte entre os agentes do MI6 e CIA que vimos na cinessérie até então.

O toque americano

No que diz respeito à direção, o talentoso Cary Joji Fukunaga (mais conhecido pelo trabalho formidável na primeira temporada de True Detective) atende a todas as necessidades da história. A megalomania temática que comentei lá atrás é bem traduzida visualmente através de sets gigantescos e uma fotografia bem mais granulada e suja (assinada por Linus Sandgren, oscarizado por La La Land) do que os filmes comandados por Sam Mendes; o que – intencionalmente ou não – acaba garantindo essa nostalgia pelos filmes de Connery; em particular, a grandiosidade do subestimado Com 007 Só Se Vive Duas Vezes.

As cenas de ação acabam cedendo espaço para muita atmosfera e momentos dramáticos, que funcionam bem. No quesito de pirotecnia, há ótimas sequências que aproveitam com frescor a beleza de locações na Jamaica, Cuba e especialmente Matera, na Itália, que serve de palco para uma ótima perseguição de carro envolvendo o icônico Aston Martin DB5. Ainda assim, confesso que nada que se equipare à elegância de Sam Mendes em Skyfall ou o brilhantismo de Martin Campbell em Cassino Royale, e que também carece de uma trilha sonora verdadeiramente marcante – onde Hans Zimmer parece mais confortável em reprisar temas antigos (com destaque para uma rendição lindíssima de A Serviço Secreto de Sua Majestade) do que trazer algo realmente novo. Apesar de, pessoalmente, eu ser um grande fã do tema musical cantado por Billie Eilish.

Não é exagero dizer que nunca houve um filme de 007 como Sem Tempo para Morrer. Certamente é uma obra que tem ciência da história que está contando e da homenagem que presta a Daniel Craig e sua era fantástica, em uma experiência de altos e baixos, mas que é indubitavelmente corajosa. A conclusão vai render muitos debates entre os fãs, e a expectativa pelo futuro da saga do espião britânico só fica maior e mais curiosa.

007 – Sem Tempo para Morrer (No Time to Die, Reino Unido – 2021)

Direção: Cary Joji Fukunaga
Roteiro: Robert Wade, Neil Purvis, Cary Joji Fukunaga, Phoebe Waller-Bridge
Elenco: Daniel Craig, Rami Malek, Léa Seydoux, Ben Whishaw, Ralph Fiennes, Naomie Harris, Jeffrey Wright, Christoph Waltz, Lashana Lynch, Ana de Armas, Billy Magnussen, Rory Kinnear
Gênero: Aventura, Ação
Duração: 163 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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