Há uma emblemática metáfora na primeira cena de 1917 que enquadra os dois protagonistas em um campo florido no campesino norte da França: o idealismo onírico de uma paz que nunca chegou e nunca vai chegar. E não é surpresa que o denso longa-metragem logo transforme esse cenário em um apocalipse beligerante que ergue-se exponencialmente em uma caótica perspectiva, atravessando o acampamento de soldados ingleses e então mergulhando nas profundezas claustrofóbicas das trincheiras – rendendo-se, por fim, a um prospecto pessimista que se nutre tanto de elementos trágicos quanto de épicos (no sentido mais greco-romano possível).

O convite feito por Sam Mendes ao seu novo e ousado projeto é, a princípio, hesitante; porém, conforme o público é arrastado para um soberbo plano-sequência, percebemos que é tarde demais para tentar sair vivo. E mais que isso, compreendemos que estamos ali por pura e espontânea vontade, movidos por uma agonizante curiosidade e uma rasa esperança de que os heróis (longe de serem embebidos em um complexo de “cavaleiros brancos” de várias outras produções do gênero) atinjam seu objetivo. O problema – para os protagonistas – é que o diretor não apenas rende-se a uma tradução visceral do que a I Guerra Mundial realmente foi, mas aproveita as histórias de seu avô Alfred Mendes para criar uma experiência imersiva e repleta de obstáculos mortais.

A obra é um cruel jogo que se inicia com uma missão impossível: os jovens William Schofield (George MacKay) e Tom Blake (Dean-Charles Chapman) são encarregados pelo General Erinmore (Colin Firth) de entregar uma mensagem de extrema importância do outro lado do campo de batalha e que pode salvar a vida de 1600 homens que estão sendo arrastados sem o menor conhecimento para uma armadilha feita pelas tropas alemãs. Mais do que isso, eles têm apenas 48 horas para cumprir a tarefa antes que tudo tenha sido em vão e seus inimigos vençam mais uma batalha. E, diferente do que poderíamos esperar de uma narrativa desse tipo, o roteiro assinado por Mendes e por Krysty Wilson-Cairns é dinâmico em sua completude, bombardeando o público com uma frenética, incontrolável e intimista análise antropológica.

Se os primeiros filmes de guerra exaltavam um patriotismo exacerbado e calmamente buscando outros pontos de vista com o passar do tempo, 1917 encontra-se com um dilema moral que é traduzido para a própria existência dos soldados. À medida que o primeiro ato se conclui em experiência de quase morte – incluindo um esconderijo minado nas trincheiras inimigas que nos é entregue sem qualquer premeditação -, a exploração da dor decorrente da perda torna-se insuportável: em dado momento, Will e Tom buscam por algum momento de humanização dentro de uma atmosfera tensa e polarizada, tentando salvar um piloto alemão que foi atingido pelos britânicos e que, num impulso, esfaqueia Tom e o “presenteia” com um dramático fim.

Enquanto o choque insurge como elemento necessário para garantir nosso envolvimento, é a proposital falta de reação de Will ao que aconteceu que alimenta a inexpressividade histórica com a qual os relatos das grandes guerras são construídos: o personagem de MacKay parece condicionado a internalizar sua individualidade e não deixar que suas emoções o atrapalhem na missão – e é aqui que o conceito supracitado de patriotismo é posto em xeque mais uma vez. Como se não bastasse, observamos impotentes dois jovens atravessarem um tabuleiro que divide-se em várias fases, incluindo um cemitério de máquinas e uma cidade-fantasma em ruínas.

Mendes investe seus esforços em temáticas que procuram se afastar ao máximo do heroísmo maniqueísta das décadas passadas ao abrir espaço para críticas até mesmo espirituais para aqueles que se sujeitaram à ganância de outrem: a cidade em questão pela qual Will é obrigado a atravessar sozinho é retirada de um pesadelo inescapável, nos encarcerando em uma terra sem fé e nos engolfando num lugar abandonado pela esperança. A expressão máxima desse explícito desconsolo ergue-se no momento em que o único sobrevivente vê-se frente a frente com uma igreja em chamas, cuja única estrutura em pé é uma desbotada cruz católica. E, ainda assim, ele resgata de seu âmago uma centelha de empatia ao cruzar caminho com uma mulher e um bebê franceses que se refugiam nos escombros sufocantes.

Por um lado, o roteiro arquiteta uma jornada tour-de-force que estende-se para um purismo cinematográfico aplaudível em todos os sentidos. Roger Deakins comanda uma emocionante e melancólica fotografia recuada para uma paleta monocromática e moribunda que não nos permite desviar o olhar por um momento sequer; Thomas Newman, trabalhando mais uma vez ao lado do diretor, traça um caminho diferente do que imaginávamos e se distancia da eloquência orquestral de Skyfall ou Um Sonho de Liberdade. Em vez disso, o compositor opta por um acétido minimalismo que, apesar de redundante e esbarrando num pedantismo sentimentalista, é competente em nos guiar nesse arco secular.

O longa nos drena para além de um mero drama bélico. Na verdade, mescla aspectos documentários dentro de uma paisagem pintada pelas genuínas performances tanto dos atores principais quanto da momentânea presença de coadjuvantes (incluindo Mark Strong e Benedict Cumberbatch). No final das contas, 1917 perfileira uma profusão de acontecimentos que nos leva a refletir sobre as consequências de uma designação bem-sucedida; afinal, Will cumpre o que lhe foi comandado, mas a que preço?

1917 (Idem– Estados Unidos, Reino Unido, 2019)

Direção: Sam Mendes
Roteiro: Sam Mendes, Krysty Wilson-Cairns
Elenco: George MacKay, Dean-Charles Chapman, Colin Firth, Mark Strong, Benedict Cumberbatch, Andrew Scott, Richard Madden
Duração: 119 min.