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Início essa crítica apenas fazendo um pequeno clamor em favor do filme aqui em questão, pois se você leitor(a) é um admirador do gênero Noir, ou que busca prestigiar um filme de um diretor como Orson Welles na melhor versão e forma possível, ou se você apenas busque um filme clássico de crimes e policiais estilo bem realizado, apenas faça um favor a si mesmo e busque assistir apenas à versão remasterizada da obra-prima de Orson Welles aqui em análise. E que, sem dúvida, é a única versão que existe que mais chegou perto de concretizar a visão original que o seu diretor tinha para seu trabalho de gênio que fora tão maltratado.

Exatamente como fora o caso similar a tantos de seus filmes que foram tirados do controle de Welles e remontados para atingir um lançamento mais comercial, destruindo e desrespeitando tudo que havia da visão original do diretor. Mas graças o lendário editor de filmes Walter Murch, que usou um memorando de anotações do próprio Orson Welles que detalhava todas alterações que resultariam na versão que ele originalmente queria para o filme, adicionando todo o material filmado por Welles e finalmente fazendo a grande obra que é A Marca da Maldade.

A trama consiste no bem básico de um filme Noir, começando quando o agente de Narcóticos Mike Vargas (Charlton Heston) é forçado a interromper sua lua de mel na fronteira entre México e EUA, quando um empreiteiro americano é morto depois que alguém planta uma bomba em seu carro, explodindo exatamente no lado Americano da fronteira, ficando claro que a bomba foi plantada no lado mexicano. Vargas adentra na investigação em simultâneo o Capitão da Polícia Hank Quinlan (Orson Welles) que chega ao local e fica no comando da investigação do lado dos EUA e ele logo tem um suspeito, um mexicano chamado Manolo Sanchez.

Mas durante uma interrogação, Vargas vê Quinlan e seu parceiro, o sargento Pete Menzies (Joseph Calleia), plantando provas para condenar Sanchez. Com sua esposa americana, Susie (Janet Leigh), supostamente segura em um hotel no lado americano da fronteira, ele começa a rever os casos anteriores de Quinlan para achar provas que incriminem o policial corrupto. Mas suas descobertas podem ter colocado a vida dele e de sua esposa, em perigo quando percebe que a família Grandi, lordes do tráfico entre o México e os EUA que ele vinha montando um processo contra, podem estar envolvidos com Quinlan.

Transformando um gênero

Escuso de logo dizer que A Marca da Maldade pode não ser uma obra de perfeição irretocável como Cidadão Kane cuja sombra sempre lhe perseguiu, mas ainda sim é um filme que se mostra ser um dos exemplos mais notáveis do melhor que a direção de Welles tinha para com seus filmes e como criava um tipo muito particular de estilo de filmagem, e principalmente, extremamente versátil. Sempre buscando se inovar e adaptar-se a diferentes gêneros e maneiras de contar sua história de maneira envolvente e igualmente desafiadora no qual sempre explorou personagens difíceis e o universo em que habitavam.

Então parafraseando o óbvio, A Marca da Maldade é algo muito além do que apenas o plano sequência coberto de tensão que criou a icônica cena intro do filme. Tão icônica que até poupa os milhares de comentários engrandecedores que já lhe foram feita ao longo dos anos, a forma com que cria a tensão de forma imediata e que vai em um constante e ininterrupto crescendo beneficiado pelo incrível plano sequência que o compõe, com a câmera passando de mão a mão, de grua para uma visão de cima da cidade e depois de volta à rua, tudo enquanto o público aguarda com os nervos à flor da pele o resultado explosivo iminente.

Quase que uma tradução visual de um perfeito suspense de Alfred Hitchcock, só que elevado ao formato de uma belíssima tomada longa de cinco minutos sem cortar e que veio a inspirar gerações inteiras de diretores, e discutivelmente talvez o pedaço mais famoso de A Marca da Maldade até hoje, mas você já deve saber disso. Porém, a maior tensão de todas aqui, é como sua trama se desenrola de formas imprevisíveis e como Welles busca fazer disso um caminho para novamente se inovar como diretor.

Pois o que já impressiona de cara, é notar que até mesmo em um gênero como o Noir, que o diretor/ator já havia antes se aventurado de forma bem convencional e comercial (embora bem decente) com o seu esquecido O Estranho; Welles não deixa passar nenhuma das oportunidades de colocar em prática sua marca revolucionária que sempre lhe veio de forma instintiva. Com o diretor conseguindo distorcer tudo que poderia se esperar de um filme do gênero, ainda mais na época um tanto tardia ao grande boom do filme Noir no cinema e que A Marca da Maldade fora lançado.

Realizando aqui uma das várias transições históricas pelo qual o gênero já havia passado antes, com Marca da Maldade mostrando uma verdadeira transformação, do que antes eram histórias de crime e policial, glamorizados com romance e personagens charmosos vivendo em um mundo de luxo e de bússola moral em intenso conflito interno, e com a violência sempre a sua espreita.

Enquanto agora aqui, nas mãos de Welles, se torna um mundo sujo, pérfido, quase erótico e vazio governado pela desordem. Mergulhando o público nesse universo que mais remete à um pesadelo vivo, onde a ordem dos decorrentes eventos da trama beiram o estranhismo e ao bizarro. Que seguem uma linha lógica, mas desafia o espectador à não perder atenção de nada em nenhum momento, graças à um roteiro sagaz que nunca dá as respostas ao público de imediato, mas nunca o deixa totalmente perdido sobre o que está decorrendo na trama, mas o bastante para nos deixar se questionando à todo o instante sobre o que raio está acontecendo.

Mas sim, faz com que o próprio comando das ações parecem fugir do controle dos seus personagens e que logo se tornam as verdadeiras vítimas do cenário que as cerca, com o mal espreitando à todos os momentos como uma força macabra que habita a assustadora índole de seus personagens criminosos. Policias, traficantes, inocentes e culpados, seja quem for.

Onde as grandes metrópoles são trocadas por vastos desertos, a trilha sonora antes mergulhada nas recorrentes sinfonias jazz clássico é substituída pelos tambores tribais e seu som repercussionista frenético, e a excelente história de crime e investigação presente é capaz de desafiar todos os conceitos sobre o que é moralmente certo e ambíguo no ramo de se fazer a justiça, o trabalho mais difícil e talvez impossível de todos.

A Tragédia da Moral

Tudo isso encapsulado no fantástico personagem do capitão Hank Quinlan de um Welles como sempre magnético em suas atuações e especialmente com essa que pode ser discutivelmente considerada talvez como a sua melhor. Interpretando um homem que carrega o peso (metafórico e literal) de um homem da lei desgastado pelo trabalho sujo e os anos de legado e respeito construídos a base de mentiras e corrupção que sempre foram o caminho mais fácil para se sobreviver nesse universo.

Além de claro representar outro magnífico estudo de personagem que Welles sempre realizou em seus filmes e novamente aqui, e que rouba quase que todos os holofotes de protagonismo do casal de estrelas formado por Charlton Heston e Janet Leigh, que não pertencem à lugar nenhum nesse universo fúnebre e sujo de traições. Ainda mais a pobre Leigh cujo basicamente se torna a donzela em desespero sendo oprimida e atacada de todos os lados possíveis, e coincidentemente outro filme onde a atriz interpreta uma personagem que se hospeda em um Motel num lugar remoto e é atacada por seus misteriosos moradores. Lembra algo?

Enquanto Heston quase se torna essa imagem caricata em cena com sua maquiagem de pele morena que parece uma fantasia de Mexicano, mas o charme imbatível do ator ajuda a não estragar em nada. E cujo personagem Vargas acaba criando um perfeito contraparte ao personagem de Quinlan, alguém que mais parece um homem querendo escapar daquele mundo sujo que o cerca, seja o México, a fronteira, sua nação categorizada ali como o pior lugar de se existir, mas cujo sua bússola moral ainda não quebrada o prende a este lugar.

Com ambos os homens da lei são divididos por uma forte oposição moral. Quinlan como esse clássico policial corrupto que age como bem quer e no que diz ser o certo, e Vargas como esse perfeito escoteiro, um exemplo de moral e ética irretocável. Mas cujo se mostra haver uma fragilidade de todos esses conceitos quando o real desespero da situação atinge ambos os lados diferentes de se fazer justiça e como um dia bem ruim pode redefinir esses personagens.

Quando Vargas se vê instantes de seguir o caminho de Quinlan quando o medo de perder a esposa o faz explodir em violência, e Quinlan de perceber as consequências de sua traição, contra o seu trabalho e contra o leal colega Pete que sempre cegamente acreditou na índole de Quinlan.

Solidificando A Marca da Maldade no final como uma tragédia concreta de personagens, que consegue ser amplamente realista como também quase surreal em sua estrutura tão inspirada. Ou seja, um perfeito filme Noir de cabo a rabo, mas que consegue essa identidade de uma verdadeira obra-prima que o gênio por detrás do filme sempre foi capaz de criar.

A Marca da Maldade (Touch of Evil – EUA, 1958)

Diretor: Orson Welles
Roteiro: Orson Welles (baseado no livro de Whit Masterson, Badge of Evil)
Elenco: Charlton Heston, Orson Welles, Janet Leigh, Joseph Calleia, Joanna Moore, Akim Tamiroff
Gênero: Noir, Thriller, Drama
Duração: 111 min.

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