Mesmo tendo que se adaptar às limitações tecnológicas dos anos 1970, O Incrível Hulk foi uma das mais felizes transposições dos quadrinhos para a tevê: trazendo o veterano Bill Bixby como o cientista David Banner (sim, David) e o fisiculturista Lou Ferrigno (ex-rival de Arnold Schwarzenegger) como o Golias Esmeralda, a série se importava mais com o drama que o Hulk certamente despertava e menos com o quebra-quebra que ele provocava. Além disso, não haviam vilões monstruosos, invasões alienígenas, dimensões paralelas ou bombas de radiação gama; a história se situava num cenário bem mais palpável, abordando problemas mundanos como vício em drogas, pais abusivos, deficiências mentais ou físicas, conflitos familiares, investigações e criminosos que não eram mais que… simples criminosos. No centro disso tudo, tínhamos as feridas emocionais de David Banner, um sujeito atormentado tanto pelo que viveu no passado quanto por quem pode ser no presente – e após ser dado como morto, o coitado cruzou os Estados Unidos usando nomes falsos e arranjando empregos pequenos enquanto buscava por uma cura para a sua maldição.

Era, portanto, um seriado que não merecia ser continuado através de um telefilme tão tosco e problemático que nada mais é do que uma tentativa de aproveitar a popularidade do verdão para dar início a uma série do Thor (que, é claro, nunca viu a luz do dia).

Dirigido e escrito pelo mesmo Nicholas Corea que comandou vários episódios do seriado original, A Volta do Incrível Hulk foi exibido pela NBC em 22 de maio de 1988 e mais uma vez mostra David Banner levando uma vida de disfarces, adotando o nome pseudônimo de David Bannion. Já há dois anos sem se transformar em Hulk, o indivíduo namora a colega Margaret Shaw e trabalha num instituto de pesquisas científicas, conseguindo a proeza de construir uma máquina que talvez o liberte de sua doença: o aparelho Transponder (que faz… sei lá o quê). Quando está prestes a chegar num resultado, porém, David é interrompido pelo encrenqueiro Donald Blake, que traz consigo um problema de proporções mitológicas (literalmente): o poderoso Thor, que é ressuscitado sempre que Blake empunha um martelo e clama pelo deus Odin. Para complicar ainda mais a situação, um grupo de criminosos faz de tudo para roubar o Transponder e chega a sequestrar a doutora Shaw a fim de chantagear David Banner, o que leva Hulk e Thor a enfrentarem a quadrilha num confronto épico.

Ok, nem tanto…

Os absurdos de A Volta do Incrível Hulk já começam nos primeiros minutos (alguns também existiam no seriado original): em primeiro lugar, Banner precisa ser mais sutil nos pseudônimos que escolhe, pois David Bannion é meio óbvio (o mesmo seria se eu tentasse me ocultar trocando o “Pedro Guedes” por um “Pedro Guerra”). Mas este é o menor dos males, já que, depois disso, ninguém parece estranhar a ojeriza incrivelmente suspeita que Banner (perdão: Bannion) tem por câmeras e publicidade, sendo impressionante também que ninguém faça a menor ideia de como era o rosto do supostamente falecido David Banner (que, se não me engano, tinha um renome no meio acadêmico). Isso sem contar que a própria estrutura do roteiro é uma tremenda bagunça: o problema que os heróis terão que enfrentar só é introduzido de fato depois da metade do segundo ato e – o mais grave – não tem nada a ver com Donald Blake ou Thor, o que inutiliza completamente a presença da dupla (que nada mais é do que uma gordura narrativa).

Mas essa nem é a pior parte: o que mais chama a atenção (para o bem ou para o mal) em A Volta do Incrível Hulk é o seu senso de humor irreverente e constante que beira o pastelão, provavelmente antevendo o tom que caracterizaria a série do Thor. Sempre garantidas pelo viking fanfarrão vivido por Eric Allan Kramer (quem?), as gracinhas feitas pelo Deus do Trovão escancaram sua mentalidade de adolescente burro e ridicularizam o fato de que ele é um peixe fora d’água, dando origem a momentos impagáveis como aquele onde Thor chama um táxi enquanto conversa com um embriagado Donald Blake – e não há como ignorar a sequência onde o brutamontes soca a porta de uma geladeira, abre um engradado de cervejas com facadas, bebe um jarro de álcool e declara a sua admiração pelas magias de… um chuveiro. O problema, contudo, é que essas piadinhas não têm nada a ver com a essência dramática e adulta que sempre existiu em O Incrível Hulk, o que desvirtua o tom da obra original. Há também alguns diálogos que despertam gargalhadas, mas que não foram necessariamente pensados com este objetivo: como levar Donald Blake a sério quando ele diz que Thor é “tão real quanto este balcão, só que maior“?

E se o roteiro é uma coisa patética, os valores técnicos da produção atingem níveis transcendentais de ruindade: não há nada que pareça ter custado mais que 100 dólares, o que fica latente quando percebemos que vários dos adereços cênicos são feitos de papelão ou plástico (até mesmo o Mjölnir parece feito de isopor!). E se o uniforme do Thor soa mais como um “Asterix malhado por R$ 1,99”, a tinta verde e a peruca colocadas em Lou Ferrigno são claramente inferiores àquelas usadas na série original, desgastando-se com o passar do tempo e transformando o fisiculturista na Cuca, de Sítio do Pica-Pau Amarelo. Aliás, a incompetência de Nicholas Corea como roteirista também se aplica ao seu desempenho como diretor, já que o sujeito transforma as sequências de ação num festival de horrores (não há como não se constranger na cena em que os heróis despencam de um helicóptero), mostra o Hulk através de uma câmera lenta xexelenta (ele obviamente filmou tudo em velocidade normal e desacelerou na hora da edição em vez de adotar um frame rate maior desde o princípio) e comete o erro primário de saltar o eixo durante uma partida de tênis (assim, torna-se difícil entender quem está de que lado da quadra). A propósito: eu cheguei a comentar que, durante a batalha final, Thor usa uma tampa de lixeira como escudo?

Dito isso, é possível se entreter imensamente com A Volta do Incrível Hulk, que, mesmo se encarando como um legítimo filme de super-heróis com alguns alívios cômicos pontuais, nada mais é do que uma galhofa gigantesca – e posso dizer que prefiro rever essa bobagem várias vezes a ter que me submeter novamente a atrocidades como O Espetacular Homem-Aranha 2, Quarteto Fantástico ou Esquadrão Suicida. É inevitável: quando Bill Bixby cede seu lugar a Lou Ferrigno e este sai berrando, correndo e quebrando tudo à sua volta ao lado de Eric Allan Kramer, a diversão é garantida. Por outro lado, não há nada que faça com que a trilha sonora torne-se minimamente tolerável, investindo em batidas horrorosas e rifes de guitarra que entram de maneira abrupta.

Herdando algumas características do seriado de tevê (como a abertura, os olhos verdes que prenunciam a chegada do monstro, a presença do repórter Jack McGee e a melodia melancólica que acompanha o protagonista nas estradas), A Volta do Incrível Hulk ao menos ganha pontos graças à ótima presença de Bill Bixby, que encarna David Banner como um indivíduo inicialmente otimista e mais seguro consigo mesmo, mas que gradualmente entra numa situação indesejável onde tudo é posto em risco (e o que é mais admirável é ver como Bixby salta entre essas nuances sem jamais abandonar sua personalidade séria, adulta e experiente).

Assim, a performance de Bill Bixby e as esquisitices da produção fazem de A Volta do Incrível Hulk um passatempo razoável, ainda que seja pelos motivos errados. Mas é difícil aceitar um filme onde um gênio como David Banner põe um aparelho eletrônico para derreter num microondas…

A Volta do Incrível Hulk (The Incredible Hulk Returns, 1988 – EUA)

Criado por: Kenneth Johnson
Direção: Nicholas Corea
Roteiro: Nicholas Corea
Elenco: Bill Bixby, Lou Ferrigno, Steve Levitt, Eric Allan Kramer, Lee Purcell, Tim Thomerson, Charles Napier, John Gabriel, Jay Baker e Jack Colvin
Emissora: NBC
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 94 minutos