» Siga o Bastidores no Facebook , Instagram e no Twitter para saber todas as notícias sobre cinema «

Obs: Cuidado com os spoilers!

O episódio anterior de Agents of S.H.I.E.L.D. me decepcionou bastante. Como havia dito, a série que apresentou uma clara evolução em seus episódios iniciais, derrapou feio ao cometer erros grotescos, que já foram habituais um dia ao programa. O desenvolvimento de subtramas desinteressantes e a falta de respeito da edição com o clímax que poderia resultar em uma cena épica, também me preocuparam com o futuro da série.

Felizmente, Lockup surge rapidamente, trazendo um fio de esperança neste exemplar bem divertido.

Joseph e Lucy, cientistas da Momentum Energy, saem em busca pelo Darkhold mais uma vez. Após diversas tentativa de encontrar o livro, vasculhando em diversos lugares, o casal aposta sem muitas esperanças em um porão abandonado. Caminhando no local, a atenção de Lucy é chamada para determinado canto com uma anomalia vindo do chão. Sem perder tempo, descobre a borda de uma tampa de pedra, tirando-a dali, revelando um compartimento escondendo o objeto mágico coberto de um simples pano. Quando aberto, o livro causa estranheza em ambos, pois o conteúdo das páginas era lida em línguas diferentes tanto para um quanto para o outro. “E se, de alguma forma, ele é que nos está lendo?”, pergunta ela. Uma cena no passado. Logo, voltamos ao presente para um enlouquecido Joseph. Em seus últimos segundos de vida, revela o local em que guardou o livro.

Que início!

A respeito da primeira parte, a do porão, é preciso salientar como o cenário é bem construído. O espectador mais desatento (ou menos conhecedor das histórias do Espírito de Vingança), certamente não notará o punhado de referências aqui presente. Um cartaz de Quentin Carnival, garfos de motocicletas espalhados pelo local, correntes, e, mais surpreendente, uma jaqueta de couro. Creio ser um tanto redundante dizer a quem pertence este porão velho, então vou me abster em citar o nome.

Meu único problema para esta cena, é ela não ter sido inserida antes. Lembre-se como Uprising deixou totalmente de lado o misticismo da série, e, em seguida, Let Me Stand Next To Your Fire voltou a trabalhar o tema, porém é interrompido com as subtramas desnecessárias. Também, o Darkhold é citado por um dos Fantasmas da Momentum, mas logo é abandonado. A série simplesmente não sabe o que trabalhar e quando trabalhar. Uma hora cai em uma aventura espiã, outra em questões filosóficas envolvendo I.A., e então o misticismo, ou uma mistura total com todos estes enredos.

A questão do tom já foi resolvida, não é este o problema aqui. O ponto abordado é acerca sobre o desenvolvimento da narrativa. Resumindo: parecem começar pelo meio, depois partem para o princípio, e então vão para o final.

Outro ponto a ressaltar, a trilha sonora do competente Bear McCreary, autor das lindíssimas composições de Outlander, que sempre passa despercebida ou má inserida no programa, aqui funciona perfeitamente. No prólogo em questão, por exemplo, McCreary trabalha bem no início da cena incluindo os violinos ao fundo de maneira bem sutil, porém, ao desenrolar-se, a música evolui tornando-se mais presente e no momento que o Darkhold é apresentado, repare como os leves toques de piano são encaixados perfeitamente.

Seguindo adiante, Coulson decide reivindicar a custódia de Eli Morrow para ajudar nas investigações. Chegando no presídio, o agente e sua colega May, já de volta à ativa, dirigem-se à sala do diretor. Inteligente, May nota como os detalhes encontram-se estranhamente fora de ordem. A cafeteira está ligada porém sem jarra, a porta de saída está sendo trancada, o telefone de mesa fora do gancho. E, então, são surpreendidos com tiros do diretor.

A ação deste episódio é muito divertida, mesmo que em algumas cenas, especificamente a reação de May ao diretor do presídio, seja picotada em diversos planos. No entanto, é difícil não se empolgar com um escudo holográfico saindo da mão biônica de Coulson. Além disso, há muita pancadaria entre Quake e membros do Watchdogs que também estão encarcerados ali.

Quanto ao Motorista, o personagem encontra-se apertado em uma via de mão dupla: ajudar Coulson e equipe a resgatar seu tio, Morrow, protegendo eles da fantasma Lucy e de outros espíritos, ou seguir sua moral instintiva de Espírito de Vingança e eliminar alguns criminosos. O roteiro faz com que ele siga os dois caminhos. Após conseguir resgatar Morrow, Robbie guia-o para fora em meio a todo caos instalado no presídio. No entanto, ao passar em frente a cela de um dos líderes responsáveis no acidente com seu irmão, sua sede por esclarecimentos fala mais alto.

Há dois pontos desta parte que considero bem incoerentes. Primeiro, no meio de uma rebelião com criminosos de alta periculosidade, é uma atitude bem estúpida deixar uma pessoa que ama prosseguir o caminho. Segundo, é estranho como ninguém do cenário busca interagir com Robbie enquanto ele simplesmente está parado conversando com alguém. Francamente, um trabalho de figuração muito mau feito.

Entretanto, o diálogo entre Robbie e o preso é bem compensatório. Mesmo que alegue estar “mudado” após os últimos anos, o sujeito não convence, sendo morto logo em seguida por Motorista. Na cena que se prossegue, os roteiristas resolvem optar por uma cena não explícita, buscando uma interpretação maior do espectador. Os gritos da vítima, o fogo incendiado naquele pequeno espaço, mais a figura fantasmagórica de Motorista saindo do local em caminhada imponente, já foram suficientes. Espero mais disso no futuro.

Em meio a isso, não posso deixar de comentar o também ótimo momento de Jeffrey Mace neste episódio. Durante o teste de polígrafo de Simmons, o diretor interrompe as perguntas para surpresa da agente. Apreensiva e com medo de ser interrogada pessoalmente pelo chefe, a cientista logo se alivia ao saber que ele precisa apenas de uma ajuda em uma entrevista. Com as perguntas afiadas da senadora, Mace vê-se irritado desligando sua escuta com Simmons e escolhendo palavras próprias, revelando-se, então, um inumano frente ao público.

A performance de Jason O’Mara mais uma vez é ótima no papel de Mace, deixando-nos com vontade de que o personagem tenha mais presença na história – e graças a resolução final de Lockup, tudo indica que é exatamente isso que vai acontecer. Uma ótima cena. A reação do público e a repercussão que ainda pode ser causada ao decorrer desta temporada, o potencial aqui é claro.

A participação dele e de Simmons demonstram o controle maior deste episódio comparado ao anterior. O consumo de tempo é contido, porém usado de maneira inteligente sem comprometer a experiência com a trama central. No entanto, a participação de Simmons serve para mostrar como a personagem está perdida na série. Um homem que consegue restabelecer uma organização tão importante como a S.H.I.E.L.D., que tem culhões para se revelar inumano em rede nacional, mais outros feitos importantes na história do mesmo… Difícil crer que ele precisa de ajuda com uma entrevista.

Lockup mantém a estrutura já estabelecida na série, porém uma historia bem focada, seguida de uma ação divertida, comprovam que a série possui ainda potencial de atingir novos limites. A direção é mais acertada e fora do comum proporcionado, encaixando a trilha de McCreary corretamente onde deveria, e o roteiro apresenta um ótimo diálogo no final.

Escrito por Kevin Castro

Comente!