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O último episódio de American Horror Story foi trágico por todos os motivos errados. Além de desperdiçar um capítulo essencial para a progressão da temporada, a construção dos eventos e a relação entre (mais) novos personagens foram desenvolvidas com uma crueza sofrível, abandonando a fluidez cênica em nome da canastrice pura. Apesar da sustância das investidas anteriores, já era de se esperar que a série caísse em promessas falsas de conseguir se manter mesmo se respaldando em um eterno flashback explicativo. Para aqueles que não se recordam, já estamos há cinco semanas em um passado remoto, buscando explicações atrás de explicações que reflitam nos motivos do apocalipse profetizado pela chegada do Anticristo ao nosso mundo e que, no final das contas, são desnecessários.

Não tiro mérito de Ryan Murphy e Brad Falchuk em criar algo diferenciado das temporadas anteriores. Afinal, no geral, Apocalypse se apresentou com bom proveito por parte do público, ainda mais por unir pontas soltas e retornar a alguns dos microcosmos mais queridos pelos fãs – Coven e Murder House. É claro que, além dos inúmeros fan services, pontuais escolhas de roteiro e de elenco foram essenciais para nos manter envolvidos pelas sobrenaturais tramas. Entretanto, é inegável dizer que o oitavo ano se aproxima de seu fim, e os showrunners têm apenas um episódio para terminar qualquer que tenha sido a história que criaram. E mesmo com esse crescente medo, Fire and Reign, como ficou intitulado o mais novo episódio, retorna para os dias de glória da série.

Aqui, Michael Langdon (Cody Fern) continua com seu projeto apocalíptico e promete cumprir as missões que lhe foram incumbidas nos tempos bíblicos. Sendo o filho escolhido de Satã, o habilidoso jovem é agora movido pelo ódio puro contra as bruxas, responsáveis pela morte de sua guia, mentora e guardiã Miriam Mead (Kathy Bates) e de seus aliados dentro do clã de Warlocks. Conseguindo revivê-la na forma de um robô, com a ajuda de Jeff (Evan Peters) e Mutt (Billy Eichner), o Anticristo tem o desejo de se vingar contra suas inimigas, jurando matá-las uma a uma até que nenhuma delas esteja viva. E tal qual é a nossa surpresa quando o show retorna bruscamente às suas sequências de tirar o fôlego ao criar uma subtrama de traição e orquestrando um massacre dentro da Academia Robichaux, destruindo as aprendizas e outras personagens marcantes.

Após se aliarem com Dinah Stevens (Adina Porter), Michael e Miriam quebram o feitiço de proteção ao redor da escola e, numa montagem aplaudível que retoma certos preceitos dos clássicos de ação e aventura, eliminam sumariamente quem ousar se opor. Não há misericórdia, apenas uma onda de ressentimento que culmina em um dos maiores derramamentos de sangue de toda a série. Mas não se enganem ao pensar que a decisão de riscar da lista nomes importantes, como Zoe (Taissa Farmiga) e Queenie (Gabourey Sidibe) parte dos convencionalismos ocasionais: as subtramas anteriores nos preparam para esse momento e reafirmam o poderio de Michael em relação a todos os outros seres mortais.

A catarse prenunciada se mantém pelos outros atos e serve como respaldo para a incontrolável sede de caos do antagonista principal. Tomado inteiramente pela escuridão, ele também assassina os membros de seu antigo clã de modo brutal e coloca Cordelia (Sarah Paulson), uma das últimas forças a conseguir enfrentá-lo, em um beco sem saída à medida que tenta reviver mais uma vez suas meninas. O problema é que Michael não apenas as matou, mas destruiu suas almas de uma vez por todas, simplesmente deixando uma carcaça vazia. É justamente aqui que a Suprema, percebendo que seus poderes estão se esvaindo cada vez mais, encara a realidade e aceita o iminente fim do mundo. Haverá fogo, isso já ficou muito claro: mas o ponto alto jaz com o conformismo compulsório e com a demonstração de fraqueza humana, deixando-a ainda mais complexa e endossando sua figura com uma das melhores já criadas para a antologia.

De qualquer modo, Jennifer Arnold, tomando as rédeas da direção do episódio, opta por algo um pouco mais autoral ao invés de mimetizar os maneirismos de Murphy e Falchuk. O intimismo da primeira trinca de capítulos retorna com força, mesmo em ambientes abertos, e faz-se ainda mais presente quando as bruxas remanescentes se refugiam na velha choupana de Misty Day (Lily Rabe), cuja personalidade definitivamente faz falta. Lá, percebem cada vez mais que Mallory (Billie Lourd) é dotada de poderes muito além do que poderiam prever, e que sua índole essencialmente bondosa pode ser uma das ameaças ao reinado de trevas do Anticristo. De fato, Lourd e Paulson roubam a cena com performances irretocáveis, esta por conseguir encarnar duas personalidades diferentes com Cordelia e com Wihelmina Venable, a qual retorna para mais uma correnteza de falas ácidas, e aquela por sair da zona de conforto da comédia pastelão e entregar-se à dramaticidade exigida por sua personagem.

Ademais, não é muito tarde para que a série se salve de uma terrível season finale. É claro que a história permaneceu tempo demais no passado, e talvez essa tenha sido a ideia por trás dos criadores. De qualquer modo, é preciso esperar para ver, e American Horror Story deve encontrar um jeito de ter feito essa miscelânea temporal valer a pena, ou as consequências em relação aos fãs serão irreparáveis.

American Horror Story – 08×09: Fire and Reign (Idem, 2018 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Jennifer Arnold
Roteiro: Asha Michelle Wilson
Elenco: Sarah Paulson, Cody Fern, Evan Peters, Billy Eichner, Emma Roberts, Billie Lourd, Francis Conroy, Taissa Farmiga, Gabourey Sidibe, Adina Porter, Kathy Bates
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

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