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Após o grande fiasco narrativo e supersaturado de Freakshow, Ryan Murphy, Brad Falchuk e todo o time criativo que os ajudou desde a primeira iteração de American Horror Story perceberam que a adição cada vez mais frequentes de elementos únicos para cada um dos anos estava começando a se fixar muito aos clichês. Até mesmo a grandiosidade subestimada de Coven teve seus claros deslizes e abriram espaço para algumas ousadias fracassadas – não podemos tirar mérito da incrível maturação dos personagens, é claro, mas o foco aqui é como cada uma das subtramas permanece num estado de inconclusão inexplicável.

Em Hotel, as coisas parecem mudar de perspectiva, não apenas com a misteriosa e inquietante adição de Lady Gaga ao elenco protagonista, mas também com a decisão de convergir diversas obras-primas do gênero do terror para um único locus, transformando a quinta temporada em uma das mais ousadas em termos estéticos e visuais – mas em uma das mais inconstantes também, seja pelo ritmo dos acontecimentos ou pelas múltiplas narrativas paralelas. Apesar das duras críticas mixas e da aceitação parcial por parte do público, é inegável dizer que essa nova iteração tem seus momentos de glória, ainda que não recupere totalmente a crueza e o gore dos anos anteriores.

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Já se tornou hábito dentro do macrocosmos de AHS a presença de um breve prólogo para nos introduzir a um novo cenário perscrutado por assassinatos, sangue e o melhor do sobrenatural. As inúmeras referências já começam por aqui – e podemos traçar uma linha identitária que recupera as pequenas sequências iniciais de franquias como A Hora do Pesadelo e Pânico, cuja estética slasher influencia com magnitude inenarrável a antologia de Murphy e Falchuk. Aqui, seguimos a breve história de duas turistas europeias que chegam ao Hotel Cortez e são rapidamente assombradas por figuras fantasmagóricas e demoníacas até cederem a forças superiores e encontrarem seu fim dentro dos corredores claustrofóbicos.

Temos indícios sutis de que esta será a temporada mais poética e também mais perturbadora em termos narrativos pela condução do primeiro episódio. É possível sim traçar uma linha cronológica de cada um dos eventos, mas a convergência dos personagens ainda emerge como algo muito questionável. Kathy Bates retorna para mais essa iteração como a recepcionista Iris, cujo semblante de plenitude na verdade esconde uma personalidade controladora e inflexível, principalmente em virtude das ações de seu filho Donovan (Matt Bomer), que insiste em negar seu amor e a curvar-se a uma vida de prazeres mundanos e pecaminosos.

Apenas com estes dois personagens pode-se perceber um dos temas a ser discutido com muito afinco dentro da temporada – a contraditória relação entre o que é certo e o que é satisfatório. Afinal, Iris e Donovan são forças extremas de uma relação familiar de primeiro grau que vai além dos laços entre mãe e filho que estamos acostumados a ver em produções audiovisuais. Descobrimos, ao longo da série, que a recepcionista conseguiu seu trabalho no Hotel Cortez para poder vigiá-lo e para manter sua proximidade com o que ele representa agora – uma ameaça para si próprio e para a sociedade, visto que transformou-se em vampiro pelas mãos da Condessa (Gaga), uma das personagens mais charmosas e mais sedutoras da franquia. A manda-chuva do hotel é, na verdade, uma espécie de Messias para os visitantes, convidando-os a passar não apenas uma noite nos quartos, mas sim a eternidade, protegendo-os como se fossem seus próprios filhos.

Denis O’Hare também marca presença como a governanta e drag queen Liz Taylor (uma clara homenagem ao ícone do cinema clássico Elizabeth Taylor, conhecida por seu senso de alta-costura inegável e por sua beleza indescritível). Diferentemente das temporadas anteriores, Hotel procura tratar sobre assuntos de gênero ao colocar uma personagem que constantemente é atacado por sua orientação sexual e por suas preferências estilísticas, obrigado a literalmente se esconder nos quartos em detrimento de ser quem gostaria. Perto de seus colegas de trabalho, Liz porta-se como um homem de negócios – mas assim que tem a oportunidade, abandona a máscara padronizada para se enfiar em vestidos Prada e sentir-se como bem quiser.

Uma das personagens mais complexas da temporada é aquela que também emerge como representação material do tema principal: Sally Hipodérmica (Sarah Paulson). Sua construção através dos episódios pode não ser uma das melhores, mas isso só ocorre pelo fato dela já estar morta e já ter cumprido sua missão dentro dos limites do plano terrestre. Encontrando seu fim devido às drogas, sua inclinação aos vícios não se restringe apenas ao arco pessoal, mas encontra espaço em cada um dos outros personagens: a Condessa tem uma paixão incontrolável não apenas pelo sangue, como premedita sua condição de vampira, mas pelo sexo e pelo controle daqueles que o cercam; Iris, pela necessidade de reafirmação do amor de seu filho pela sua figura doentia e que é capaz de matar para mantê-lo a salvo. Sally, entretanto, é mais poética que todas as outras, por transformar cada um dos assassinatos que comete em uma dança psicodélica e emocionante, como se louvasse cada um dos novos integrantes de sua família, indicando também por sua busca pela aceitação de outrem.

Há também aqueles que estão do lado de fora da bolha apresentada, mas são forçosamente colocados em um caminho de autodestruição que conversa com os personagens já condenados. Wes Bentley, Chloë Sevigny e Shree Crooks encarnam John, Alex e Scarlett Lowe, uma família conturbada e cujas relações estão em queda livre após o sumiço inexplicável do filho mais novo do casal. Após discussões e mais discussões, pai e mãe entraram em um estado de letargia, impactando diretamente na vida da filha. Scarlett foi obrigada a crescer muito mais rápido que qualquer outra criança se quisesse manter a sanidade e ajudar aqueles que precisava. John, por sua vez, é um detetive que começou a se envolver em um dos casos mais chocantes e absurdos de toda sua carreira, o qual começa a tomar forma mais consistente após a metade da temporada. E Alex é uma médica influenciável que deixou toda a reputação que construíra de lado para proteger o que restava de seu legado de sangue, caindo inclusive nas garras da Condessa.

A MIMÉSIS NARRATIVA

Ao mesmo tempo que AHS dá uma nova roupagem a elementos clássicos do horror, o seriado é cheio de homenagens a longas-metragens – principalmente a título do gênero. Desde Murder House, o ano de estreia, percebemos o quão apaixonado Murphy é para criar um hibridismo identitário para sua própria criação, colocando a sutileza de elementos de O Bebê de Rosemary numa perspectiva muito mais gore; em Coven, temos inclinações que vão além da narrativa e fincam-se na fotografia, recuperando a estética de Suspiria.

Entretanto, como supracitado, Hotel é uma temporada essencialmente ousada por se afastar de tramas convincentes e fornecer uma visão bem mais artística e nostálgica para a franquia. A subestimação parte da perspectiva endossada de que o gênero terror deve ter fórmulas a serem seguidas para a aceitação do público, e negar um potencial em construção para recontar narrativas clássicas. O vampirismo, tão abusadamente explorado por autores e roteiristas contemporâneos, retorna às raízes de Drácula para mergulhar de cabeça em personagens mal compreendidas e movidas por um desejo tão milenar quanto a fome ou o instinto de sobrevivência. É a partir daí que faz-se necessário analisar a grandiloquência desta temporada de uma forma livre de preceitos e definitivamente com olhos mais limpos em relação aos outros anos.

A referência de maior peso é, sem sombra de dúvida, na arquitetura do Hotel Cortez. Seja pelos carpetes minimamente detalhas com uma orgia geométrica, ou pela forte paleta de cores fundada no vermelho, no marrom e no dourado, Murphy abre seu leque para selecionar cuidadosamente elementos visuais de O Iluminado para compor sua obra. O longa de Stanley Kubrick conta a história de uma família que passa as férias de inverno em um longínquo hotel chamado Overlook, no qual ficam presos durante uma forte nevasca e começam a ser reféns de percepções extrassensoriais. O filme de 1980 é conhecido por sua construção supersimétrica, assim como Hotel: em outras palavras, a direção antes perscrutada pelos maneirismos exagerados e pela distorção cênica encontra um ponto de apoio e traz intertextualidade com a atmosfera de cada uma das sequências.

David Fincher também não deixa de dar seu auxílio na subtrama envolvendo John Lowe. Afinal, em AHS, o detetive deve desvendar uma série de assassinatos baseados nos Dez Mandamentos, cada qual ocorrido dentro de uma metáfora muito bem construída. Para os amantes do cinema, a premissa lembra com clareza o longa Se7en – Os Sete Crimes Capitais, no qual dois investigadores analisam cenas de morte que reproduzem de forma grotesca os pecados capitais, criação de um homicida que provoca os dois com suas dicas macabras. Apesar de não chegar aos pés da majestuosidade de Fincher, Murphy opta por trazer o sobrenatural a esta porção protagonizada por um serial killer, seja com a aparição de demônios ou com um desfecho inesperado envolvendo a conturbada psique humana.

Era de se esperar que os trejeitos das eternas obras vampirescas fossem reutilizadas com a Condessa ou até mesmo outros personagens – como a arqui-inimiga da nossa “heroína”, Ramona Royale (Angela Bassett). Felizmente, somos apresentados a algo muito mais parecido com Fome de Viver, longa da década de 1980 que trata o vampirismo de uma forma diferente e sensual. Hotel, assim como o filme protagonizado por Catherine Deneuve, David Bowie e Susan Sarandon, retrata uma doença antiga que requer o consumo de sangue e um apelo sexual insaciável. O casal do filme caça suas vítimas com a sedução, seguindo o padrão feito pela Condessa e por Donovan.

As referências não são apenas fílmicas, mas também se alastram para âmbitos históricos, principalmente envolvendo assassinos em série famosos. Lily Rabe, por exemplo, encarna Aileen Wuornos, uma prostituta homicida que já foi interpretada por Charlize Theron nas telonas e que volta para fazer uma breve aparição no episódio Devil’s Night, ao lado de diversos outros serial killers famosos. Evan Peters também dá as caras como o primeiro dono e idealizador do Hotel Cortez, James March, o qual é inspirado em fatos reais, principalmente na vida do excêntrico H.H. Holmes. Traçando comparações, ambos foram donos de franquias de hotéis nos quais construíram passagens secretas para acobertar o vício pelos assassinatos que cometeram, escondendo corpos ainda vivos em corredores sem saída ou empalados nas paredes.

De forma superficial, pode-se pensar que Hotel venha a cair nos mesmos equívocos de Freakshow, principalmente no tocante à quantidade de personagens. Mas a quarta temporada tinha como pano de fundo as criaturas abandonadas pela sociedade em que cresceram por sua deformidades físicas, enquanto o novo ano traz uma leveza poética e metafórica digna de aplausos. Seja pela incrível e fluida performance de Gaga como a protagonista ou pela organicidade dos elementos cênicos, os inúmeros residentes do Cortez entram em função dos erros cometidos pelo ser humano, em detrimento de uma construção arquetípica. Todos eles são combinados em uma determinada parcela de eventos que entra como base para as autodescobertas, por exemplo, de John. É por isso que não vemos backstories definitivas – apenas menções dos passados obscuros que os cercam.

ENTERRE-ME

Se a quinta temporada de American Horror Story parte de uma perspectiva ousada e inovadora, qual é o seu problema? E eu já lhes respondo: o desfecho e a superficialidade sonora. Em outras palavras, Murphy mais uma vez desanda nos últimos episódios da iteração e nos entrega conclusões ao acaso, envolvendo a morte da maioria dos personagens e um término aos moldes de um conto de fadas às avessas. A saturação não vem com o número de subtramas, mas sim com o modo forçado com o qual os criadores tentam conectá-la às temporadas anteriores.

É claro que já vimos nas iterações predecessores indícios de que a franquia tem suas conexões, ainda que em décadas diferentes. Enquanto em Freakshow temos a presença de Pepper (Naomi Grossman) no circo dos horrores e depois sendo trancafiada em Briarcliff de Asylum, Hotel traz ainda mais correlações: a Condessa, por exemplo, faz um aborto no mesmo casarão de Murder House, e Billie Jean Howard (Paulson na primeira temporada) e Queenie (Gabourey Sidibe em Coven) também contribuem para a alta intertextualidade, ainda que não de forma convincente o suficiente.

Outro ponto a ser analisado é a trilha sonora da temporada. As músicas escolhidas conversam diretamente com o que nos é apresentado em cena, causando uma atmosfera redundante em vez de complexa. Na primeira sequência em que Gaga e Bomer aparecem, temos como pano de fundo Tear You Apart, do grupo She Wants Revenge, cuja letra fala basicamente sobre sexo e morte – premeditando o que os personagens farão com o inocente casal do cine drive-in. Nos momentos em que somos apresentados ao hotel, a ambiência é tomada por Hotel California, da banda Eagles – uma escolha mais do que óbvia, ainda mais se associarmos a história da música com a caracterização da protagonista.

O novo ano de AHS definitivamente não é um dos melhores, mas merece crédito pela ousadia. Ainda que esteja longe de recuperar o fator que permitiu nos apaixonarmos pela antologia, ele tem pontos altos e que mostram uma potencialidade em estado bruto para endossar o legado de horror idealizado por Murphy e Falchuk.

American Horror Story: Hotel – 5ª Temporada (Idem, 2015 – EUA)

Criado por: Ryan Murphy, Brad Falchuk
Direção: Bradley Buecker, Ryan Murphy, Michael Goi, Loni Peristele, Nelson Cragg, Marita Grabiak
Roteiro: Brad Falchuk, Ryan Murphy, Crystal Liu, Todd Kubrak, Jennifer Salt
Elenco: Lady Gaga, Sarah Paulson, Evan Peters, Denis O’Hare, Kathy Bates, Angela Bassett, Finn Wittrock, Chloë Sevigny, Matt Bomer, Wes Bentley, Cheyenne Jackson, Lily Rabe
Emissora: FX
Gênero: Suspense, Terror
Duração: 45 minutos

Confira AQUI a crítica das outras temporadas!

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