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Crítica | Big Little Lies – 1×06: Burning Love / 1×07: You Get What You Need (Series Finale)

Segredos e mentiras existem em qualquer âmbito da vida que se possa imaginas. Seja no conjugal, no familiar ou até mesmo no profissional, nunca se é possível determinar com certeza absoluta se conhecemos a pessoa que está à nossa frente – e quais fantasmas de um passado oculto ainda podem assombrá-la. E é justamente sobre isso que os dois últimos capítulos de Big Little Lies, uma das mais novas sensações da HBO.

As linhas de combate foram traçadas, os dois lados da batalha foram definidos com bastante clareza – e desenvolvendo-se como um arco essencialmente melodramático e irracional, o sexto episódio da série, intitulado Burning Love, trouxe uma das primeiras resoluções para uma trama complexa e cheia de nuances comoventes (e por que não devastadoras).

Jane (Shailene Woodley) havia roubado o foco diversas vezes nos acontecimentos anteriores. Seu crescente amadurecimento após a mudança para a cidade de Pirriwee, na costa leste dos Estados Unidos, gradativamente deu lugar a uma insanidade vingativa que buscava justiça para si mesma e para seu único filho, Ziggy. Aterrorizada por sombras de um abuso físico de quando era mais nova, uma das personagens principais decidira ir até a cidade vizinha e terminar o trabalho da pior maneira possível. Mas, como ela mesma cita em uma das sequências mais puras de todo o show, Jane não quis acreditar e espera sim que o pai da criança seja uma pessoa boa e que a fatídica noite tenha sido corolário de acontecimentos externos.

Enquanto isso, Madeleine (Reese Witherspoon) luta para recuperar o controle de sua vida e de todas as vertentes que a cercam todos os dias. Como já sabemos, ela foi protagonista de uma traição inesperada, envolvendo-se com o diretor teatro Joseph (Santiago Cabrera). Seu marido, Ed (Adam Scott) desconhece tal fato – assim como todos com a qual os dois convivem. Afinal, ela precisa constantemente reafirmar sua superioridade e seu poder de manipulação sobre os outros, inclusive para utilizar certos segredos contra eles mesmos. Entretanto, dizendo desse modo, parece que a personagem de Witherspoon é a real antagonista – e é justamente o contrário que devemos pensar: ela quer ajudar a todos, mas não aceita ser usada para outros fins nem ver o chão sob seus pés se desmantelar. Mas esse desejo irrefreável pelo controle absoluto começa a fundir-se a assuntos mais delicados – incluindo seu relacionamento com o ex-marido e com a filha mais velha.

Neste ponto, não podemos nem afirmar que Renata (Laura Dern) é a culpada. Big Little Lies tem uma característica ressonante em seu estilo narrativo que consegue englobar aspectos morais e éticos de forma simples e didática, discorrendo até mesmo sobre a que ponto uma família pode chegar para manter seu status ou para defender seus princípios e valores. E dentro da subtrama desta personagem, isso se mostra de forma muito clara: desde o episódio piloto, sua rixa com as protagonistas foi instantânea, levando-a a tomar medidas drásticas para defender as agressões que Amabella, sua filha, sofria dia após dia. Apenas aqui, temos uma conjuntura caótica que oscila entre o bullying dentro das escolas e o equilíbrio familiar. Não podemos em nenhum momento culpá-la pelos momentos de explosão, nem julgá-la por seu desprezo perante a Ziggy – nem mesmo nós temos certeza de que ele não fez nada.

Apesar de tais complexidades, o nicho da história que realmente nos chama mais a atenção é o de Celeste (Nicole Kidman). Imersa num casamento abusivo e tóxico, ela tenta se esquivar das investidas feitas pelo marido (Alexander Skarsgard), sempre acreditando que ele pode melhorar e reafirmando sua condição extremamente acolhedora como pai. Entretanto, ao começo de You Get What You Need, as coisas são elevadas para outro nível: mas Celeste já está vendo um apartamento para ela e para os filhos, enquanto se recorda de alguns momentos pontuais que incluem chutes no estômago e enforcamentos propositais. O tema-base escolhido aqui é a dificuldade que uma vítima de um relacionamento nocivo tem de se desvencilhar de tal condição, ao mesmo tempo em que luta para manter a sanidade e o equilíbrio psicológico – e mesmo no livro assinado por Liane Moriarty, adaptado para as telinhas por David E. Kelley, o assunto é tratado com pureza e delicadeza, sem cair nos clichês usuais.

A direção de Jean-Marc Vallée mais uma vez se prova certeira, harmonizando com a cuidadosamente escolhida paleta de cores e com alguns símbolos linguísticos que, assim como nos capítulos anteriores, se fazem muito presentes: as sequências protagonizadas por Celeste são permeadas por tons verdes, cujo significado psicológico de segurança e acalento entram em constante contradição com sua personalidade submissa e perturbada, frutos de espancamentos diários pelo marido e da total falta de voz no relacionamento. A água também se faz muito presente nas cenas – vide sua estonteante casa, localizada de frente para o mar; mas ao invés de indicar fluidez, organicidade e mudança, o movimento das ondas cria ciclos viciosos dentro de seu lar e dentro de si mesma, tornando-a uma vítima inexpressiva e à beira da desesperança plena.

Mas são os momentos finais que ratificam a grandiosidade de Big Little Lies. Toda a compreensão ante o mistério e as relações entre os personagens entra num nível epifânico de tirar o fôlego e que com certeza faz jus ao furor que queria causar. Entre os diversos temas abordados, aquele que estávamos mais aguardando era, sem dúvida, a “volta por cima”. Isso não necessariamente envolve uma virada no jogo, mas sim a entrada em arcos de ressurreição: Madeleine enfrente seus demônios passados e entende que o controle de sua vida pode vir de outros modos e que, às vezes, atingir o fundo do poço é necessário para reemergir; Celeste finalmente se impõe e está certa de sua decisão para com o marido e a família, cansando de ser tratada como um pedaço de carne e como alguém menor do que um ser humano; e Jane encontra a paz interior que sempre quis dentro de uma família involuntária, resguardada por amizades verdadeiras e pela companhia transcendental de seu filho.

Não ouso dar spoilers sobre o desfecho do mistério, mas posso garantir que o modo como é construído é capaz de tirar qualquer um do apaziguamento -e já digo que a narrativa foi arquitetada de forma tão sutil que se torna quase impossível a missão de deduzir quem foi assassinado (e mais chocante, por quem). E de forma geral, Big Little Lies configurou-se como uma das grandes surpresas do ano, tornando-se o que pode ser a melhor minissérie deste ano.

Big Little Lies – 1×06: Burning Love / 1×07: You Get What You Need (Idem, 2017, Estados Unidos)

Criado por: David E. Kelley
Baseado em: Pequenas Grandes Mentiras, de Liane Moriarty.
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: David E. Kelley

Elenco: Reese Witherspoon, Nicole Kidman, Shailene Woodley, Alexander Skarsgard, Adam Scott, Zoe Kravitz, James Tupper, Jeffrey Nordling, Laura Dern
Gênero: Drama, Mistério
Duração: 55 min.

Confira AQUI o guia de episódios da temporada.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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