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Crítica | Cats – Fonte inesgotável para pesadelos

Broadway vs Hollywood: A Origem da Tragédia

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
26 de dezembro de 2019 · 6 min de leitura
Crítica | Cats – Fonte inesgotável para pesadelos

Milagres de Natal existem.

Raramente ocorre uma junção dos cosmos e um alinhamento tão preciso para resultar na tempestade perfeita, uma união mental que poderia ser chamada de transe coletivo. Esse caos completo conquistou a mente dos produtores e chefões da Universal Studios ao encomendar essa bizarrice completa chamada Cats que estreou justamente no dia 25, em pleno Natal. 

Contudo, esse presente se assemelha mais a uma Caixa de Pandora do que uma boa experiência aos espectadores carregados de curiosidade mórbida – incluindo eu. Ainda tento encontrar palavras para conseguir escrever sobre esse filme. Mas sei do completo desconforto e estranhamento que senti durante a exibição desse festim diabólico comandado por Tom Hooper. 

O longa tenta adaptar o inadaptável musical de Andrew Lloyd Webber, um dos maiores nomes de musicais da História e também responsável pelo excelente Fantasma da Ópera. Começamos nossa jornada ao encontrarmos a gata Victoria, interpretada pela exagerada Francesca Hayward. Ela é abandonada em um bairro londrino onde encontra um grupo de gatos que se denominam Jellicles. Justamente nessa noite, os Jellicles se reúnem para decidir qual gato merece uma segunda chance na vida para ser enviado ao Paraíso dos Gatos.

Paraíso para os Gatos, Inferno para você

Até mesmo pelo ponto original do musical de 1981, Cats é um espetáculo complicado de existir. A narrativa é quase que inexistente, não há mudanças de cenário no palco e todas as canções praticamente servem para apresentar cada personagem felino ao público ao longo das generosas horas que Lloyd Weber convida o espectador assistir. 

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Logo, se até mesmo a obra original não colabora por conta de suas características únicas, imagine o que possa ter acontecido em uma versão cinematográfica do espetáculo. Tom Hooper e companhia escolheram o caminho mais bizarro possível para trazer o musical às telonas. Como já deve ter visto no trailer, o filme basicamente é um festim de efeitos visuais que “transforma” os atores em gatos, os reduzindo de tamanho e conferindo o visual final que com certeza lhe deixará incomodado. 

Não existem palavras para descrever. É apenas um desconforto imenso ver esses “gatos” se movimentarem de modo nada natural, alternando características antropomórficas com as naturais dos felinos, andando ora em duas patas, ora em quatro. Em questão de vinte minutos de exibição, te prometo que ficará horrorizado no número musical de Rebel Wilson no qual ela treina baratas e ratos, ambos com rostos humanos, a realizarem coreografias complexas enquanto ela decide que algumas dessas baratas são um lanche delicioso. 

Esse número, nojento por si só, não é o pior em termos de desconforto. A canção sobre o personagem de James Corden é igualmente repulsiva com o personagem se deleitando com restos de comida podre encontradas no lixo. Aliás, não somente esse personagem usa sapatos enquanto dança e rebola na tela. Basta observar por alguns segundos que algo de estranho acontece na sua cabeça. Cats é um experimento psicológico tão ruim quanto o que Alex DeLarge sofre em Laranja Mecânica.

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Hooper, diretor e roteirista, está totalmente comprometido em tornar a experiência na mais desconfortável possível. Enquanto o filme tem diversas trocas de cenário, é estranho notar o quanto a coreografia é sexualizada e exagerada quase que durante o filme todo. Apenas Memory, cantada por Jennifer Hudson com muitas lágrimas e catarro, consegue ser um momento mais contido e menos brega nesse festival de absurdos que se chama Cats. Aliás, apesar de ser praticamente o único personagem com algum ponto narrativo repassando a mensagem de inclusão que o filme deseja transmitir, há uma enorme falha em entender qual é exatamente a história daquela gata e o motivo pelo qual ela é rejeitada pelos demais gatos.

O cineasta quer conferir uma aura kitsch em quase todas as canções com maior destaque para Macavity entoada por Taylor Swift que logo desaparece assim que a cena acaba. O resto do elenco, em uma psicose coletiva, infelizmente não tem a noção do que estão realizando através do comando de cena de Hooper. 

As escolhas criativas desse filme são inacreditáveis, desde a concepção visual com efeitos visuais literalmente inacabados – confira as mãos do personagem que você notará em diversos planos que esqueceram de inserir a textura da pelagem dos felinos, assim como a própria escolha do elenco. Fora isso, todos os personagens parecem flutuar enquanto caminham. Nada tem o “peso” necessário. Hooper espera conquistar elegância com isso, mas só conquista risadas de constrangimento.

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Há algo desconfortável e impagável em ver atores renomados como Ian McKellen e Judi Dench soltarem miados bizarros, rilhar os dentes em uma fúria débil ou beber água em tigelinhas. O mesmo acontece com Idris Elba, caricato ao máximo. Também há uma falta de cuidado nítida com o tratamento de Dench na telona. A senhora britânica, infelizmente, toda vez que sorri, apresenta um tipo de reparação dentária que é extremamente distrativa. 

Para não dizer que tudo é um desastre completo, com exceção dos minutos iniciais de Cats, Hooper ao menos se controla e passa a respeitar mais as convenções do gênero. Ainda temos a câmera mirabolante de Os Miseráveis e mais algumas assinaturas bizarras de direção, mas a grande maioria do filme é bastante sólida em trazer a linguagem tradicional de musicais: planos abertos, conjuntos ou gerais, ainda que tenhamos um excesso de close ups.

A montagem se esforça ao máximo em mostrar como as coreografias das danças são elaboradas (mesmo que ainda apresentem uma mistura de balés e outras danças totalmente fora de contexto com os personagens em pleno delírio) oferecendo diversos pontos de vista para o espectador que ainda resistiu à vontade de cair fora do cinema. Na sessão que eu estava, sete pessoas desistiram de aguentar até o final. 

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Os cenários, algo realmente inédito para Cats, parecem ser construídos quase todos digitalmente e oferecem uma vasta gama de cores e conceitos estilizados para deixar a noite dos felinos em algo mais aprazível. Porém, ao mesmo tempo que é interessante, abre a brecha para haver diversos problemas de escala entre objetos de cena com o elenco que diminuem e aumentam de tamanho de modo arbitrário.

Ame ou Odeie

Apesar de haver um certo consenso entre público e crítica sobre Cats, acho que é uma dessas experiências bizarras que rendem emoções profundas de cada espectador. Por mais que ache difícil que alguém não fique incomodado com este filme, é possível isso acontecer. 

Já era uma má ideia adaptar Cats pela narrativa ser extremamente rasa e insossa, além da fórmula repetitiva que Lloyd Weber insere ao apresentar uma infinitude de números musicais sobre personagens apelativos, bregas e tão, mas tão chatos. Destinado ao fracasso desde sua concepção, Cats é um dos melhores exemplos de como Hollywood, de tempos em tempos, resolve queimar 90 milhões de dólares em um delírio coletivo cat-astrófico. 

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Cats (Cats, EUA – 2019)
Direção: Tom Hooper
Roteiro: Tom Hooper, Andrew Lloyd Weber, Lee Hall
Elenco: Francesca Hayward, Idris Elba, Taylor Swift, James Corden, Judi Dench, Ian McKellen, Rebel Wilson, Jennifer Hudson
Gênero: Comédia, Drama
Duração: 110 minutos

Tags: #Cats #Cinema #Lee Hall #Tom Hooper #Universal
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Matheus Fragata
Escrito por

Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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