O Natal está chegando e, como já é de costume, a iminência do feriado mais emocionante do ano implica uma produção constante de inúmeros filmes e séries recheados de bonança, amor e o espírito que nos comove até a chegada do Ano Novo. E, como também sabemos, é a época em que a Netflix começa a investir em peso em seu conteúdo original, lançando longas após longas que sejam, principalmente, confortáveis para todas as famílias – ainda que grande parte das produções falhe em trazer algo novo para essas saturadas narrativas.

Dessa vez, a gigante do streaming resolveu abrir a temporada com o lançamento de Deixe a Neve Cair. Baseada no romance homônimo assinado por John Green (o mesmo autor de A Culpa É das Estrelas e Cidades de Papel, também adaptadas para as telonas), Maureen Johnson e Lauren Myracle, a trama bebe bastante de outras clássicas comédias românticas, funcionando como uma homenagem a iterações como Simplesmente Amor e, mais recentemente, Idas e Vindas do Amor: dessa forma, ela mergulha com força numa roupagem antológica, imprimindo diversos arcos a princípio separados que, eventualmente, convergem para uma catártica (fofo seria uma palavra melhor utilizada, no caso) resolução. Felizmente, o resultado é aprazível o bastante para nos divertirmos com um elenco recheado de química e que oferece uma perspectiva contemporânea para histórias do gênero.

Luke Snellin, conhecido por suas distinções artísticas no mundo dos videoclipes, faz sua estreia diretorial com o filme e entra com o pé direito na indústria cinematográfica: logo de cara, percebemos que o cineasta tenta se afastar do melodrama novelesco das rom-coms, buscando uma construção mais realista e menos fabulesca. É claro que, em certas sequências, Snellin opta por florear as cenas com um pouco mais de sensibilidade ou até mesmo com o conhecido drama adolescente – mas não podemos tirar mérito de suas constantes tentativas de desconstruir fórmulas engessadas. No final das contas, os visíveis erros são ofuscados pela melódica arquitetura que se preza a construir, engendrando eventos que, se não complexos, ao menos cumprem a premissa que apresentam.

Temos, por exemplo, Kiernan Shipka como Angie (apelidada de Duke) e Mitchell Hope como Tobin, compartilhando de uma das subtramas de amizade que se transforma em romance e pode colocar o laço do qual compartilham em xeque. Na verdade, Tobin é apaixonado por sua melhor amiga há vários anos, mas nunca teve coragem de lhe contar com medo de colocar tudo a perder. Não é surpresa que, no desenrolar dos eventos, ele comece a se sentir diminuído por meninos mais bonitos e que levam mais jeito de se abrir, chegando a tratá-la mal para depois reconquistá-la.

De fato, o microcosmos apresentado não é um dos mais originais, visto que já foi levado para a literatura infanto-juvenil, para os cinemas e para a televisão inúmeras vezes – e, na verdade, ele é o que menos chama a atenção, mesmo que funcione como a estrutura da produção. Em outro prospecto, temos a conturbada e imediatista relação entre Julie (Isabela Merced) e Stuart (Shameik Moore), cujos dois mundos completamente diferentes colidem em uma miraculosa e incrível compreensão empática: Julie, que nutre o sonho de sair de sua cidade, é aprovada na Universidade de Columbia mas não sabe se deve fazer a matrícula devido à condição da enferma mãe; Stuart, por sua vez, é um famoso astro do pop que não aguenta mais lidar com a carreira e deseja uma vida normal.

Joan Cusack também dá as caras no longa como a Mulher-Alumínio, uma estranha solteirona que se veste com folhas e mais folhas de papel alumínio por uma razão desconhecida e que, em dado momento, cruza caminho com a psicótica Addie (Odeya Rush), a encarnação centennial que acha que seu namorado vai terminar com ela a qualquer momento. Ambas as gerações entram em choque e servem como reflexos de uma personalidade tóxica que deve ser abandonada – e que, como podemos imaginar, acabam se tornando as protagonistas dos arcos de redenção da trama principal (mesclados, é claro, com algumas cômicas sacadas).

É inegável dizer que o filme não mantém um ritmo firme durante seus três atos, perdendo a mão no equilíbrio entre drama e comédia algumas vezes antes de se reencontrar perto da conclusão. Para além disso, certos vieses narrativos são deixados de lado e tratados com muita superficialidade – como é o caso do romance entre Dorrie (Liv Hewson) e Tegan (Anna Akana), cujo potencial é basicamente varrido para debaixo do tapete e colocado num patamar coadjuvante. Até mesmo o espectro envolvendo a festa de Keon (Jacob Batalon) perde força, ressurgindo das cinzas tardiamente para o grand finale.

Ainda que não carregue o mesmo charme de seus conterrâneos, Deixe a Neve Cair cumpre o que promete e funciona dentro de seus limites como um bom início para os feriados de fim de ano. Apesar de pecar em certos momentos, a ingênua beleza do filme e a competência de seu elenco são o bastante para que apreciemos a adorável mensagem do filme – que, sem sombra dúvida, será explorada em várias outras produções das próximas semanas.

Deixe a Neve Cair (Let It Snow – EUA, 2019)

Direção: Luke Snellin
Roteiro: Laura Solon, Victoria Strouse, Kay Cannon, baseado no romance de John Green, Lauren Myracle, Maureen Johnson
Elenco: Isabela Merced, Shameik Moore, Kiernan Shipka, Odeya Rush, Liv Hewson, Mitchell Hope, Jacob Batalon, Joan Cusack, Anna Akana
Duração: 92 min.