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Crítica | Demolidor – 2ª Temporada

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Acredito que nem a própria Marvel ou a Netflix esperavam o gigantesco sucesso de Demolidor. Tendo uma primeira temporada consistente e que injetava uma dose de visceralidade e temas adultos no universo colorido da editora, a série sobre o Demônio Destemido tornou-se uma das mais bem avaliadas e comentadas do ano passado; literalmente todo mundo falava sobre Demolidor. Não por acaso, uma segunda temporada não planejada foi anunciada dois dias após o lançamento em streaming.

Isso sem falar na ideia ambiciosa de lançar Os Defensores, série que uniria o Demolidor com os demais personagens do pacote Marvel-Netflix, que incluem Jessica Jones, Luke Cage e o Punho de Ferro. Tivemos que passar pela estreia de Jessica Jones antes, mas a segunda temporada de Demolidor chegou com tudo em Março deste ano. Sai Drew Goddard, entra Steven S. DeKnight para assumir o cargo de showrunner, novamente contando com 13 capítulos e uma estrutura narrativa quebrada; ainda que mais linear dessa vez.

Na melhor tradição das grandes continuações de adaptações de quadrinhos, esta nova temporada concentra-se em Matt Murdock (Charlie Cox) lutando para balancear sua vida dupla de advogado criminal durante o dia e vigilante mascarado durante à noite. Seu melhor amigo Foggy (Elden Henson) é o único que sabe de seu segredo, enquanto Karen Page (Deborah Ann Wolf) vai cultivando uma relação cada vez mais íntima com Murdock, colocando em dilema seu alter ego. Tudo piora quando um misterioso assassino parece estar massacrando diversas gangues diferentes por cada canto de Hell’s Kitchen, atraindo o Demolidor para uma perigosa investigação, que também lida com alguns fantasmas de seu passado, incluindo o retorno de sua imprevisível ex-namorada Elektra Natchios (Elodie Yung).

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Caveira Vermelha

É uma série de arcos muito mais complexos e intrincados do que a temporada anterior, porém, quase todos são mais empolgantes. Como todos sabemos, o assassino misterioso mencionado é Frank Castle (Jon Bernthal), o Justiceiro, e sua entrada na série garante diversos momentos memoráveis. Aliás, essa temporada num geral é muito melhor estruturada do que a anterior, já que nos 5 primeiros episódios temos o Justiceiro como principal “ameaça”, para logo depois dar espaço à entrada de Elektra e o subsequente núcleo antagonista do Tentáculo e a volta de Stick (Scott Glenn).

Mas vamos por partes. A começar com Frank Castle. Bem, não é nenhum exagero nem a conquista mais difícil do mundo afirmar que Jon Bernthal seja a versão definitiva do personagem, que teve uma árdua trajetória no cinema com 3 adaptações fracassadas que envolveram Dolph Lundgren, Thomas Jane e Ray Stevenson na pele do vigilante. Bernthal se sai melhor ao abraçar a psicopatia do personagem e a brutalidade de suas ações, tornando-se uma figura muito ameaçadora de início. Porém, vemos o brilhantismo do ator e da equipe de roteiristas quando exploram a ternura do personagem e suas motivações nada absurdas em alguns monólogos.

Há uma interessantíssima discussão de Castle com o Demolidor em um terraço, onde divagam sobre as diferenças em seus métodos e o ato de tirar uma vida ou não (sobrando referência para A Piada Mortal e a questão do “um dia ruim”), levada ainda mais além no excelente episódio Guilty as Sin, quase que inteiramente dedicado ao polêmico julgamento de Castle em um tribunal, levantando questões relevantes acerca do vigilantismo e da pena de morte; é um trabalho dificílimo defender Castle, já que este parece ter prazer em matar.

Porém, voltando à justificativa do personagem, o quarto episódio, Penny and Dime, é capaz de arrancar pequenas lágrimas quando nos deparamos com um monólogo arrasador de Castle, onde compartilha com o Demolidor a história da matança de sua esposa e filha criança pelas mãos de gângsteres. A direção de Pete Hoar é certeira e dedica quase que um plano inteiro para todo o monólogo de Castle, que fica ainda mais poderoso graças à sensacional performance de Bernthal. É de uma profundidade emocional que não havíamos encontrado em muitas adaptações de quadrinhos por aí.

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Presente de grego

O Justiceiro era apenas uma das grandes promessas da segunda temporada. A outra, claro, residia na forma de Elektra, outra icônica personagem do leque de histórias do Demônio de Hell’s Kitchen. Vale lembrar que a assassina já havia ganhado um filme solo com Jennifer Garner em 2005, mas agora vamos esquecer imediatamente daquela bomba e nos concentrar na interpretação de Elodie Yung para a companheira de Murdock. Surgindo no ótimo cliffhanger de Penny and Dime, Elektra surge para requisitar a ajuda de Matt em uma missão nebulosa que está diretamente ligada ao Tentáculo, uma organização ninja milenar que planeja um ataque sem precedentes na cidade de Nova York.

A partir daí, temos encontros e desencontros onde Matt procura evitar o contato com a poderosa femme fatale. Através de flashbacks em Kinbaku e The Dark at the End of the Tunnel, conhecemos o início da relação de Matt e Elektra, assim como o passado amoroso que logo transformou-se em uma situação assombrosa quando o instinto assassino e sádico da jovem grega acaba por afastá-los. A grande coincidência é que, quando criança, Elektra também recebeu treinamento de Stick, o que gera reviravoltas instigantes durante a conclusão da temporada.

No geral, Yung agrada pela sensualidade que confere a Elektra. Seu sotaque exótico e feições mestiças tornam sempre empolgante sua presença em cena, que garante ótimos momentos como uma luta em conjunto com o Demolidor em seu luxuoso apartamento em Kinbaku e, principalmente, o excelente mini arco que se desenrola em Regrets Only, onde Elektra e Matt devem se infiltrar em um baile de gala a fim de invadir um escritório fortemente protegido e roubar arquivos relacionados ao Tentáculo. Sob a direção de Andy Goddard, o episódio traz fortes ecos de Batman – O Retorno e O Cavaleiro das Trevas Ressurge, tanto pelo fato de os heróis trajarem vestimentas de gala ou pela belíssima fotografia amarelada de Martin Ahlgren.

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Ninjas, Ninjas, Ninjas…

Com tudo isso, parecia que a segunda temporada de Demolidor poderia ser ainda melhor do que seu já ótimo ano de estreia. Mas é aí que começam os problemas. É no episódio 10, The Man in the Box, que a organização do Tentáculo enfim se assume como o grande antagonista da temporada – em ambos os sentidos, ironicamente. Dessa forma, a série fica presa a uma entediante repetição de temas e oponentes, insistindo em enfiar lutas com ninjas em quase todos os episódios seguintes e até trazer a ridícula ideia de um buraco gigante de onde saem mais ninjas e suas respectivas versões imortais e invencíveis, incluindo a volta de Nobu. É divertido ver uma luta de ninja aqui e ali, mas torna-se maçante e repetitivo, e isso também se deve à nítida queda de qualidade nas cenas de ação, que foram o grande acerto da temporada anterior.

Marcada pela famosa luta em plano sequência do corredor na primeira temporada com Cut Man, os idealizadores se viram na terrível cilada do “maior e melhor” e inventaram uma sequência de briga absurdamente elaborada no episódio New York’s Finest, trazendo o Demolidor enfrentando uma série de oponentes em um plano longo falseado que passa por corredores, escadas e portas. É algo que certamente exigiu um trabalho pesado da equipe de dublês, mas que em cena surge completamente over the top e abaixo da simplicidade impressionante do confronto visto no ano passado.

As inúmeras batalhas com ninjas também causam bocejos, ainda mais pelo fato de a fotografia surgir ainda mais escura e a coreografia ser genérica, tendo apenas como exceção a “luta de silhuetas” de Matt e Elektra dentro de uma sala colorida em Regrets Only e, claro, a violentíssima cena em que o Justiceiro encara um corredor inteiro de prisioneiros em uma armadilha na cadeia. Impressiona menos pela coreografia do que pelo valor de imagem: Bernthal com suas roupas brancas completamente ensaguentadas é um dos ícones absolutos desta temporada.

Falta um oponente icônico e imponente como o Rei do Crime de Vincent D’Onofrio, que tem uma curta e memorável participação durante o arco de Castle na cadeia. Basta notar como um aparentemente “inofensivo” Wilson Fisk em sua cela é mais ameaçador do que qualquer outro oponente nebuloso e sem graça que Murdock enfrenta aqui. Justamente por isso, é mais interessante observar suas relações com Foggy e Page. A dualidade de sua vida como vigilante acaba por destruir sua amizade com Foggy, rendendo ótimas cenas entre Charlie Cox e Elden Henson, e também pelo envolvimento romântico entre Murdock e Page, algo que acaba um tanto inconsistente ao longo da temporada, mas que rende bons momentos como o “encontro” em Penny and Dime – sim, é de longe o melhor episódio da temporada, não é à toa que está sendo tão mencionado.

A segunda temporada de Demolidor traz muitos aprimoramentos em relação à primeira, na mesma medida em que traz deméritos. A forma de intercalar as histórias e seus personagens surge infinitamente superior aqui, dando uma boa ênfase no conflito interno do protagonista e o destaque merecido às figuras de Justiceiro e Elektra. Deixa a desejar no quesito de ação e na artificialidade de sua organização antagonista, que acaba fadada a repetir temas e elementos.

Ei Netflix, menos ninjas da próxima, por favor.

Demolidor – 2ª Temporada (Daredevil – Season 2, EUA – 2016)

Showrunner: Steven S. DeKnight
Direção: Pete Hoar, Andy Goddard, Phil Abraham, Stephen Surjik, Ken Girotti, Euros Lyn, Marc Jobst, Floria Sigismondi, Michael Uppendahl
Roteiro: Whit Anderson, Sneha Koorse, Douglas Petrie, Marco Ramirez, Steven S. DeKnight, Lauren Schmidt, John C. Kelley, Mark Verheiden
Elenco: Charlie Cox, Deborah Ann Wolf, Elden Henson, Jon Bernthal, Elodie Yung, Vincent D’Onofrio, Rosario Dawson, Scott Glenn, Peter Shinkoda
Emissora: Netflix
Episódios: 13
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 50 min aprox

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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