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Crítica | Doctor Who: Twice Upon a Time – O Fim de uma Era

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Acima de tudo, Doctor Who é uma série sobre renovação. Nos cinquenta e quatro anos desde a exibição do primeiro episódio, que nos apresentou o saudoso William Hartnell como o primeiro Doutor, o seriado percorreu diferentes eras, abrangendo seus conceitos e mitologia, que, de início, tinham fins educativos. A obra, no entanto, jamais deixou de educar, mantendo a compaixão pelo próximo no centro de sua narrativa, algo bastante evidente nessa fase do décimo segundo Doutor, que esbanja do discurso antibelicista, através da poderosa atuação de Peter Capaldi, que nos entregou um protagonista mais sisudo, mas repleto de emoção, sentimento.

Twice Upon a Time marca a despedida desse ator que encarnara o Senhor do Tempo em The Time of the Doctor, lá em 2013, mas não somente isso. Em essência, trata-se do fim de uma era nos mais variados sentidos, visto que, ao lado de Capaldi, Steven Moffat, showrunner da série desde 2010, também se despede do seriado, juntamente do compositor Murray Gold, responsável pelas melodias desde o revival de 2005.

Dito isso, Doctor Who certamente nunca mais será o mesmo, mas isso não é algo ruim – o velho dá lugar ao novo, como sempre foi e sempre será, possibilitando que novos caminhos sejam trilhados e novas abordagens sejam exploradas. Naturalmente que isso acaba deixando muito nas costas de Moffat, que deve fechar, com chave de ouro, essa sua longa fase, oferecendo o digno desfecho para todas as aventuras que criou ao longo desses sete anos.

Via de regra, o fim da Era Capaldi teve seu início em World Enough and Time, primeira parte do season finale da décima temporada. Após combater os Cybermen, o Doutor, extremamente ferido, segue para a Tardis, que o leva para o polo norte. Ele, contudo, não quer regenerar – cansado, ele anseia pela morte. Planos esses que são interrompidos pela aparição do Primeiro Doutor (David Bradley), que também se recusa a entrar no processo de regeneração, para a surpresa do seu “eu” do futuro. Quando, enfim, um oficial da Primeira Guerra aparece ali no Polo Norte, cabe aos Doutores investigar o que há de errado ali, enquanto seguem por uma jornada de aceitação e renovação.

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Uma vida a mais não vai matar ninguém. Bem, exceto eu…

Seguindo a linha dos episódios de regeneração tanto do Décimo, quanto do Décimo Segundo Doutores, Twice Upon a Time estabelece uma narrativa bastante intimista, cujo foco não é a aventura em si e sim o que o protagonista sente naquele momento, próximo ao fim dessa fase de sua vida. A presença da primeira encarnação do Senhor do Tempo, portanto, não está ali para ajudar a salvar o mundo e sim para permitir que o personagem aceite o que está por vir, como se o diálogo interno ganhasse uma manifestação física, permitindo que o dilema seja exposto ao espectador sem a utilização de recursos narrativos como o voice over ou monólogos shakespearianos – uma das muitas vantagens em se trabalhar com uma série sobre viagem no tempo-espaço.

Steven Moffat, que muitas vezes se perdeu na tentativa de criar capítulos de épicas proporções – tanto em Doctor Who, quanto em Sherlock – demonstra, claramente, mais autocontrole, focando no que deve, ainda que erre a mão em determinados momentos.

Logo de imediato, o episódio soa como um grande retcon, ou seja, explora acontecimentos já estabelecidos a fim de realizar pequenas mudanças que permitem que tudo se encaixe mais organicamente dentro da trama geral da série. A mera presença do Primeiro Doutor já deixa isso bem claro e, conforme o capítulo é desenvolvido, mais e mais temos a noção de que importantes fatos estão sendo inseridos na história de Doctor Who, enquanto outros são resgatados. É nesse resgate, de certos pontos, que Moffat acaba tropeçando, especialmente no que diz respeito à presença de certo Dalek no episódio.

Evidente que a intenção era criar uma narrativa cíclica, unindo os primórdios da fase Capaldi com seu desfecho – a aparição desse antagonista, no entanto, apenas dilata o episódio como um todo, visto que a justificativa para sua presença é frágil – ele facilmente poderia ser substituído por mais interações com o Testemunho, criando, assim, uma narrativa menos fragmentada, que dispensaria inúmeras viagens no espaço-tempo ao longo do capítulo. Mais agravante é como a inclusão desse lado da história tira tempo em tela de mais diálogos entre os dois Doutores.

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Nunca seja cruel. Nunca seja covarde. E nunca coma peras!

Felizmente, como já dito antes, a presença do Doutor vivido por Bradley, que reprisa o papel, depois da dramatização An Adventure in Space and Time, serve para tirar as dúvidas do Décimo Segundo sobre o que ele deve, ou não, fazer. Nesse sentido, o texto de Moffat acerta em cheio, criando uma jornada de autodescobrimento, de autoafirmação, com cada uma das partes lembrando à outra sobre a importância de sua atuação no universo. Remetendo ao clássico natalino A Felicidade Não Se Compra, que apresenta um anjo mostrando ao personagem como seria o mundo sem ele.

Chamado de Doutor da Guerra, o desenvolvimento da história reflete a jornada interior do protagonista, que passa a enxergar que esse “título” não é algo negativo, muito pelo contrário – como um médico no campo de batalha, ele se arrisca para salvar a vida daqueles ao seu redor, jamais descansando ou desistindo. Retomamos, portanto, o teor antibelicista dessa encarnação, aspecto que tanto aparecera ao longo dessas três temporadas estreladas por Capaldi. Seu emblemático discurso em The Zygon Inversion vem logo à cabeça e dialoga com toda a subtrama do oficial vivido por Mark Gatiss, que não por acaso questiona, desolado, por que o Doutor se refere a ele como oficial da Primeira Guerra.

Eis que a Trégua de Natal aparece, como grata surpresa, realçando o otimismo que sempre estivera presente no seriado. O Natal e a Paz tomam conta da narrativa enquanto ouvimos os soldados, de ambos os lados, cantando canções natalinas, em uma cena que mais parece um milagre, que ganha ainda mais potência por ter, de fato, ocorrido durante a guerra para acabar com todas as guerras. Um momento ímpar, capturado de forma sensível e memorável pela diretora, Rachel Talalay, que consegue até nos fazer relevar o excesso de exposição nos diálogos escritos por Moffat – aliás, o episódio está cheio desses.

O pedido final e revelação da identidade do oficial, vem, então, como a cereja no topo do bolo – acontece antes da Trégua, claro, mas permanece conosco enquanto as canções e partidas de futebol entre os adversários do conflito aparecem. Essa mera linha no roteiro, garante a suma importância dessa sequência, fazendo com que ela seja uma das mais importantes de toda a série, considerando os personagens envolvidos no pedido desse soldado. Um toque de mestre do showrunner/ roteirista, que, ao mesmo tempo, funciona como uma bela piscadela para os fãs do seriado.

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Ria de verdade. Corra rápido. Seja bondoso.

Talalay, responsável pelos finales do seriado desde a oitava temporada certamente foi a escolha certa. A diretora soube explorar a presença dos dois Doutores, mantendo sempre o foco em Capaldi, realçando sua posição de protagonista, enquanto deixa bem claro a dor, o dilema interno do personagem. Mesmo com as muitas interações cômicas entre os dois, que deixam bem claro o quanto o discurso da série evoluiu desde então – fruto de seu tempo, claro – ela não nos permite esquecer o que efetivamente importa ali. Além disso, quem melhor que uma mulher para dirigir o capítulo que introduz Jodie Whittaker como a primeira encarnação feminina do Doutor, agora Doutora?

Um dos pontos que mais nos chamam a atenção é como, meramente guiando nosso olhar, através de ocultamentos proporcionados pelo movimento de câmera, a diretora estabelece a tensão, o suspense, brincando com os conceitos introduzidos no episódio, a tal ponto que jamais temos certeza sobre a natureza da Bill Potts que dá as caras nessa grande despedida. O mais interessante, porém, é que a identidade da personagem, real ou não, de fato não importa – suas memórias estão ali, o que ela sente pelo Doutor – e vice-versa – também estão, permitindo o grande impacto desses momentos finais, que é elevado à décima potência, claro, com a aparição surpresa de certo alguém, garantindo, assim, o tom cíclico almejado por Moffat, que erra com o Dalek, mas, aqui, acerta em cheio.

De uma hora para a outra passamos a ter plena certeza de que o fim do Décimo Segundo se aproxima e, como não poderia deixar de ser, somos brindados com um final discurso do personagem, que, mais uma vez, demonstra todo o poder da atuação de Peter Capaldi, que, a esse ponto, já recobrou sua vontade de viver, voltou a enxergar sua extrema relevância para o universo. Pregando a importância da bondade e do amor, ele se despede, como se ele próprio respondesse sua pergunta de anos atrás: Eu sou um homem bom? Naturalmente que a resposta é sim.

Jodie Whitaker, pois, faz sua entrada triunfal, já dizendo “aw, brilliant“, comentando diretamente, claro, sobre sua encarnação feminina, que abre portas para uma gigantesca renovação da série, tão necessária para sua sobrevivência a longo prazo e para a própria personagem central, que estivera bem perto de desistir de tudo. São novos ares, que irão mudar tudo daqui para a frente, tanto na trama, quanto na narrativa em si.

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Doutor – Eu te deixo ir

Twice Upon a Time, portanto, demonstra claramente, ao longo de seus sessenta minutos de duração, que Doctor Who é sobre renovação. Retratando, através dos dois Doutores, o quanto a série evoluiu desde seus primórdios, o texto de Steven Moffat resume seu protagonista de maneira intimista e bela, lidando com seus dilemas morais, com seu cansaço, como se o personagem dialogasse com a série em si, tentando encontrar motivos para continuar existindo, até que, de fato, os encontra.

Mesmo com certos deslizes, o showrunner nos entrega uma digna despedida, tanto para ele próprio, quanto para Peter Capaldi, que jamais deixa de nos surpreender, e Murray Gold, que nos brinda com algumas de suas icônicas melodias compostas ao longo dos anos – que vão desde o tema do Doutor, de 2005, até parte de sua peça musical de Heaven Sent.

Já com saudades somos deixados nos minutos finais. Mas a hora da renovação chegou. Chegou a hora da Doutora.

Doctor Who: Twice Upon a Time (Reino Unido, 2017)

Direção: Rachel Talalay
Roteiro: Steven Moffat
Elenco: Peter Capaldi, David Bradley, Mark Gatiss, Pearl Mackie, Lily Travers, Jared Garfield, Toby Whithouse, Jodie Whittaker
Duração: 60 min.

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Publicado por Guilherme Coral

Refugiado de uma galáxia muito muito distante, caí neste planeta do setor 2814 por engano. Fui levado, graças à paixão por filmes ao ramo do Cinema e Audiovisual, onde atualmente me aventuro. Mas minha louca obsessão pelo entretenimento desta Terra não se limita à tela grande - literatura, séries, games são todos partes imprescindíveis do itinerário dessa longa viagem.

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