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Crítica | Duna é um espetáculo sem muita profundidade

Duna é um dos casos de amor mais complexos do cinema. Desde que Frank Herbert lançou seu revolucionário romance de ficção científica em 1965, Hollywood buscou formas de levá-lo para as telas. Quase aconteceu pelas mãos do cineasta surrealista Alejandro Jodorowsky na década de 70, rendeu uma adaptação bem terrível pelas mãos do talentoso David Lynch em 1984 e até foi parar na TV com uma minissérie do canal SyFy, estrelada por James McAvoy. Mas nenhuma delas fez justiça ao poder do livro.

Eis que a estrela em ascensão Denis Villeneuve entra no jogo. Após se consolidar como um dos grandes autores de sua geração, em filmes como Os Suspeitos, Sicario: Terra de Ninguém, A Chegada e Blade Runner 2049, o cineasta franco-canadense encara seu maior desafio com esta nova e revitalizada empreitada de Duna nas telas do cinema. O resultado é sem sombra de dúvida a melhor tentativa até agora.

A trama comporta metade do primeiro livro de Herbert, apresentando-nos ao jovem Paul Atreides (Timothée Chalamet), herdeiro de uma das famílias mais influentes da galáxia. Quando seu pai, Leto (Oscar Isaac) recebe a função de administrar o planeta Arrakis, que abriga uma valiosa substância que permite viagens interestelares, toda a família se muda para o desértico planeta. Porém, dado o interesse geral nessa grande duna, os Atreides logo se encontram à beira de um conflito delicado com os habitantes do deserto, os Fremen, e também a hostil família Harkonnen, chefiada pelo grotesco Barão (Stellan Skarsgard).

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Duna definitivamente não é um projeto fácil. Apesar de podermos encontrar facilmente diversos elementos de sua narrativa em obras como Star Wars, o que a obra original de Herbert oferece é uma análise profunda, biológica e metafísica sobre elementos mais “plásticos” da ficção científica. Escrevendo o roteiro em conjunto com Eric Roth e Jon Spaihts, Villeneuve passa boa parte da primeira metade da projeção explicando e elaborando uma série de conceitos: desde a natureza tecnológica dessa sociedade futurística até o funcionamento de trajes, seitas religiosas, habilidades sobrenaturais e profecias ancestrais que tomam emprestadas diversos termos árabes. É uma grande exposição, e arrisco a dizer que o roteiro de Duna é mais sobre o funcionamento de coisas do que o desenvolvimento delas, o que pode ser algo muito maçante para os não familiarizados com o universo da saga. Confesso que, até para um conhecedor, o processo fica repetitivo.

Isso certamente garante um aprofundamento emocional bem limitado. Confesso que só me importava com os personagens dado ao conhecimento prévio do livro, e temo que alguém não familiarizado com a obra possa se sentir distanciado. Apesar da clássica jornada do herói “predestinado” estar presente ali, não garante nenhum impacto grandioso em quesitos emocionais, nem mesmo quando alguns personagens importantes que acabam encantando meramente pelo carisma de seus intérpretes sofrem destinos trágicos. Sempre discordei da crítica de que os filmes de Villeneuve eram “frios”, mas em Duna isso é inegável.

É grande mérito de Timothée Chalamet conseguir entregar uma performance bem convincente e carismática considerando o material técnico. A pressão de ser um grande líder está sempre evidente no rosto bem expressivo do jovem ator, que não deixa ninguém roubar a cena. Oscar Isaac, Jason Momoa e Josh Brolin estão todos ótimos como os “role models” masculinos de Paul, enquanto Rebecca Ferguson oferece uma performance apropriadamente alienada e durona para sua mãe, Lady Jessica.

E, apesar da participação reduzida, a britânica Sharon Duncan-Brewster consegue ser o grande destaque entre os coadjuvantes. Na pele da Dra. Liet Kynes (que no livro era um homem), a atriz confere uma áurea de mistério e sabedoria para a ecologista imperial, sendo também muito mais eficiente em lidar com exposição do que outras ferramentas do roteiro. Dou grande destaque também para Stellan Skarsgard, completamente asqueroso como o monstruoso Barão Harkonnen, que eu espero ter mais destaque na segunda parte da adaptação. 

Tecnicamente perfeito

O grande trunfo do novo Duna é certamente em quesitos plásticos. O design de produção é excepcional na proposta de oferecer um olhar sóbrio e moderno para castelos, salas e espaçonaves desse universo, ao mesmo tempo em que um inconfundível camp da década de 80 é bem visível em alguns capacetes cartunescos ou trajes espalhafatosos: o equilíbrio perfeito. Seja em locações reais ou artificiais, os efeitos visuais são utilizados de forma orgânica e sempre complementares a seus ambientes, garantindo uma obra tecnicamente perfeita em todos esses quesitos visuais.

E quando chegamos à fotografia de Greig Fraser, há muito o que se elogiar. As tomadas que registram imagens dos personagens pelos desertos que dão nome ao filme são lindíssimas, e ganham ainda mais textura durante as imagens captadas no frame estendido do IMAX. Fraser também é criativo no uso de objetos futuristas que lhe garantem fontes de luz, como o “ring light flutuante” que acompanha as feiticeiras da ordem Bene Gesserit ou o revestimento amarelado de um dos veículos voadores chamados de ornicópteros, que garantem uma atmosfera forte para uma cena envolvendo Paul e sua mãe. Minha única crítica a Fraser vai para uma cena climática envolvendo o icônico verme de areia gigante, que é completamente prejudicada pela falta de iluminação: é simplesmente escuro demais, mesmo para uma cena noturna, chegando a esconder o visual da criatura dentuça.

Quanto à direção de Denis Villeneuve, não há dúvidas de que o cineasta é realmente talentoso. Já havia ficado bem claro em Blade Runner 2049 seu olhar para criar quadros lindíssimos que valorizam o tamanho de uma tela de cinema e diferenças espaciais de grande escala. Não é diferente em Duna, ainda mais considerando que um planeta inteiro é o centro das atenções da história. É um deleite para os olhos, especialmente nas visões enigmáticas que Paul tem do futuro, mas algo que também havia sido uma suspeita em seu trabalho com Blade Runner se confirma aqui: Villeneuve é ótimo com atmosfera, mas não é exatamente um bom condutor de ação.

Não que Duna esteja mais interessado em ação do que em seus temas metafísicos, mas considerando que o novo filme tem tantas cenas do gênero, chega a ser decepcionante. Ainda que contem com belos enquadramentos e iluminações diversas, Villeneuve é pouco imaginativo na forma como orquestra perseguições, embates e lutas corporais: há uma sequência envolvendo Jason Momoa lutando em um corredor repleto de espadachins que consegue ser sem qualquer energia ou senso de urgência, assim como uma cena completamente virtual em que acompanhamos uma nave dando piruetas enquanto foge de explosões. Nada empolgante, e infelizmente bem burocrático do ponto de vista do espetáculo, que só ganha um pouco de charme graças à energética trilha sonora de Hans Zimmer. Nem todos são como James Wan em Aquaman, afinal.

Há também toda a questão do final. Sim, sabemos que a proposta de Villeneuve com a Warner Bros e a Legendary é a de uma adaptação em duas partes da obra de Frank Herbert. Porém, esta primeira parte não se sustenta sozinha como um filme único, acabando abruptamente em um cliffhanger que ainda tem a sem vergonhice de declarar que “é apenas o começo”. Para fins de comparação, a primeira parte da adaptação dupla de It: A Coisa de Andy Muschietti era um filme completo, independente de continuações ou não. Já Duna permanecerá como apenas uma parte de algo maior ainda por vir.

A adaptação de Denis Villeneuve para Duna é um feito e tanto. Com um design impressionante e uma escala que merece a tela grande, o longa merece ser lembrado como um dos mais caprichados dos últimos anos. Só é uma pena que a conexão com a história e seus personagens seja tão superficial e perdida em meio a conceitos complexos e dependentes de uma grande mitologia. Torcer pela Parte 2, agora.

Duna (Dune, EUA – 2021)

Direção: Denis Villeneuve
Roteiro: Denis Villeneuve, Eric Roth e Jon Spaihts, baseado na obra de Frank Herbert
Elenco: Timothée Chalamet, Rebecca Ferguson, Oscar Isaac, Zendaya, Stellan Skarsgard, Josh Brolin, Jason Momoa, Javier Bardem, Dave Bautista Sharon Duncan-Brewster, Stephen McKinley Henderson, Che Chang, Charlotte Rampling
Gênero: Ficção Científica
Duração: 152 min

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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