E enfim a tão aguardada Batalha de Winterfell ganhou forma!

Basicamente, a série criada por David Benioff e D.B. Weiss se resumiu ao capítulo em questão. Após um último capítulo movido pela angústia e por um claro adeus de diversos personagens que caíram no gosto do público e são protagonistas de alguns arcos mais belos da televisão contemporâneo – com grande parte deles mergulhando em subtramas de redenção, perdão e até mesmo de um ódio que os martiriza em prol de algo muito maior. Não é surpresa que os showrunners procuram, ao mesmo tempo, reinventar o gênero épico visto em diversas produções fantásticas – cito aqui novamente Senhor dos Anéis, que serviu de inspiração para o show se concretizar – e emular de forma aplaudível suas referências. O problema é que, no final das contas, isso deixa a desejar e entrega a um fiel público um dos episódios mais fracos de toda a série.

Não há como deixar de lado a enorme expectativa que o público nutriu desde o episódio passado até aqui. Acompanhamos a crise em ultimato de personagens como Brienne (Gwendoline Christie) e Jamie (Nikolaj Coster-Waldau), observamos de perto o amadurecimento compulsório de Arya (Maisie Williams) e presenciamos a união de família inimigas movidas pelo desejo convergente de destruir um dos maiores inimigos a dar as caras em Westeros. Logo, a batalha – que já dava indícios de ser um dos maiores eventos da televisão e do cinema desde sua primária concepção – não poderia ser menos do que épica. E é através de uma narrativa confusa e entremeada com múltiplos acontecimentos aglutinados que o duo supracitado parece ter perdido a mão, e isso sem comentar a pífia direção de Miguel Sapochnik, que transforma o campo de guerra em um espetáculo incompreensível.

A frustração insurge mais quando paramos para pensar no incrível prólogo que nos cerca. O silêncio, emergindo como principal personagem desses primeiros minutos, é o artifício encontrado pelo time criativo para nos aumentar a angústia. Postados no fronte, temos os Dothraki, prontos para destruir quem ousar se aproximar da muralha de Winterfell; logo atrás, os Imaculados empunham suas lanças e espadas; uma medonha trincheira serve como último obstáculo para os inimigos que se aproximam e, além de tudo isso, Daenerys (Emilia Clarke) e Jon Snow (Kit Harrington) vasculham os céus e se preparam como elementos-surpresa do ataque do Rei da Noite. Com exceção de mínimas frases proferidas por guerreiros em um estado de suspensão agonizante, ninguém nem ao menos se atreve a respirar – e essa brincadeira sinestésica quebra as quatro paredes da série e atinge os telespectadores com força descomunal, levando-os para as terras geladas do Norte.

É nesse contexto de iminência infinita que uma das personagens mais contraditórias e sedutoras do panteão arquitetado por George R.R. Martin retorna às telinhas em toda sua impertinência e oferta de ajuda: Melisandre (Carice van Houten). A sacerdotisa, montada em seu cavalo, aparece em seus trajes flamejantes e utiliza seus conhecimentos sobrenaturais para evocar o Senhor da Luz, fornecendo assim o único suspiro de esperança dos exércitos em derrotar os Caminhantes Brancos. E, assim que adentra as fortalezas do castelo, a primeira linha dos combatentes mergulha na noite em uma sequência simplesmente perfeita e de tirar o fôlego, no qual o contraste entre luz e sombra se canaliza para um mesmo significado. Porém, a sensação epopeica prometida por seus criadores morre antes de ganhar uma forma mais palpável, deixando a desejar até os momentos finais do capítulo.

Dentro desse esforço em finalizar diversos arcos narrativos que constroem-se desde a primeira temporada, Sapochnik, em colaboração com os showrunners, perde o rumo em meio a uma confusão imagética desnecessária, cuja instantânea reação é de repulsa. A edição, que normalmente busca por cortes mais bruscos quando em contato com sequências de ação, mostra-se forçada e cansada, preferindo ocultar expressões de significação importantes em detrimento de realizar revelações imprescindíveis para a continuidade da história principal. Em outras palavras, esse frenesi estético foge tanto do convencional que chega a beirar um experimentalismo mal-acabado, perscrutado por cores vivas e uma ambiência constantemente enevoada que, no caso, também não ganha uma voz tão forte quanto aparenta.

É cômico e irônico notar que os melhores momentos não ocorrem no campo de batalha, e sim fora dele. Melisandre e Arya retomam um antigo e breve encontro que preconiza o desfecho da trama em questão – e as duas, partindo de uma perspectiva macrocósmica, são as únicas a aliviar uma crescente frustração que não deveria nem ao menos existir (ao menos não no lugar e no tempo em que nos encontramos). Eventualmente, a sacerdotisa sacrifica-se e cumpre sua palavra, acrescentando algumas pinceladas sôfregas e românticas para sua ruína autoproclamada; Arya, por sua vez, é foco de uma entrega aplaudível que culmina em seu quase sacrifício para salvar a todos, logo revelando ser um plano cuidadosamente planejado para dar fim ao Rei da Noite. De qualquer forma, a conclusão dá uma sensação de artificialidade por acabar em um piscar de olhos, recheado de obstáculos vultosos que seriam facilmente resolvidos de uma forma mais simples e menos melodramática.

O diretor também peca em sua reprodução do eterno inverno que chegaria ao Norte mais cedo ou mais tarde. A fotografia excessivamente escura vai de encontro às mensagens e sensações prometidas há algum tempo, criando um visível e triste declínio no tocante à envolvência da temporada; a sutileza encontrada na semana anterior, descartada por completo aqui, poderia ter sido repaginada como forma de impedir o obscurantismo saturado que tanto condenamos. Por causa disso, mortes de personagens como Lyanna (Bella Ramsey) e Jorah (Iain Glen) perdem força e causam um impacto muito menor do que poderiam ter causado caso esses deslizes fossem lapidados com mais cautela.

The Long Night prometeu mais do que conseguiu entregar – e é numa infeliz surpresa que cede a diversos convencionalismos e fórmulas de produções similares. É claro que a guerra pelo Trono de Ferro está só começando, mas não podemos deixar de nos sentir tristes pela suposta falta de carinho e atenção que o time criativo de Game of Thrones deu a um momento tão importante e crucial para a série.

Game of Thrones – 08×03: The Long Night (Idem, EUA – 2019)

Criado por: D.B. Weiss e David Benioff, baseado na obra de George R.R. Martin
Direção: Miguel Sapochnik
Roteiro: D.B. Weiss, David Benioff
Elenco: Kit Harington, Emilia Clarke, Peter Dinklage, Maisie Williams, Sophie Turner, Lena Headey, Liam Cunningham, John Bradley, Alfie Allen, Isaac Hempstead Wright, Nikolaj Coster-Waldau, Conleth Hill, Rory McCann, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Gemma Whelan, Gwendoline Christie, Nathalie Emmanuel, Jacob Anderson, Daniel Portman, Carice van Houten
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 82 min

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