Game of Thrones está na iminência de seu término – e é apenas natural que os fãs, que vêm acompanhando a série há oito anos, continuem a aumentar suas expectativas quanto ao aguardado e antecipadíssimo season finale. Entretanto, se há algo que David Benioff e D.B. Weiss nos entregaram nesta última temporada, foram episódios um tanto quanto irregulares. Em se tratando de uma obra que traz consigo elementos de narrativas fabulescas, era de esperar que os conflitos atingissem ápices catárticos e épicos – coisa que deixou de existir no terceiro capítulos (um dos mais esperados de toda o show); aliás, é fato dizer que as melhores construções narrativas foram ambientadas nos momentos predecessores à batalha, em que os showrunners arquitetavam um envolvente e agoniante pano de fundo apenas para entregar mediocramente o que poderia ter alcançado uma perfeição estética.

Bom, essa falta de ousadia, com bastante infelicidade, perdura até a segunda batalha da temporada – desta vez afastando-se da união entre família inimigas e redirecionando-se para a conquista do trono. Em The Bells, como ficou intitulada a quinta e penúltima iteração, Daenerys (Emilia Clarke) e Cersei (Lena Headey) são protagonistas de uma guerra totalmente desperdiçada, construída sobre as migalhas deixadas como uma parca trilha pelos roteiristas. De fato, o embate entre duas figuras tão poderosas deixa muito a desejar, ainda mais por não haver conflito substancialmente palpável: o que acontece aqui, é uma solução deus ex machina rechaçável e apressada que, no final das contas, configura o episódio como um dos piores da série.

Daenerys talvez seja a única personagem que consiga se salvar. Retomando a premissa “governarei sob fogo e sangue”, ela se transforma da Quebradora de Correntes em uma psicótica e vingativa Rainha que tem como objetivo destruir aqueles que lhe fizeram mal – e, apesar de isso desagradar o público, que sem sombra de dúvida esperava por um “final feliz” à la contos de fada, faz total sentido dentro do arco que lhe foi designado. Afinal, Khaleesi perdeu aqueles que amava, foi traída por seus supostamente fiéis conselheiros e se viu num beco sem saída cujo destino final era a conquista do que sempre sonhou: o Trono. E, como já havia falado antes, nada a impediria de reclamar aquilo que lhe pertencia por direito, o que, dentro do escopo medieval apresentado por George R.R. Martin, também traz um intrínseco sentido.

Não é surpresa que, após a estranha e inexplicável rendição de Cersei, ela não aceite as regras do jogo. Daenerys transforma-se na versão viva dos escritos de Maquiavel – “é melhor ser temida do que amada” -, montando Drogon, seu último dragão vivo, e reduzindo Porto Real a cinzas e a corpos carbonizados. Eventualmente, é assustador pensar que, nos momentos finais da série, ela demonstre do que é capaz: não há escrúpulos em Westeros e, assim como sua conterrânea Lannister também já provou, qualquer coisa é válida na Guerra dos Tronos. Também é aterrorizante perceber que a tragédia que acomete centenas de inocentes mergulha numa beleza estética que nos transporta imediatamente para as lotadas ruas da Fortaleza Vermelha e da cidade portuária que a cerca.

Porém, o que se constrói dentro de uma centelha de esperança para uma temporada meia-boca logo cede a convencionalismos extremamente esdrúxulos e desnecessários. Temos, por exemplo, a forçada conclusão do arco de Cersei, que percebe que suas tentativas de se manter como governante suprema não funcionaram, reunindo-se com Jamie (Nikolaj Coster-Waldau) para então encontrar seu fim. É muito difícil não associar esse adeus a uma tragédia shakespeariana, mas novamente o roteiro assinado por Benioff e Weiss perde-se no meio do caminho, optando por resoluções apressadas e nem um pouco comedidas que tiram o foco da concisa e artística direção de Miguel Sapochnik – cuja melhora em relação a seus trabalhos anteriores é visível e passível de ganhar notoriedade.

Arya (Maisie Williams) é outra personagem esquecida e descartada. Seu principal objetivo é matar Cersei, ao lado de Sandor (Rory McCann), mas abandona a “missão” para sobreviver, algo que não conversa com sua personalidade beligerante e astuta. De qualquer forma, ela se vê em situações de quase morte, desviando de rajadas de fogo, escondendo-se em meio aos escombros e falhando miseravelmente em salvar qualquer vida que seja. Em suma, é quase automático percebermos um complexo de egolatria em suas ações, apenas para perceber os erros que cometeu e sair sã e salva de Porto Real montada em um cavalo (que aparece por intervenção divina sabe-se lá de onde).

Não há muito a se salvar no penúltimo capítulo dessa saga que, outrora, representou uma grande revolução no meio televisivo. Game of Thrones tornou-se, no que deveria ser um épico final, um amontoado de mediocridades e arquiteturas mal resolvidas que não surpreendem por causar tanta fúria em seu fandom. Porém, é sempre bom carregar um pouco de esperança – e, como bom otimista, espero que o series finale ao menos consiga entreter e nos satisfazer.

Game of Thrones – 08×05: The Bells (Idem, EUA – 2019)

Criado por: D.B. Weiss e David Benioff, baseado na obra de George R.R. Martin
Direção: Miguel Sapochnik
Roteiro: D.B. Weiss, David Benioff
Elenco: Kit Harington, Emilia Clarke, Peter Dinklage, Maisie Williams, Sophie Turner, Lena Headey, Liam Cunningham, John Bradley, Alfie Allen, Isaac Hempstead Wright, Nikolaj Coster-Waldau, Conleth Hill, Rory McCann, Joe Dempsie, Iain Glen, Pilou Asbæk, Richard Dormer, Gemma Whelan, Gwendoline Christie, Nathalie Emmanuel, Jacob Anderson, Daniel Portman, Carice van Houten
Emissora: HBO
Gênero: Aventura, Drama
Duração: 78 min

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