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Após uma receita de US$585.174.222 e uma popularização absurda do personagem com o filme de 2008, a Marvel visivelmente mexeu os pauzinhos para que uma sequência aparentemente sem planejamento prévio engajasse nos cinemas antes da estréia dos filme de Thor e Capitão América. Imagine quase todos os pontos positivos do primeiro serem invertidos para pontos negativos. Imaginou? Então vamos à crítica.

Primeiramente, é válido salientar que a trama do filme possui uma premissa bastante interessante. O governo quer pôr as mãos na tecnologia do Homem de Ferro, enquanto um novo empresário que cresceu com a saída de Stark do mercado bélico no filme anterior tenta recriá-la e se alia a um antigo inimigo da família Stark que busca vingança e é o único capaz de, efetivamente, recriá-la. Soma-se a isso o fato de que a tecnologia que mantém Tony vivo segurando os estilhaços também o está matando lentamente devido suas substâncias.

Mas comecemos primeiro pelo elenco. Robert Downey Jr. continua ótimo como Tony Stark embora, por culpa do roteiro, acredito, não ofereça nada de novo ao personagem, nenhuma camada que não havíamos visto no primeiro filme. Note como Stark apenas reage momentaneamente aos acontecimentos sem sofrer consequências a longo prazo. Não há evolução, não há desenvolvimento. O Tony Stark do começo é o mesmo do fim do filme. Felizmente, ainda lhes restam alguns bons diálogos sarcásticos e o tom do humor em sua interpretação é acertado e perfeitamente complementado pela trilha sonora que conta com AC/DC em seu arsenal, um ponto positivo herdado do filme anterior.

Pepper Potts, ao contrário do primeiro filme, não vai contra nenhum clichê e não exerce uma função relevante para a trama, servindo apenas para se mostrar preocupada com o chefe e reclamar sempre que pode, chegando ao ponto de transformar uma ótima personagem em um artifício por vezes irritante. O ponto positivo aqui, fica por conta da construção de seu relacionamento com Stark em cenas específicas que convencem até chegar ao beijo no final.

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Don Cheadle (substituindo Terence Howard) como Coronel James Rhodes não desaponta e oferece uma dose de carisma e presença maior do que seu antecessor, melhorando o que já era bom. Entrega uma boa química com RdJ e a amizade entre os dois é construída de maneira crível. O ator também revela uma verve cômica tímida, mas funcional. Uma pena que, em determinado momento da trama, surja uma problematização entre seu personagem e Stark que renderia um bom arco dramático, mas que é completamente desperdiçada. Falarei sobre a cena em questão mais adiante.

Samuel Jackson, ampliando sua participação da cena pós-créditos do primeiro filme, surge aqui como um mero fan service que fornece a Stark algumas informações e recursos, sendo um deles responsável por um vergonhoso deus ex machina ao final que falarei adiante e conversa com ele a respeito da iniciativa que uniria os Heróis Mais Poderosos da Terra no filme de 2012. Triste ver a participação de um ator desse calibre reduzida a tais funções sendo que ocupa espaço considerável de tela.

O mesmo problema ocorre com a personagem de Scarlett Johansson, a Viúva Negra que mesmo rendendo uma excelente cena de luta ao final do terceiro ato, não justifica sua inserção na trama a não ser o fan service. A desculpa é que a personagem está ali para avaliar o herói para ingressar na iniciativa, estúpido se considerarmos como óbvia sua entrada no megafilme de 2012. Estaria bem melhor inserida na trama se sua presença fosse justificada para investigar algo relacionado aos vilões, estes, certamente um dos maiores problemas da fita.

Pela heroína ter surgido pela primeira vez nas HQs em uma história do Homem de Ferro, esperava, como fã, uma entrada à altura da reputação da personagem (e não, não estou falando apenas de habilidades físicas). Logo, podemos concluir que o fator fan service extremamente bem inserido no primeiro filme é administrado de maneira gratuita neste interferindo no plot principal mais do que deveria, salvo apenas a cena pós-créditos já que a presença de um determinado escudo também soa deslocada.

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Falemos agora dos vilões. Se no primeiro filme Jeff Bridges protagonizava um antagonista pouco memorável que foi reduzido a caricatura no final, que não atingia seu potencial de ameaça presente nos quadrinhos do herói, ao menos ele conseguiu ser interessante até o terceiro ato, empurrou a trama, rendeu uma boa reviravolta e transpareceu sim ser ameaçador em alguns momentos (como na cena do pen drive). Agora imagine tudo isso ausente ou piorado aqui.

Justin Hammer, surge completamente deturpado dos quadrinhos como um personagem mimado e nada ameaçador, basicamente uma versão maligna, reduzida e menos carismática de Tony Stark. Ivan Vanko (uma junção de dois vilões do ferroso) embora com boa motivação, só está no filme para apanhar, tomar decisões estúpidas, como recriar a tecnologia de Stark e exibir sem preparo algum no meio de uma pista de corrida, e proferir alguns diálogos que beiram a vergonha alheia. Quem não lembra do “I want my bird”? Ou melhor, quem lembra, não? Já que são personagens completamente esquecíveis…

Sam Rockwell e Mickey Rourke, sem boa direção de Jon Favreau, não atingem o equilíbrio de suas respectivas interpretações e ambos saem prejudicados pelo roteiro que lhes foi dado. A situação foi tão ruim que o próprio Rourke veio a público reclamar de seu personagem, demonstrando extrema insatisfação pelo material desperdiçado. E olha que os dois possuem tempo adequado de tela. Realmente uma pena e uma lástima que fora tão mal utilizado.

Falando em direção, o Jon Favreau que vemos em Homem de Ferro 2 é uma versão um pouco diferente da vista no primeiro filme. Aqui observamos ele menos inspirado dirigindo no automático na maioria das vezes. Várias oportunidades de enquadramentos mais simbólicos ou intimistas são desperdiçadas por uma decupagem simplista. O ponto alto fica por conta de uma sequência de ação que se passa em Mônaco onde o jogo de câmeras é mais diversificado. No clímax, o diretor também perde a mão ao não conseguir deixar a longa sequência de perseguição dos Hammerdrones instigante, errando mais ainda na luta contra o Whiplash.

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Já entrando no âmbito da ação, o que o filme tem a oferecer nesse sentido é bem limitado, anticlimático e mal realizado. São três grandes sequências principais. A batalha em Mônaco, mesmo que visualmente interessante, é curta demais e peca pela lógica terrivelmente óbvia de sua duração estar correta visto os recursos do vilão, sendo no caso, preguiça de roteiro mesmo. A luta das armaduras com Tony e Rhodes, apesar de uma trilha divertida e adequada do Queen, é vazia e sem peso, não gerando as consequências que deveriam, estando presente só para marcar tabela.

Mas, talvez, a mais problemática seja a sequência de ação no clímax, da já comentada perseguição que pesa mais como erro por durar mais do que deveria e culmina, no final, em uma luta em trio ridiculamente mais curta do que qualquer sequência no filme, sendo ainda pior que o embate contra o Monge de Ferro do filme anterior. O Homem de Ferro é um herói mecânico e volátil e exige certas demandas no quesito ação que não foram atendidas. Some-se o fato de que nenhuma delas foi realmente substancial para a trama e você terá um exemplo de como não inserir ação em um filme de herói.

Agora entramos no maior problema do filme, seu roteiro, e não por conter grandes furos mas por sua clara preguiça e inconsistência. Sai o time formado por Mark Fergus, Hawk Ostby, Art Marcum e Matt Holloway e entra Justin Theroux (que havia ajudado a escrever Trovão Tropical dois anos antes). Theroux parece não saber que história quer contar aqui. Elenquei no segundo parágrafo as premissas interessantes que o filme pretendia explorar e – pasmem – nenhuma delas são, de fato, bem exploradas e bem resolvidas dando a impressão que o objetivo é encaixar o máximo número de elementos possíveis sem ligar muito para a emenda principal.

No primeiro ato encaramos tramas como o governo desejando a tecnologia de Stark, um debate pra lá de relevante sobre “privatização da paz” na melhor cena do filme que se passa em uma audiência, os perigos que o uso do reator causa para o bilionário e as motivações convincentes de um vilão que aparenta ser genuinamente ameaçador e vimos tudo isso ser jogado fora ou ser facilmente resolvido nos próximos atos.

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Após o ataque de Mônaco, tudo é condensado de forma preguiçosa. Na questão do governo, é mostrada a conclusão segundos antes dos créditos e a questão da privatização é esquecida e o vilão vocês já sabem. Quanto a conclusão da questão do uso do reator estar lentamente matando Stak, somos presenciados com a sequência mais ridícula de todo o MCU, em um terrível deus ex machina que beira ao amadorismo tamanha improbabilidade, exigindo que nossa suspensão de descrença deva ser elevada a níveis colossais. Trata-se de Tony Stark subitamente criar um novo elemento em questão de minutos – mesmo com JARVIS tendo avisado ser impossível – com base em uma maquete de seu pai (mas que coincidência!) que irá servir como um substituto viável para o Paládio que o estava envenenando. Genial, hein? Não, ridículo e preguiçoso!

Outro conflito canônico do personagem que é só pincelado superficialmente é a questão do alcoolismo de Tony Stark. Favreu estava realmente interessado em retirar elementos da HQ O Demônio na Garrafa (uma das melhores do personagem, diga-se de passagem) para inseri-los aqui mas foi barrado covardemente pelo estúdio que reduziu todo o conflito a uma cena engraçada na festa de aniversário de Stark – com direito a uma patética piada sobre urinar na armadura – que termina com o herói destruindo parte de sua casa na luta com Rhodes e assustando os convidados. Algo meio sério e grave se parar para pensar e que poderia até ser usado como trunfo pelo governo que argumentaria contra a insegurança e instabilidade do herói. Claro que tudo é deixado de lado em prol da “resolução” do próximo conflito.

Se “Homem de Ferro” é um exemplo de como se fazer um excelente filme de herói, Homem de Ferro 2 é um exemplo de como não se fazer uma sequência de filme de herói. Se um foi um game changer, o outro foi apenas mais um filme esquecível do gênero. Portanto, nada mais justo do que encerrar a crítica da mesma maneira que a do primeiro filme só que invertendo pontos cruciais.

Logo, em linhas gerais, eu realmente duvido que algum outro filme do estúdio possa ser pior do que este irrelevante blockbuster no quesito imaturidade e defeitos como um todo que mostra que quando um diretor limitado não inspirado auxiliado por um estúdio deveras controlador é guiado por um roteiro que prioriza fan service e pirotecnia ao invés de história e desenvolvimento de personagem é possível sair algo que represente não só um desserviço ao personagem, mas também ao bom cinema.

Homem de Ferro 2 (Iron Man 2, EUA – 2010)

Direção: Jon Favreau
Roteiro: Justin Theroux, baseado nos personagens da Marvel Comics
Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Don Cheadle, Mickey Rourke, Scarlett Johansson, Sam Rockwell, Clark Gregg, Samuel L. Jackson, Jon Favreau, Kate Mara, John Slattery, Paul Bettany
Gênero: Ação, Aventura
Duração: 124 min

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