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A década de 1990 ganhou notoriedade na indústria cinematográfica por uma razão em específico: tornou-se o momento de imensa prosperidade para as comédias românticas, além de abrir portas para lançar a carreira de diversos nomes hoje muito conhecidos – Hugh Grant, Julia Roberts, Meg Ryan, entre outros. Porém, é um fato dizer que o fim do século passado também cultivou um fértil terreno para um suis-generis que teria mais força alguns anos depois, e que trouxe como principal elemento protagonista as medonhas e mágicas criaturas intituladas bruxas. Desde A Convenção das Bruxas até Abracadabra, esses seres foram resgatados de uma remota mitologia foram abraçados pela indústria, mesmo cedendo a estereótipos como caracterizações exageradas, frases feitas e “o bem vencendo o mal”.

Em 1996, Jovens Bruxas também aproveitou o hype das rom-coms adolescentes para nos entregar a uma narrativa nova, original e recheada de drama, suspense e mistério – e, de quebrar, também nos introduzir a um delicioso híbrido que buscou o melhor dos dois mundos. Claro que, assistindo nos dias de hoje, o filme pode ter envelhecido um pouco, mas de qualquer forma foi encarado de modo muito simplório e subestimado à época de lançamento: afinal, o que uma história envolvendo quatro adolescentes que se entregam às peripécias da magia poderia acrescentar ao saturado cosmos do entretenimento? Bom, a resposta é mais surpreendente do que podemos imaginar e, no final das contas, a obra de Andrew Fleming é aprazível e chocante na medida certa.

A jovem Sarah Bailey (Robin Tunney) se muda de São Francisco para Los Angeles para virar a página de um novo capítulo em sua vida com o pai e a madrasta. Ela, então, conhece um grupo de meninas “fora do comum”, por assim dizer, que são vistas como “as vadias de Eastwick” – a primeira explícita referência que o diretor traz para o longa-metragem. Claro que, levando em conta o momento em que o panteão em questão foi construído, era natural que nossas personagens bruxas seriam as marginalizadas do complexo e brutal microcosmo do colégio: a líder desse grupo, a conturbada Nancy (Fairuza Balk), sabe que não pode confiar em ninguém e logo no primeiro e apressado ato mostra-se como uma amiga em potencial.

Logo de cara, o ritmo e a própria edição construída pelo cineasta podem nos afastar de uma conexão imediata com a proposta que nos apresenta. De qualquer forma, esse início, por mais monótono e prático que seja, nos apresenta aos sofrimentos de cada protagonista: Sarah e Nancy são unidas por terem sido enganadas pelo galã da escola, Chris (Skeet Ulrich); Bonnie (Neve Campbell) sofre com cicatrizes de um trágico incêndio que a impedem de se sentir bonita e a obrigam a cobrir cada centímetro do corpo para não aguentar mais piadinhas; e Rochelle (Rachel True) é alvo de comentários racistas das Queen Bees da escola, além de ter um traumático passado que tirou a vida de sua família.

Eventualmente, as quatro se unem para louvar a uma poderosa entidade conhecida como Manon, senhor da natureza e de todas as coisas do universo – cuja construção também nos indica um respaldo da secular cultura céltica. A partir daí, elas adquirem poderes extraordinários que mudam totalmente suas vidas, além de levá-las por um obscuro caminho que atinge todos que entram em contato com ela. Chris se torna apaixonado por Sarah, Rochelle se vinga das meninas que a diminuíram por toda a sua vida, a Bonnie se livra de suas queimaduras e sente-se, pela primeira vez em ano, como uma garota normal. Os problemas começam quando Nancy resolve atacar e acaba ocasionando a morte de um de seus colegas.

O nome de Fleming pode não soar muito familiar, mas ele é responsável por uma das mais controversas séries dos últimos anos, Insatiable, protagonizada por Debby Ryan. É claro que, apesar de seu inexplicável erro para a televisão contemporânea, Jovens Bruxas é um de seus ápices pela mistura on point mencionada alguns parágrafos acima e, seguindo os passos de uma fórmula bem-vinda, constrói dois blocos bastante distintos. As concepções maniqueístas de bem e errado são descontruídas para um bem maior e em prol de dar uma continuidade arrepiante para a trama, principalmente quando Nancy resolve acabar com Sarah e tirá-la do clã que fundaram à força – ou seja, através da morte. As sequências de luta inclusive buscam referências clássicas e jogos cênicos que emulam Alfred Hitchcock dentro de algumas limitações, é claro.

Entretanto, não é possível deixar passar batido o estranho primeiro ato, cuja contiguidade é posta em xeque e, no geral, mostra-se artificial, seja em termos mais técnicos, seja nas performances do elenco. É interessante analisar, porém, como o filme melhora e reinventa a si mesmo conforme se aproxima dos catárticos ápices e de uma resolução incrivelmente inesperada, mais angustiante do que poderíamos imaginar. Os momentâneos erros são varridos para debaixo do tapete em prol de algo que se conecte mais com os espectadores e com os fãs de um gênero cuja excepcional força estava nos primórdios modernos de exploração.

Jovens Bruxas é uma produção subestimada que ganhou um apreço inenarrável nos dias de hoje e ainda demonstra o poder que carrega de influenciar novas obras. Em meio a uma narrativa inspirada que encontra certos obstáculos no meio do caminho, o resultado final é satisfatório e de tirar o fôlego – das formas mais diversas possíveis.

Jovens Bruxas (The Craft – EUA, 1996)

Direção: Andrew Fleming
Roteiro: Andrew Fleming, Peter Filardi
Elenco: Robin Tunney, Fairuza Balk, Neve Campbell, Rachel True, Skeet Ulrich, Christine Taylor, Breckin Meyer
Gênero: Drama, Fantasia, Horror
Duração: 101 min.

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