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Crítica | Kubo e as Cordas Mágicas

nota-5

Há algo de mágico sobre a mais nova parceria entre a Focus Features e a Laika Productions.

A premissa de Kubo e as Cordas Mágicas a princípio não me encantou muito. Assim que vi os trailers, imaginei que a animação seria um simulacro da tão famosa jornada do herói – cujo uso, visto em franquias como Star Wars e Harry Potter, deu-se de forma tão descontrolada que acabou caindo no abismo dos clichês -, resgatando elementos de outras animações como Paranorman e Coraline e o Mundo Secreto. Um emaranhado de tramas e resoluções muito bem conhecidas por todos.

E eu nunca estive tão feliz por estar enganado.

Kubo se utiliza de alguns temas-base para desenvolver a completude de seu arco narrativo. O primeiro é a identidade, atrelada à memória. Tendo como cenário principal um modesto vilarejo aos moldes asiáticos, o personagem-título é o responsável pela representação resumida de toda uma cultura, seja pela vestimenta, pelas lanternas de papel, pela prática do origami, pelo modo de agir, pelos valores (como honra, respeito, coragem), entre outros. Mas por ser o herói, algo de diferente deve existir: Kubo (Art Parkinson) também carrega consigo um amuleto em forma de macaco e um instrumento musical – uma espécie de banjo -, capaz de dar vida a objetos inanimados.

Qual a finalidade? Bem, digamos que o garoto tem uma habilidade invejável que muitos gostariam de ter: a de contar histórias. E para que as coisas fiquem ainda mais interessantes, cada cena descrita logo é representada pelas peças em papel, que se transformam em samurais, monstros – e até uma galinha gigante.

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Mas nem tudo são flores: Kubo e sua mãe (Charlize Theron) na verdade moram no topo de um penhasco, enclausurados numa caverna estranhamente aconchegante. Os dois chegaram ao vilarejo há bastante tempo, fugindo de sua própria família, e carregando nada além do instrumento supracitado e a esperança de um recomeço. Ela proíbe seu filho de sair depois do pôr-do-sol, porque é na escuridão que eles podem encontrá-lo e arrancar seu outro olho – evidenciado desde a primeira sequência pela utilização do tapa-olho.

A jornada do herói chama problemas, e o primeiro deles vem com a desobediência. Em uma das cenas mais bem construídas – a louvação aos mortos durante o Festival de Inverno -, Kubo deseja reconectar-se com seu falecido pai e obter algum tipo de resposta pela demência crescente que possui o corpo de sua mãe – ela constantemente se esquece de eventos passados e entra em um transe vegetativo que dura várias horas. Ele acaba perdendo noção do tempo e quando a noite cai, suas tias (ambas dubladas por Rooney Mara) – duas criaturas aterrorizantes cujas feições são encobertas por máscaras – desferem um ataque violento não apenas sobre ele, mas também sobre o vilarejo.

Sua mãe, em última instância, enfeitiça o filho e o manda para longe daquelas garras malignas, enfrentando as irmãs com as próprias mãos.

E então a fronteira entre a zona de conforto e a imensidão dos territórios desconhecidos quebra. Kubo acorda em uma planície tomada pela neve e dá de cara com uma… Macaca – o que nos leva a pensar que a magia de sua mãe deu vida ao amuleto. O arquétipo do guardião, cuja personalidade austera e imponente contrasta com a inocência roubada do protagonista. Eles peregrinam até o cadáver de uma baleia, abrigando-se em suas entranhas pela noite até que descubram o que fazer.

As regras do jogo são dadas: o avô, também conhecido como Rei da Lua, (Ralph Fiennes) e as tias do garoto querem seu olho para cegá-lo perante as belezas do mundo terrestre e entrar para o legado assassino e caótico da família. Para impedir que isso aconteça, Kubo deve encontrar uma armadura mágica dividida em três peças: uma katana, um elmo e uma couraça, resguardados por perigos inimagináveis. Será ajudado pela Macaca e por um segundo coadjuvante, o Besouro (Matthew McConaughey) – um samurai amaldiçoado com memória muito fraca.

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O segundo tema-base muito bem explorado pela narrativa é a metalinguagem. Ora, Kubo é um contador de histórias cuja principal plot é embarcar numa das aventuras que cria com tanto esmero. Seu mundo vira de cabeça para baixo de uma hora para outra e, apesar de resguardado pelas figuras protetoras, sente-se sozinho, equipado com a lembrança de sua mãe e o quimono de seu pai. Seu principal desafio é acabar com os planos maléficos de sua própria família, colocando em cheque valores milenares. O que ele deve fazer? Seguir com os instintos bélicos que lhe foram ensinados ou utilizar-se de estratégias pacíficas para tentar controlar a situação.

Um dos grandes pontos fortes de Kubo é seu roteiro. Marc Haimes consegue usar todos os clichês de filmes de aventura a seu favor, deixando clara a jornada cíclica do protagonista e alterando como lhe convém e nos propondo reflexões sobre desfechos e viradas: por que matar o antagonista quando podemos colocá-lo num arco de redenção ou esquecimento? Quem melhor para nos guiar através dos tortuosos caminhos da vida se não nossos pais? O que fazer quando os obstáculos são frutos dos nossos pesadelos? (E essas são apenas algumas perguntas).

A direção de Travis Knight e a fotografia de Frank Passingham casam perfeitamente, em planos capazes de traduzir o sentimento que predomina em cada sequência. A princípio, a identidade visual nos lembra Coraline ou os ápices da animação de Tim Burton, mas logo se mostra inovador e com características próprias, principalmente pelo uso de tons quentes contrastando com a aura vilanesca do azul e do branco. Tudo culmina no fantástico stop-motion, utilizado de forma tão bem elaborada e fluida que desejamos várias vezes nos tornar algum dos personagens.

Kubo e as Cordas Mágicas é muito mais que uma simples animação: é uma análise antropológica sobre as bases e os valores de uma cultura, e como a transgressão dos arquétipos de uma narrativa pode nos apresentar a uma visão completamente nova sobre algo caído no clichê.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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