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Crítica | Mal do Século – Os Perigos do Conforto

Quando conteúdo e forma andam lado a lado, a liberação da protagonista encontraria reflexo na técnica e Mal do Século se afastaria totalmente da estaticidade.

Redação Bastidores
Redação Bastidores Redação
21 de janeiro de 2018 · 6 min de leitura
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Com Spoilers

Na primeira das duas horas de Mal do Século, tudo leva a crer que a indisposição física, psicológica e emocional de Carol (a protagonista interpretada por Julianne Moore) decorre da posição submissa que exerce no casamento. Expressa no tom baixo da voz e na maneira hesitante de falar, a passividade da personagem parece nascer de uma realidade sufocante em que os excessos da casa suburbana e o estilo de vida constituído de idas constantes à academia, ao salão de beleza e às casas dos vizinhos reafirmam reiteradamente a ausência de imprevisibilidade, excitação ou qualquer sensação que aproxima uma pessoa da vividez. 

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A forma como Todd Haynes filma esse teatro plástico contribui sobremaneira para que tal impressão se fortaleça. Em certo momento, ele ressalta o tédio que ela sente durante o ato sexual com o marido. Noutro, através de um travelling revelador, nos mostra a alienação da personagem em uma roda de amigos. O próprio ritmo é um reflexo da lentidão na qual os dias discorrem, e a distância que a câmera mantém dos personagens (até mesmo nos momentos mais íntimos) reforça a aflição, além de transmitir a incômoda impressão de que somos espectadores de um experimento estético e analítico.

No entanto, logo após uma mudança radical no andamento da história, a percepção inicial se altera consideravelmente e passamos a acompanhar a protagonista vivendo os seus dias em um retiro New Age dedicado às curas física e espiritual dos pacientes. A partir desse momento, o que era uma crítica social se transforma na descrição de uma realidade ambiental em que as substâncias químicas dispersas no ar por fábricas, carros e outros componentes da vida moderna interferem ativamente na saúde pública e são responsáveis pelas enfermidades de um grupo de pessoas extremamente suscetíveis a elas, as quais buscam se curar vivendo na natureza e distantes das grandes cidades.

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Embora surpreendente, o choque proveniente dessa mudança abrupta só não é completo porque, muito inteligentemente, Haynes introduzira foreshadowings na primeira metade. Através de um close-up do produto químico usado pelo cabeleireiro, da câmera posicionada dentro de um carro ou das falas oriundas dos rádios e televisões, Haynes apresenta cuidadosamente elementos que, agindo inconscientemente, preparam o espectador lentamente para as modificações que se espreitam no horizonte. De uma maneira quase onipresente, também há um zumbido cuja natureza indefinida (pode ser diegético ou não) supõe a existência de uma máquina incansável em suas ações destrutivas.

Porém, subvertendo mais uma vez as expectativas, o roteiro (também escrito por Haynes) não parece encontrar conforto crítico nesse contexto. As novas situações não só são filmadas da mesma maneira que as anteriores (os planos gerais e estáticos se repetem) como também exibem aflições e sufocamentos parecidos. Peter Dunning (Peter Friedman), o guru dessa espécie de seita, investe numa retórica vazia que exige dos seus “membros” um bem-estar auto-imposto, o qual não tem nada a ver com o que de fato sentem ou com a natureza de cada um dos problemas físicos (os pacientes continuam sofrendo).

Frente a esse cenário indefinido, se torna difícil encontrar um chão em que uma visão ou intenção se solidifica e toma a dianteira. A presença de uma crítica impugna automaticamente a outra? Sabemos que dispositivos eletrônicos e poluição pioram a nossa saúde, mas será que eles são capazes de deixarem as pessoas alérgicas e condicionadas? Estaria Haynes criticando o paternalismo de nossa sociedade e vendo em grupos de auto-ajuda uma maneira de charlatões lucrarem com o sofrimento alheio? Ou seria a temática ambientalista um grande símbolo da AIDS, doença já abordada pelo diretor e que tivera o seu reino de terror poucos anos antes?

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Todas essas perguntas são válidas e maioria delas pode funcionar como uma chave interpretativa. Contudo, é evidente que entre as duas fases do filme há a presença definidora de um mesmo elemento: o conforto (ou segurança, uma vez que o título em inglês é Safe). Tanto na vida que levava nos subúrbios californianos quanto na convivência com um grupo de auto-ajuda, Carol tem tudo à sua disposição. Quando compra um sofá, são os sujeitos encarregados da mudança que o colocam na sala. Quando há algo sujo, quem limpa e cuida da casa é uma empregada, a mesma que sabe onde estão os objetos e móveis da residência. E no centro de recuperação tudo é moldado para que o cotidiano dos pacientes não sofra nenhuma perturbação.

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Pode-se especular sobre a possibilidade do mal-estar ser originado por esse conforto excessivo, assim como é possível também afirmar que, sob uma ótica religiosa, essa insuficiência espiritual seja decorrente de uma culpa primordial, ou que na estrutura da realidade esteja fundida em aço uma tristeza profunda e impossível de ser completamente superada. No entanto, seja qual for a resposta, se nos basearmos numa filosofia cuja cerne intelectual nada mais é do que o apelo a um amor próprio incondicional e infrutífero e dizermos para nós mesmos que está tudo bem, não faremos nada para melhorar a nossa situação.

Carol é, em todos os sentidos, uma mulher irrealizada (nem mesmo o filho compartilha o mesmo sangue). É verdade que a sua inteligência e controle sobre a própria vida mostram-se perigosamente limitados, mas nada no seu cotidiano indica a presença de alguém caminhando em direção a um objetivo. Quais são as suas predileções e gostos? Quem ela desejava ser (se é que desejava) e o quão parecida é a pessoa atual com a que fora idealizada? Quais eram as suas pretensões profissionais? O casamento e a maternidade faziam parte do plano geral de sua vida? 

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É impossível dizer, embora possa ser afirmado o seguinte: para que nos sintamos vivos e estejamos inseridos na realidade, sentimentos como medo, insegurança e dúvida são essenciais e muito mais importantes do que aqueles que geram bem-estar. Ora, conforto é a mesma coisa que não sair do lugar. O que nos move adiante é o temor de não ser quem desejamos, de não conquistar o que mais queremos e de não levar a vida que sonhamos. Se essa apreensão não existe, a auto-realização deixa de ser uma possibilidade e tudo o que resta é o desconforto inerente à vida e a ilusão deliberadamente imposta de que gozamos de uma existência agradável. Em outras palavras, as elevadas intenções do espírito são substituídas pelas facilidades do conforto material e isso é o equivalente à morte.

Se Carol tivesse percebido e confrontado essa realidade — em vez de buscar refúgio na alienação e repetir na frente de um espelho o quanto ama a si mesma –, as coisas poderiam ter se desenrolado de uma maneira muito diferente. E quem pode afirmar que disso não resultaria um movimento abrupto de câmera ou alguma irrupção estética por parte de Haynes? Quando conteúdo e forma andam lado a lado, a liberação da protagonista encontraria reflexo na técnica e Mal do Século se afastaria totalmente da estaticidade.

Mal do Século (Safe, 1995 – EUA)

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Direção: Todd Haynes
Roteiro: Todd Haynes
Elenco: Julianne Moore, Xander Berkeley, Dean Norris, Steven Gilborn, Peter Friedman
Gênero: Drama, Suspense
Duração: 116 min.

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Tags: #Cinema #crítica #Filme #Julianne Moore #Mal do Século #Todd Haynes
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