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Crítica | Máquina Mortífera – 1X01: Pilot

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Tudo tem limite. Se alguém vai refilmar Scarface, é possível encontrar justificativas plausíveis para transportar a história e seus personagens para um contexto cultural e político que justifique a releitura. Eu diria que até mesmo O Poderoso Chefão poderia ser refeito de forma plausível, mas é aí que chegamos nessa conversa de limites. Quando chegamos ao remake televisivo de Máquina Mortífera, não só é uma questão clara de ultrapassar limites do aceitável, como também é um caso de história que simplesmente não justifica a releitura, com exceção da estrutura policial que possibilita histórias diversas com os protagonistas.

Porém, quando encaramos o monstro, até que este não é tão feio.

A trama mantém exatamente a mesma premissa do roteiro de Shane Black, onde um policial americano veterano, Roger Murtaugh (Damon Wayans), acaba de voltar ao trabalho após sofrer um infarto que lhe garantiu uma licença obrigatória. Sob ordens médicas de passar pouco estresse, ele lhe é designado como parceiro o bad boy texano Martin Riggs (Clayne Crawford), um policial instável e com tendências suicidas perigosas após a morte trágica de sua esposa grávida. Neste primeiro episódio, a dupla deve resolver o caso de um homicídio forjado como suicídio.

Tanto como você, caro leitor, também repudiava (e ainda mantenho essa posição) qualquer produção que carregue a marca de Máquina Mortífera mas que não traga a ilustre presença de Mel Gibson e Danny Glover no pacote. Indubitavelmente o melhor exemplar do buddy cop de todos os tempos, a cinessérie de Richard Donner é uma das coisas mais divertidas que o cinema norte americano já produziu em sua História, e parecia uma heresia trazer outros atores nesses papéis icônicos, além da ingrata substituição de Richard Donner pelo irregular McG.

Por tais motivos, o que importa nessa série nem precisa ser a trama, a direção ou o roteiro: é tudo em vão se a dupla principal não tiver a química de Gibson e Glover. Nesse quesito, pode-se dizer que este novo Máquina é bem sucedido. Ainda que Damon Wayans encontre-se bem conservado para um policial veterano e cujo principal jargão seja queixar-se de sua idade, o ator é eficiente ao explorar o caráter impaciente e até assustado de Murtaugh com um bom timing cômico. Mas o papel mais difícil realmente é encontrar alguém tão louco quanto o próprio Mad Max para Martin Riggs, e o relativamente conhecido Clayne Crawford surpreende ao trazer uma versão respeitosa e divertida para o personagem, acertando na construção de uma figura completamente selvagem e trágica. Sua performance durante um assalto a banco é um dos pontos altos e que mostram a compreensão de Crawford do personagem: um sujeito que pode morrer (e até gostaria disso) em uma situação extrema, mas que sai dela com uma risada sarcástica – e um pedaço de pizza na mão, no caso.

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A química da dupla é promissora, ainda que os dois ainda não tenham tido muito tempo para explorá-la de acordo, afinal é uma série de meia hora de duração. Os núcleos da família de Murtaugh também parecem bem adaptados para a TV, assim como a relação de acolhimento a Riggs.

Em termos de história, é o mais básico e genérico clichê de policial caso da semana possível. Tudo bem que nem os roteiros da própria série de filmes eram os mais brilhantes, mas o texto do showrunner Matthew Miller é desinteressante e previsível em sua resolução estapafúrdia. Ao menos os diálogos conseguem mover a história e garantir uma boa interação e apresentação aos protagonistas (como a cena em que discutem como um suicídio a mão armada poderia ser feito), mas Miller não chega nem aos pés da prosa inteligente e sagaz de Shane Black.

Outro ponto questionável é a direção excessiva de McG, que acerta ao trazer uma paleta de cores forte e vibrante desta Los Angeles jogada no verão americano, que de cara já se destaca das demais séries policiais, mas que peca pelos vícios de câmera, clichês de câmera lenta e caracterizações de bandidos e capangas que beiram o cartunesco. Pior é ver o diretor tentando lidar com o drama, em uma sequência super afetada e melancólica que apela para uma trilha musical clichê ao nos contar a perda trágica de Riggs nos minutos iniciais. Em termos de ação, McG até que agrada com uma boa perseguição de carro que acaba invadindo uma corrida de Fórmula 1, mas seu grande mérito fica mesmo com a plasticidade.

Por tudo o que poderia ser, o piloto deste novo Máquina Mortífera não é ruim como poderíamos esperar, rendendo minutos de entretenimento razoável graças a seus dois intérpretes bem escolhidos. Claro, não chega aos pés do original e nem deveria existir, mas pode vir a se tornar uma produção interessante sob melhor direção.

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Publicado por Lucas Nascimento

Estudante de audiovisual e apaixonado por cinema, usa este como grande professor e sonha em tornar seus sonhos realidade ou pelo menos se divertir na longa estrada da vida. De blockbusters a filmes de arte, aprecia o estilo e o trabalho de cineastas, atores e roteiristas, dos quais Stanley Kubrick e Alfred Hitchcock servem como maiores inspirações. Testemunhem, e nos encontramos em Valhalla.

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