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Crítica | O Demônio das Onze Horas – As Extravagâncias de Godard

O tolo Pierrot e o tolo Godard.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
20 de fevereiro de 2018 · 6 min de leitura
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Crítica | O Demônio das Onze Horas – As Extravagâncias de Godard

Jean-Luc Godard voltaria a abordar a política novamente depois de O Pequeno Soldado somente com O Demônio das Onze Horas, como se fosse uma redenção do diretor pelo trabalho insosso realizado em sua primeira aventura politizada. A mudança na forma técnica seria tão abrupta que Godard até mesmo gastaria muito dinheiro para filmar em Cinemascope e em Technicolor, duas escolhas que certamente rendem melhorias estéticas ferrenhas ao filme chegando até mesmo lembrar o capricho visual de O Desprezo.

Mesmo que não foque inteiramente sobre as guerras da Argélia e do Vietnã, Godard faz questão de mandar suas mensagens ideológicas sem muita cerimônia. Logo, temos o melhor e o pior de Godard como cineasta e roteirista nesse filme que simplesmente se transforma após a marca da primeira hora.

Viagem da Perdição

Por incrível que pareça, O Demônio das Onze Horas possui um dos roteiros mais focados de Godard, conhecido pelas narrativas esparsas bastante diluídas. O fato é a união do estilo peculiar do roteirista com o formato de narrativa muito convidativo para a escrita fragmentada: o road movie. Com ares de Bonnie e Clyde, temos a história de Fernand Griffon, o ‘Pierrot’ (Jean-Paul Belmondo), um homem casado e rico que está entediado da vida de conforto que leva. Quando reencontra uma ex-namorada, Marianne (Anna Karina), decide fugir com a moçoila e encarar uma vida criminosa já sabendo que a mulher é caçada por alguns gangsteres.

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A quebra de rotina é sempre muito bem aproveitada pelo road movie que praticamente implora para que suas aventuras tenham pitadas generosas de romance e crime. Nessa junção perfeita, Godard tem tudo em suas mãos para criar uma nova obra-prima. Em primeiro momento, isso de fato acontece.

Os personagens são bastante contrastados, com Pierrot sendo um intelectual maçante que passa dias consumindo cultura para tentar criar suas próprias filosofias – ou seja, as filosofias de Godard já bastante influenciado pelo maoísmo, contra a fascinante Marianne, uma jovem repleta de emoções que só deseja viver o dia como se fosse o último em uma jornada de prazeres.

O romance com os dois acaba funcionando bastante por conta do intenso conflito que surge entre eles quando Pierrot para de atender as demandas criminosas de Marianne, fugindo da adrenalina e se fixando em um paraíso idílico de praias delicadas em constante contato com a natureza. A aventura até ali é bastante agradável exibindo como Godard ainda tem a capacidade de encantar com o bom humor e personagens interessantes.

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Isso tem muito a ver por este segmento ser o menos ideológico da narrativa, focando realmente no amor dos dois, nas peculiaridades do tratamento que possuem entre si e nas trapalhadas criminosas de ambos, mesmo que ainda tenhamos a forte presença das leituras de Pierrot. A imprevisibilidade dos personagens em união a algumas conveniências narrativas também funciona para manter a fluidez da trama.

Os problemas surgem a partir de um momento muito bizarro que Godard faz questão de encaixar na vã tentativa de criticar os Estados Unidos sobre a Guerra do Vietnã. A sequência inteira é de um mau gosto completo. O que incomoda, além da insensibilidade artística, é a prepotência intelectual de Godard que demonstra sua soberba com a completa ignorância sobre o tema, apelando aos mais cafajestes dos estereótipos.

A derrocada é iniciada aí, com Godard fragmentando ainda mais a narrativa jogando acontecimentos aleatórios e mudando a índole do casal. Cenas de tortura retornam, além de trechos de violência que simplesmente não casam com que era feito antes. O resto da história se comporta como se fosse um filme totalmente diferente, apesar de possuir uma bela sequência musical que abranda o tom surreal que Godard adota. São diversos erros como a separação do casal, a inserção de novas cenas com monólogos insuportáveis, entre outros elementos que também já tiraram o brilho de outros filmes do autor.

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Na direção, surpreendentemente, há um flashback da técnica que apresentou em O Desprezo: refinamento e elegância. Godard é um cineasta de fases que consegue se transformar inteiramente em questão de um intervalo pífio. Justamente por isso que seus filmes são tão fascinantes e diferentes a um ponto que se torna difícil perceber, somente pelo visual, que foram dirigidos pela mesma pessoa.

Apesar de nunca movimentar a câmera fora de seu eixo com travellings ou gruas, o diretor compensa com panorâmicas milimetricamente precisas para manter um equilíbrio invejável nos enquadramentos sempre belos do longa. A explosão de cor, com objetos também selecionados a dedo para oferecer também contrastes absurdos, se torna um festim para os olhos. Como boa parte do filme é centrado em locações repletas de paisagens estonteantes, é difícil não categorizar O Demônio das Onze Horas como um dos longas mais bonitos de Godard.

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O tom quadrado do manejo de câmera não impede as outras marcas ousadas do diretor como algumas quebras de quarta parede mais criativas, inserções de letreiros excêntricos, além da montagem sempre muito característica do diretor. A encenação realmente não é um dos pontos fortes aqui, apesar de Godard montar uma piada genial ao final do filme, quase satirizando a si próprio com o intenso papo filosófico.

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Aliás, há uma transformação visual digna de nota no começo do filme, na qual acompanhamos Pierrot e sua mulher em uma festa aparentemente insuportável. Para representar a imobilidade da burguesia e da repleta falta de contraste, Godard usa filtros nada sutis jogando os rígidos enquadramentos sob cores monocromáticas de tons esverdeados, vermelhos ou azuis. Com a quebra do confinamento de Pierrot em sua vidinha, a opulência visual do longa se faz ainda mais poética e adequada.

Filme Interrompido

Às vezes a maior ameaça contra uma obra pode ser o seu próprio criador. O tom ideológico de Godard consegue tornar O Demônio das Onze Horas em um filme realmente insuportável em sua hora final, renegando completamente o bom trabalho feito anteriormente que consegue capturar a atenção do espectador, além de gerar empatia com os personagens, em especial com Marianne já que Anna Karina exibe sua melhor performance nessa parceria com o diretor.

Mas não é apenas por conta do cinismo pedante do diretor que o filme se perde, mas pela narrativa que passa a saltar no extremo da fragmentação, quebrando qualquer sucessão de lógica ou coerência apresentada até então. No mais, é um bom filme de Godard, extremamente belo e feliz em sua primeira metade fiel a proposta do longa, mas ainda se trata de uma obra atropelada pelo próprio ego do realizador.

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O Demônio das Onze Horas (Pierrot le fou, França – 1965)

Direção: Jean-Luc Godard
Roteiro: Jean-Luc Godard
Elenco: Jean-Paul Belmondo, Anna Karina, Graziella Galvani,
Gênero: Crime, Drama, Romance, Comédia
Duração: 110 minutos.

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Tags: #Anna Karina #Jean-Luc Godard #Jean-Paul Belmondo #Nouvelle Vague
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Matheus Fragata
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Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema. Apaixonado por histórias que transformam. Contato: matheus@nosbastidores.com.br

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