Histórias sobre a CIA adoram contar o lado vitorioso, ou como foi vencer o terrorismo e todo o mal gerado pela luta armada pelos guerrilheiros que usam a religião em busca de um ideal, principalmente os filmes pós-onze de setembro, após os atentados que vitimizaram os Estados Unidos e que tiveram como alvo as torres gêmeas do World Trade Center, o Pentágono e um terceiro avião que ia em direção a Casa Branca. Uma busca incessante aos terrorista foi realizada, mas poucos se fizeram a pergunta de como foi feita essa busca, e quais foram os métodos empregados para conseguir suas respostas até chegar ao mentor dos atentados: Osaba Bin Laden.

Em O Relatório (Scott Z. Burns) o agente do FBI Daniel Jones (Adam Driver) é chamado para uma força tarefa montada por uma Senadora para investigar possíveis abusos cometidos no programa de detenção e interrogação criado pela CIA para tirar informação de terroristas. A produção então foca em sua mais de uma hora em apenas investigar os fatos, e então as recria de forma inteligente, até mesmo para sair daquele marasmo do escritório que havia se estruturado, e para criar a sensação de crueldade que o diretor queria levar para o público, de que o programa de táticas avançadas era ineficaz e só servia para torturar mesmo. São cenas pesadas e que lembram bastante um filme de terror, é preciso ter estômago forte em alguns momentos.

Obviamente que por ser um filme investigativo ele é cansativo em muitos momentos. Seu ritmo é lento, muito lento, chega a ser parado, mesmo. Muitas coisas estão acontecendo e sendo descobertas a todo instante e parece que o filme não sai do lugar mesmo assim, e isso é estranho. Isso se deve muito ao ambiente escolhido para filmar, que é o escritório de investigação. O local dá uma ideia de que tudo está parado e que o filme não muda de cenário e que a história não gira.

O foco não é a ação e sim a investigação e também a de denunciar o ocorrido, as práticas de tortura, mas há um certo exagero em mostrar as cenas de tortura. O roteiro também peca em não apresentar muito o lado político, quando apresenta esse lado fica interessante, mas quando isso acontece o telespectador possivelmente já tenha se cansado ali da trama ou até mesmo desligado a TV, é uma aposta arriscada do roteiro de deixar tanta coisa para o segundo e terceiro ato. A questão política é importante e ela poderia ter sido o principal da narrativa. Apresentar os fatos do ponto de vista investigativo é interessante, mas colocar tudo apenas do ponto de vista de Daniel Jones foi um tiro no pé.

Daniel Jones é o principal personagem da trama, ele que faz girar toda a história e todos os acontecimentos vão se desenvolvendo ao seu redor. As situações vão sendo levadas a ele e com grande perícia Adam Driver vai dando o tom certo que o protagonista necessita. Jones é um agente do FBI que não se mete em muitas situações de risco, e talvez o público quisesse ver mais disso, ou mais de investigação criteriosa ou interessante, algo como foi feito em Todos os Homens do Presidente (1976), uma aula de como se fazer jornalismo e de como se fazer uma bela investigação.

Adam Driver está em outra atuação segura. Claro que seu personagem não faz nada além de investigar e conversar, mas há momentos em que se revolta e seu tom dramático está ali. O ator demonstra ter aquele carisma que todos conhecem, e sua interpretação é de longe a principal do filme. Uma pena que ele é apenas o destaque isolado em um filme vazio, poderiam ter balanceado colocando um personagem secundário de maior força ou mais relevante para dar mais brilho para o personagem de Daniel Jones, que se mostrou muito fraco e sem camadas tendo que atuar sozinho quase que o longa inteiro.

O Relatório é daquelas histórias que se não são espetaculares, servem apenas como relatos de algum momento de uma guerra que não serviu para nada, e por sinal esse é o principal ponto do roteiro: a crítica a guerra, de que serviu ela e pra que os EUA foi a caçada aos terroristas. É como se a investigação tivesse chegado a conclusão que o programa de táticas avançadas tivesse servido apenas para torturar terroristas como forma de vingança pelos atos praticados nos EUA. Como mensagem o longa cumpre bem sua tarefa, serve para passar o tempo e é interessante, mas como entretenimento de diversão talvez as pessoas não irão curtir muito, até por que esse não é seu principal objetivo.

O Relatório (The Report, EUA, 2019)

Direção: Scott Z. Burns
Roteiro: Scott Z. Burns
Elenco: Adam Driver, Corey Stoll, Evander Duck Jr., Jon Hamm, Linda Powell, Annette Bening
Gênero: Biografia, Drama, História
Duração: 120 min.