Muito antes do cinema, a literatura já era apaixonada por criar futuros distópicos, pós-apocalípticos e caóticos que submetiam a raça humana (ou que havia sobrevivido dela) a situações degradantes, mascaradas com a promessa de um futuro promissor. Desde Admirável Mundo Novo até 1984, diversos romances conquistaram os corações de seu público e, pouco tempo depois, invadiram as telonas com obras-primas da esfera do entretenimento – uma delas, Metrópolis, é inclusive referenciada por diversos autores e diretores da contemporaneidade.

Nos últimos anos, a esfera cinematográfica foi invadida por uma quantidade absurda de adaptações de romances jovem-adultos que partiam de uma premissa similar e, enquanto alguns alcançavam sucesso em entregar uma mensagem competente e reflexiva (como Jogos Vorazes), outros se rendiam a metáforas que se engasgavam com o próprio vazio (como Divergente). Levando em conta a gritante oscilação de tal gênero, a cineasta Alice Waddington resolveu se propor a reinventar essas narrativas, abrindo espaço para um hibridismo interessante com sua estreia em longa-metragem, Paradise Hills. Entretanto, o promissor resultado, na verdade, se respalda em uma trama monótona, sem coerência ou coesão estrutural que vale a pena mais por suas competentes escolhas artísticas que pelo tour-de-force que tenta recriar.

O filme gira em torno de uma jovem rebelde chamada Uma (Emma Roberts), que acorda em uma misteriosa sala e, após encontrar uma brecha para escapar, descobre que está “presa” na ilha-titular, uma espécie de reformatório para que jovens ricas aprendam valores tradicionalistas e patriarcais e se transformem em damas da alta sociedade e deixem para trás suas condenáveis personalidades. O lugar é comandado pela Duquesa (Milla Jovovich), uma solene mulher que pode se provar mais austera do que sua compostura impecável pretende revelar – mas o paradisíaco refúgio esconde segredos terríveis que podem manter Uma e suas recém-feitas amigas prisioneiras por mais tempo do que desejam.

A iteração, no caso, funciona como reflexo da sociedade machista em que vivemos e como as mulheres são submetidas, consciente ou inconscientemente, a mudanças absurdas para agradarem tanto a seus maridos quanto a famílias que se importam muito mais com o status no qual se inserem do que qualquer outra coisa. Uma, no caso, se recusa a casar com o pretendente que sua mãe lhe escolheu e agora se vê sob os cuidados da Condessa – mas ela não é a única a estar lá contra sua vontade: temos também Chloe (Danielle Macdonald), que deve ser transformada em uma espécie de pageant queen, e Yu (Awkwafina), cujos avós não querem uma neta impetuosa vivendo sob o mesmo teto que eles. E, para completar, temos a famosa cantora Amarna (Eiza González), recuperando-se em meio a um onírico santuário depois de uma crise identitária.

Desde o princípio, Waddington, que também fica responsável pelo argumento do filme, mostra sua preferência por transcrever os temas explorados por Aldous Huxley ainda em 1931, incluindo a estratificação social e a condenação das camadas menos abastadas a todo e qualquer tipo de serviço – mesmo que isso seja revelado apenas no terceiro ato. Os toques feministas eventualmente culminam em uma maturação essencial para a protagonista, apesar de sua complexidade ser ofuscada pelas limitações performáticas de Roberts (que vale muito de personagens interpretados em American Horror Story e até mesmo Pânico 4). Aliás, todo o escopo carrega consigo uma profundidade muito maior do que poderíamos esperar, mas falha em arquitetar vias sólidas o suficiente para alcançar o que almeja.

A estética visual de Hills é aplaudível do começo ao fim: a diretora escolhe a dedo a equipe imagética e opta por uma paleta de cores cuja impressão pastel funciona como ilusão para o jogo entre tons mais brutos que se isolam numa atemporalidade contraditória bastante bem-vinda – e isso é refletido também nos icônicos figurinos que recuperam as glórias de uma Inglaterra vitoriana perdida no tempo, em um futuro não tão distante que não consegue se desvencilhar do passado. Todavia, com exceção desse cuidadoso requinte, todo o restante mergulha em impossíveis clichês que se reúnem sob um mesmo teto apenas para dar alguma breve sensação de mobilidade à trama.

Waddington perde a mão após um promissor ato introdutório, misturando sem quaisquer escrúpulos comédia, drama e romance, além de introduzir coadjuvantes desnecessários para a narrativa em si. E, por causa dessas adições dispensáveis, as subtramas praticamente não existem, exigindo que Roberts carregue todo o peso dramático e crie uma força-motriz para se igualar ao que Jovovich ao menos deveria representar; a verdade é que nenhuma delas (e nem mesmo as já conhecidas habilidades das outras atrizes) parece disposta o suficiente para sair da zona de conforto, transformando o que poderia ser uma bela alegoria contemporânea em um vórtice datado e sem propósito algum.

As coisas pioram ainda mais quando o roteiro enfia inesperadamente um twist sobrenatural e desenvolve explicações ridículas, para não dizer risíveis. Não é surpresa que, no final das contas, Paradise Hills não funcione em quase nenhum aspecto e tente mascarar seus múltiplos e amadores erros com visuais de tirar o fôlego – porém, não o bastante para deixá-lo aprazível o suficiente.

Paradise Hills (Idem – EUA, 2019)

Direção: Alice Waddington
Roteiro: Brian DeLeeuw, Nacho Vigalondo, Alice Waddington
Elenco: Eiza González, Awkwafina, Milla Jovovich, Emma Roberts, Danielle Macdonald
Duração: 95 min.