Crítica | Supergirl é aventura pelo museu de grandes novidades da DC
Supergirl compartilha com o primo famoso uma tendência a apanhar demais ao longo do filme e, muitas vezes, parecer coadjuvante do próprio enredo.

Pense na seguinte cena: o(a) protagonista entra num bar ruidoso, sujo e repleto de personagens típicos do universo da ficção científica fantasiosa: monstrengos humanoides, criaturas híbridas e suas variações. A maioria é mal-encarada. Um musicista ou cantor está fazendo seu show, enquanto os frequentadores bebem, jogam e se divertem. Em algum momento, provavelmente haverá um desentendimento e o(a) protagonista terá uma luta com alguns desses mal-encarados cósmicos. Não seria surpresa se a confusão envolvesse Han Solo a qualquer instante.
Você certamente já viu essa ambientação de “podrão espacial” em tantos filmes que fica até difícil reconhecer qual é qual. Talvez a lembrança mais antiga seja da saga Star Wars original, mas a ideia parece tão atrativa para os roteiristas do gênero que muitos não se sentem constrangidos em simplesmente repeti-la mais uma vez, apostando na renovação da audiência (mas também em sua dificuldade de reconhecer referências). Supergirl, o filme dirigido por Craig Gillespie (de Eu, Tonya e Dinheiro Fácil) que chega agora aos cinemas, é mais uma dessas produções algo genéricas de super-herói que não evita o lugar-comum e parece saída da imensa copiadora de filmes na qual se converteu boa parte da produção hollywoodiana contemporânea.
Se podemos apontar um “culpado” para o fato de que este filme é tão semelhante (no todo ou nas partes) a tantos outros, poderíamos arriscar o nome de James Gunn. Ele parece diretamente responsável por ir minando, produção após produção, a distinção histórica entre Marvel e DC, tirando da segunda a propensão do “olhar para a realidade” que sempre caracterizou tão bem alguns de seus principais ícones (e filmes).
A régua com que medíamos os produtos audiovisuais envolvendo o Superman, Batman, Coringa e Watchmen sempre pareceu um pouco mais alta que aquela aplicada ao escapismo “colorido” e infantilizado do universo Marvel. Filmes como os dois originais de Richard Donner (e Richard Lester) sobre o herói de Krypton, a trilogia de Christopher Nolan, o palhaço neurótico inesquecível de Joaquin Phoenix e mesmo a versão sombria e visualmente original de Zach Snyder para os Watchmen mantinham o universo DC num patamar mais adulto de dramaturgia no gênero, sendo que seu ponto forte – repito – sempre foi a confrontação entre o mundo conhecido e possibilidades muito específicas de acontecimentos que mantinham a verossimilhança em seu limite.
Se pensarmos nesses filmes com personagens clássicos da DC, um tipo de situação-chave se repete: são geralmente conflitos dramáticos delimitados por tempo e espaço, uma série de hipóteses com poucas variáveis – E se os super-heróis convivessem com pessoas comuns? E se um bilionário resolvesse combater o crime por conta própria? E se um alienígena chegasse à Terra com superpoderes? E se um gênio do crime capturasse o mal-estar de uma geração e iniciasse uma revolução? E assim por diante.
Com a chegada de Gunn a DC – e este Supergirl é mais um capítulo dessa crise de identidade – os filmes foram se tornando mais genericamente adaptados ao gosto mediano de fantasia e ficção científica escapista, fazendo com que os voos de imaginação dos roteiristas levem os próprios filmes a becos sem saída, labirintos de repetições que, acima de tudo, reiteram a concepção do cineasta James Gunn de espetáculo – uma variação constante da rotina “monstrengos de tamanhos variados trocam farpas e pontapés”, ficando em segundo plano o que poderia ser uma caracterização específica de cada universo: nesse sentido, Superman (e, por extensão, sua prima Supergirl) sofrem mais que Batman, por exemplo, que quase necessariamente obriga os realizadores a um olhar mais atento (e terreno) à temática adulta de “crime” e “corrupção”. Não por acaso, Gunn parece ter menos poder sobre o destino desta franquia do que das outras.
Em Supergirl, haveria dois caminhos esperados. O primeiro – e possivelmente o mais interessante, mas que iria contrariar aquela “noção Gunn” de espetáculo – seria mostrar a personagem em sua interação na Terra neste seu longa-metragem solo. A segunda era fazer deste filme uma “corruptela“ cinematográfica de outros filmes – notadamente, da franquia Guardiões da Galáxia, do próprio Gunn, com seus monstrinhos, vigaristas cósmicos, canções pop e piscadelas para a audiência.
Assistir a este Supergirl é como ser constantemente esbofeteado na tela por cenas e caracterizações que já vimos anteriormente em filmes como Homens de Preto, por exemplo. O personagem de Jason Momoa é uma versão sideral do Motoqueiro Fantasma. Os bichinhos simpáticos remetem a Mandaloriano, a Disney e a tantas outras atrações já conhecidas e identificáveis.
O que sobra do filme é uma edição dinâmica e consistente, que resulta numa metragem satisfatória e que não cansa o espectador (embora os flashbacks explicativos quebrem o ritmo e demonstrem uma certa falta de material para a trama principal, a qual dificilmente seguraria o longa inteiro por conta própria).
Milly Alcock é uma boa atriz, mas padece do mesmo problema de outras colegas de sua geração, como Zendaya e Zazie Beetz: o tempo todo parece que alguém mexeu em seu armário, e a fisionomia enfezada não confere à performance muitas nuances. O Lobo (Jason Momoa) é um penduricalho, porque seu personagem é totalmente secundário e até mesmo dispensável em boa parte do tempo. Sobra Krypto, o cãozinho encantador de CGI, mas até ele passa a maior parte do tempo prostrado.
A trama leva a Supergirl a ajudar Ruthye (a ótima novata Eve Ridley) numa jornada de vingança pela morte de sua família, enquanto a primeira tenta salvar Krypto de um envenenamento. O enredo se dispersa um pouco entre idas e vindas de vilões como Krem (Matthias Schoenaerts) e intervenções fora do tempo do Superman (David Corenswet), o que só serve para nos recordar da fraqueza constrangedora da nova versão que já teve atores muito carismáticos como Christopher Reeve e Henry Cavill lhe dando vida.
Supergirl compartilha com o primo famoso uma tendência a apanhar demais ao longo do filme e, muitas vezes, parecer coadjuvante do próprio enredo. A eventual aparição do Superman só nos lembra o quanto a nova versão do personagem e a escolha do ator são genéricas e desprovidas de personalidade.
Milly não passa despercebida porque, como se disse, ela está sempre tão emburrada que espalha pela cena essa vibração incômoda (mas, talvez por isso mesmo, atraente para uma atriz de cinema). Nada que salve ou comprometa um filme realizado com alguma competência (pelo menos uma sequência de ação é lindamente coreografada e filmada pelo diretor, e lembra os melhores momentos de Snyder no passado da DC), formatado para uma audiência mais interessada em “franquias” que em “filmes” e que tem sua sensibilidade progressivamente embotada por engraçadinhos espalhafatosos como James Gunn.