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Crítica | Taboo – 1×02: Episode #1.2

O primeiro capítulo nos deu o tom. O segundo deu nome ao jogo.

Taboo é a nova série da BBC One aos moldes de diversos filmes, histórias e shows contemporâneos ou clássicos que são ambientados na atemporal cidade de Londres do início do século XIX. Sabemos que a Inglaterra sempre foi palco de conflitos inefáveis e que desafiaram a compreensão do homem sobre si mesmo – mas aqui as coisas são levadas a outro nível: o profano contra a santidade; a razão contra a loucura.

James Delaney (Tom Hardy) continua a exaltar os ânimos de todos com seu inesperado retorno da África e seu súbito controle sobre o principal estratagema da Coroa britânica para frear a rebeldia norte-americana e seu crescente confronto com a Companhia das Índias Ocidentais ao decidir não entregar as terras que lhe pertencem por herança no oeste estadunidense. Ao que tudo indica, o protagonista arquiteta quietamente um plano de vingança para aqueles que trouxeram o nome de sua família à ruína – cuja culminação mostrou-se no envenenamento de seu pai e em seu exílio espiritual em outro continente

As subtramas, um pouco ofuscadas pelo lento ritmo do episódio piloto, começam a ganhar sobriedade e a ficar mais delineadas. Stuart Strange mostra-se como o principal antagonista de Delaney, como presidente da Companhia e um frustrado comerciante que recusa a se deixar vencer pela profanidade de um “fantasma”. O personagem, interpretado com nuances perceptíveis e bem-dispostas por Jonathan Pryce, traz um vício de linguagem interessante e que pode ser aprofundado ao longo da série: Strange, em todos os momentos que deseja aliviar seu ódio pela perda eminente ou deixar as engrenagens de seu cérebro trabalharem, tamborila incessantemente a bengala que carrega – talvez um modo de reafirmar sua persona autoritária e a imutabilidade das próprias coisas, ameaçada pela irreverência de James.

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Obviamente os conflitos não se restringiram apenas ao plano material: como sabemos, as questões raciais naquela época sempre estiveram à beira do colapso, e o próprio idealismo de superioridade eurocêntrica encontra uma brecha para permear os diálogos entre personagens. Delaney passou anos vivendo entre tribos africanas e, ao que tudo indica, sua personalidade volátil e sombria é resultado do choque entre culturas tão distintas. Sua volta causa furor, principalmente por ser considerado impuro e indigno de herdar uma fortuna tão grande quanto a deixada por seu pai. E além disso, a clara traição que demonstra frente à Coroa emerge como um catalisador de valores que desde aquela época já encontravam saturação entre as pessoas.

Taboo é uma série anacrônica. Neste episódio, em especial, suas referências buscam filmes clássicos ambientados numa época completamente diferente – incluindo, de forma honorária, temas-base de O Poderoso Chefão. Manter os amigos por perto e os inimigos mais perto ainda poderia ter sido uma saída interessante para o nosso protagonista, mas sua morbidade em cena clama por outra coisa: aqueles que juram lhe causar algum mal devem se curvar. Devem saber que serão subjugados por uma força maior, por algo que não conhecem. As sequências em que tal epifania catártica ocorre quando James é seguido por uma jovem menina, a qual descobrimos ser filha de Helga (Franka Potente), dona de um dos mais requisitados bordéis de Londres. Sua fidelidade à família Delaney é notável: a criança o leva para o navio de um de seus inimigos mais promissores – conhecido, por ora, como o homem do dente de prata -, permitindo-o queimá-lo sem deixar rastros.

Mais uma vez, Krystoff Nyholm assume o papel da direção e, em conjunto com Mark Patten, responsável pela fotografia principal, apostam ainda mais no tom místico da série. Tudo é pincelado com uma névoa muito presente, mas sem cair nos excessos da estética expressionista: o personagem de Hardy é constantemente embebido pela escuridão – não plena, e sim parcial -, fazendo o público confundi-lo como parte do próprio cenário. Afinal, ele realmente está lá? Ou seria apenas uma representação espiritual dos medos mais profundos de seus “agressores”? Como ele bem declara em determinado momento, cada pérfido e frívolo habitante daquela maldita cidade já vendeu sua alma por uma causa maior. Por que o sobrenatural da série não poderia ser uma das grandes sacadas dos próximos episódios?

Somos levados através de uma loucura quase lúcida que acompanha o herói: nem ele mesmo consegue acreditar piamente nos acontecimentos ao seu redor. A criança, por exemplo, desaparece do nada após seu retorno para a embarcação. O público, seguindo os passos de James, começa a duvidar do que pode ser real ou não.

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Outros personagens também dão as caras pela primeira vez: Michael Kelly (House of Cards) encarna o médico americano Edgar Dumbarton, cuja primeira impressão não é uma das melhores, principalmente pelo fato de ameaçar Delaney por sua insubordinação patriota. Mark Gatiss (Doctor Who) também aparece como o príncipe regente George IV, num semblante físico obeso e cheio de problemas dermatológicos que o tornam irreconhecível; sua personalidade supérflua entra em constante choque identitário com outros ao seu redor, adicionando mais camadas narrativas a uma história já complexa, mas sem deixá-la indigesta. Stephen Graham é o arquétipo do guardião e do informante, dando vida a Atticus, um dos nomes mais contraditórios na série, por significar “clássico, elegante” em latim, e ser materializado por um homem beirando a repugnância com uma tatuagem de rosa-dos-ventos em sua cabeça calva.

O foco, entretanto, é roubado pela breve, porém marcante presença de Jessie Buckley, intérprete da ex-esposa de Horace, pai de James, cuja voz suave e trejeitos retirados diretamente de Brona Croft (personagem da série Penny Dreadful) representam a salvação para a Companhia das Índias e um possível obstáculo para o protagonista.

Max Richter, trabalhando mais uma vez na trilha sonora, resguarda alguns tons animalescos do episódio piloto, mas adiciona traços do clássico e do nobre com violinos e violoncelos muito bem colocados, além de criar um pano de fundo angustiante com a 6ª de Beethoven para o confronto de James e a primeira de suas nêmeses.

O segundo capítulo de Taboo entrega exatamente o que promete, acertando o tom levemente monótono de seu predecessor e cuidando para responder algumas perguntas sobre os personagens e sobre seus respectivos e obscuros passados sem entregar as respostas “de bandeja”. A série já traz uma ciência de sua extensão – e pode vir a se tornar uma das surpresas de 2017.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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