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Crítica | The Boys in the Band – Verborrágico e Necessário

Como parte de seu acordo multimilionário com a Netflix, Ryan Murphy permanece como um dos realizadores mais prolíficos da atualidade – e, sem sombra de dúvida, de todos os tempos. Em colaboração com a plataforma de streaming, Murphy já criou, dirigiu, roteirizou ou produziu obras como The Politician e Ratched – que se tornaram queridinhas do público pouco depois de estrearem oficialmente – e, agora, ele resolveu se afastar do front de combate e supervisionar um ambicioso projeto que envolveria uma das maiores e mais importantes obras de todos os tempos: a versão fílmica da aclamada peça The Boys in the Band.

Escrita por Matt Crowley e estreando na off-Broadway em 1968 antes de migrar para os palcos oficiais nada menos que cinquenta anos mais tarde pelas mãos de Joe Mantello, a narrativa chocou o público da época ao trazer para os holofotes questões consideradas como tabu àquela época, principalmente sobre seu puro e pungente retrato da comunidade LGBTQ+ no cenário nova-iorquino. Mais do que isso, a peça serviu de inspiração para as rebeliões de Stonewall um ano mais tarde, além de servir de base para o movimento pelos direitos dos homossexuais. Segundo o especialista Peter Filchia, “depois que os gays assistiram a The Boys in the Band, não se contentariam mais em serem enxergados como patéticos e se recusariam a continuar a serem perseguidos” – e a construção de seus personagens, delineada de modo complexo e arrebatador, serviu para escancarar o forte preconceito e os rótulos incabíveis que heterossexuais davam a qualquer um que fugisse do “padrão” de uma sociedade patriarcal, católica e tradicionalista.

Levando para casa o Tony Award de Melhor Revival de uma Peça no ano passado, Murphy tinha uma tarefa gigantesca e complicada: afinal, ele deveria honrar o gigantesco legado da obra original, fugindo de datações e miméticas possibilidades que a transformassem em algo superficial – como suas mais recentes investidas se provaram. Esteticamente, o realizador não nos deixaria na mão e, de modo sagaz, entrou em contato com Mantello e abriu espaço para que ele mesmo se apropriasse na cadeira de direção. É por isso que esse filme veio como uma bela surpresa e uma interessante adição ao catálogo da plataforma de streaming, permanecendo clássico e contemporâneo ao mesmo que não se deixa levar ao melodramático ou à comédia canastrona – tudo isso liderado por um estelar elenco e uma atuação arrepiante de Jim Parsons.

A premissa é bastante simples e nutre de semelhanças com outras adaptações teatrais, como Deus da Carnificina: enquanto é bem provável que Yasmina Reza tenha pegado alguns elementos de The Boys in the Band para construir seu drama familiar, a releitura fílmica é centrada em um grupo de gays que se reúne para comemorar o aniversário de um deles. Parsons, tomando as rédeas desse enredo como o passivo-agressivo Michael, é o anfitrião e deseja que tudo saia da forma planejada, dentro de um restrito horário e conduzida dentro de um opressor universo. Michael, na verdade, é uma das mais complexas construções de todos os tempos, por mostrar ao mundo que se aceita como homossexual, mas esconder seu desprezo e sua frustração por ter sido deixado de lado pela família e por “não ser igual aos outros”.

Em outras palavras, Michael insurge como uma força quase espectral cujo objetivo é diminuir os outros e colocá-los à sua mercê – travestindo-se com solilóquios de ajuda e de compreensão que não passam de críticas sarcásticas e lancinantes. O único que consegue enfrentá-lo é Harold (Zachary Quinto), o aniversariante, cuja presença descomunal já premedita um feroz combate entre duas personas exatamente idênticas. De fato, o centro gravitacional do longa é destinado a esses personagens, que equilibram e desequilibram uma corda bamba do modo como querem – e tratando as outras pessoas como marionetes inconscientes. Nesse meio-tempo, temos também a presença exuberante de Emory (Robin de Jesús reprisando seu ovacionado papel), a taciturna personalidade de Donald (Matt Bomer) e o conflituoso e amargo casal formado por Hank (Tuc Watkins) e Larry (Andrew Rannels). Mas nada poderia premeditar a chegada de um conturbado elemento à festa: Alan (Brian Hutchison).

Veja, é necessário que o contexto histórico da obra seja levado em consideração, ainda mais pela trama ser focada em homens gays no final dos anos 1960 – ou seja, mais de uma década antes da epidemia de AIDS/HIV que erroneamente seria associada à comunidade queer. Naquele tempo, homossexuais eram tratados como aberração e como um afronte à ideologia cristã que defendia os “valores familiares” heterossexuais – e Alan é a representação máxima da arbitrariedade a que me refiro. Ao chegar em Nova York, ele liga para Michael, seu antigo amigo de faculdade, e parece estar desesperado para lhe contar algo, mas eventualmente não consegue. Quando ele aparece sem ser convidado na festa, ele lida com uma realidade que foge da bolha que construiu, forçado a respeitar aqueles que condena por estar em minoria – algo que principalmente nos dias de hoje é de suma importância.

O brilhante elenco é guiado pela arquitetura claustrofóbica que ganha força pouco depois de uma desnecessária e oscilante introdução – e quem melhor do que o próprio autor da peça para ficar responsável por reeditar os diálogos em um sedutor frenesi de 120 minutos? Crowley combina a estética intimista da controvérsia distensão-contração do espectro do apartamento com uma verborragia fugaz que expande-se em metáforas duras (e um tanto quanto difíceis de serem compreendidas, a priori) e discursos sobre o prazer e sobre o medo humanos. Aliás, até mesmo a exteriorização de sentimentos e do próprio cenário é recuado para uma espécie de diligência à la Entre Quatro Paredes – mas aqui, o inferno somos nós e são eles, na mesma medida.

The Boys in the Band consegue capturar a essência da peça original com demasiada inteligência e, com exceção de um ou outro deslize, o filme é uma ótima joia que explora temáticas importantes e que merecem ter palanque na sociedade contemporânea. Mais do que isso, Murphy, Mantello, Crowley e o elenco on point mantém seu legado vivo no que podemos apenas compreender como um dos melhores longas de um ano sem qualquer precedência.

A Babá: Rainha da Morte (The Babysitter: Killer Queen – Estados Unidos, 2020)

Direção: Joe Mantello
Roteiro: Matt Crowley
Elenco: Jim Parsons, Zachary Quinto, Matt Bomer, Andrew Rannells, Charlie Carver, Robin de Jesús, Brian Hutchison, Michael Benjamin, Tuc Watkins
Duração: 122 min.

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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