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Crítica | The Mist – 1ª Temporada

Stephen King, desde o início da década de 1980, sempre foi um dos autores de maior destaque no cenário audiovisual, emergindo como um dos principais focos de adaptações cinematográficas e televisivas com suas incríveis histórias de terror, suspense, drama e fantasia. Temos, por exemplo, icônicas releituras que se tornaram clássicos da história hollywoodiana, como It – A Coisa, O Iluminado e Carrie – A Estranha, bem como longas-metragens que ultrapassaram as barreiras do gore e do macabro para entregarem uma perspectiva muito mais metafórica e sócio-antropológica, como O Nevoeiro, dirigido por Frank Darabont em 2007.

Entretanto, temos rendições um tanto quanto duvidáveis das obras do mestre do terror contemporâneo, principalmente quando falamos em suas adaptações para as telinhas. Em 2011, Brian K. Vaughan ofereceu seus melhores esforços para honrar o legado de Sob a Redoma, mas acabou criando um macrocosmos cheio de furos e de acontecimentos incabíveis, misturados a uma pretensão narrativa que a tornou uma das grandes decepções. Infelizmente, Christian Torpe conseguiu repetir o feito ao desenvolver uma nova roupagem para Nevoeiro em parceria com a emissora Spike, entregando o que podemos chamar de uma das mais monótonas séries dos últimos anos.

Não se pode dizer que o episódio piloto de The Mist é totalmente desperdiçado e não permite que o público anseie pelos próximos eventos e viradas – muito pelo contrário: nos primeiros minutos, percebemos que a ideia aqui é ir além da claustrofobia presente tanto nas páginas do material original quanto no filme de Darabont, os quais se passam estritamente em um confinamento forçado num supermercado, o qual se transforma em uma versão minimalista de uma sociedade em decadência. Os personagens agora se multiplicam, assim como os cenários – então é mais que óbvio que passemos a conhecer uma backstory, por mais ínfima possível, das relações que os unem.

A ambiência principal é a pequena cidade de Bridgeville, no estado americano do Maine, a qual é envolvida por uma misteriosa e crescente neblina que aparece do nada e traz consigo criaturas aterrorizantes e um sentimento de angústia que coloca a sanidade de todos em xeque. Porém, esse fator sobrenatural não alcança sua plenitude até os minutos finais do episódio piloto, preferindo muito mais discorrer sobre outros temas contemporâneos antes de colocar a virada catártica na monotonia do condado. Assuntos como homofobia, aceitação, renegação, divórcio, santidade e tolerância religiosa são constantes, apesar de não convergirem a todo momento: temos por exemplo a relação conturbada de Kevin (Morgan Spector) e seu filho Adrian (Russell Posner) sobre as questões de gênero e como os laços familiares podem ser levados ao extremo da resiliência quando algo balança as estruturas tradicionalistas – em outras palavras, Adrian admite sua homossexualidade para o pai e é rechaçado por seu estilo de vida.

O nevoeiro é um símbolo semiótico que indica a cegueira, e as criaturas extradimensionais, definitivamente deixadas em segundo plano, entram como catalisadores bíblicos de salvação ou de condenação. Dessa forma, o terror só deixaria de existir quando as relações humanas, passivas de erros, encontrassem uma evolução digna de “segunda chance” – ou ao menos, esse era o principal ideal arquitetado por King e por Darabont nas obras predecessoras. A relação pai-filho da série é a que passa pelas mais profundas transformações, mas mesmo assim não traz todo o brilho que poderia, por um simples motivo: a monotonia cênica.

As coisas parecem se mover em uma velocidade tão ínfima quanto uma sequência slow-motion – talvez até menor. Ao longo de dez episódios, tudo o que os personagens fazem é fugir. Correr. Proteger-se da névoa, sem ao menos ter em mente possíveis perguntas sobre sua origem, decorrência ou como puderem se salvar. Em determinas sequências, a explicação se restringe ao poder divino que enviou seus sentinelas do apocalipse para iniciar o julgamento final – buscando inspiração na obra literária, visto que, em momentos de crise, o ser humano deixa seu lado mais racional escondido e prioriza a renovação de sua fé para a eternidade. É claro que não podemos tirar crédito das pontualidades do roteiro e da condução dos fatos, incluindo a crescente rixa ideológica entre o Padre Romanov (Dan Butler) e a dissidente Nathalie Raven (Frances Conroy) que culmina na aparição nem um pouco premeditada dos Quatro Cavaleiros do Apocalipse para matar o pastor – renegando o falso moralismo pregado por membros da Igreja Católica e escancarando a heresia desenfreada.

O potencial de The Mist existe. Está lá, na frente de todos. Mas é essa insuportável pontualidade que insiste em carregar os personagens, seus objetivos, seus medos e seus arcos perscrutados de furos e pontas soltas. A majestuosidade dá lugar à efemeridade simbólica e, para completar, estetizada com uma montagem sem qualquer fluxo imagético – aumentando o afastamento do público em relação à série.

Quando não estamos aguardando ansiosamente pelas ameaças sobrenaturais que povoam a névoa, nos vemos frente a frente com conflitos internos em cada um dos cenários principais. Temos a igreja e a o hospital, como supracitados, e também o shopping – funcionando mais como um campo de batalha que qualquer outra coisa. Aqui, seguimos de forma compulsória e sem qualquer saída o grupo liderado por Eve (Alyssa Sutherland), esposa de Kevin, e Alex (Gus Birney), a outra filha do casal, as quais foram separadas pelo assustador nevoeiro. Entretanto, além de monótonos, os acontecimentos dentro desse estabelecimento não seguem uma lógica própria, fincando-se muito à inverossimilhança e às frases de efeito para fornecer o mínimo de complexidade a personagens que, eventualmente, tornam-se vazios.

É claro que os pontos altos existem – e o principal deles vem na figura contraditória da renegada Mia (Danica Curcic), uma viciada em drogas que esconde segredos obscuros, revelados à medida em que enfrenta seus medos e é possuída pelos ataques psicossomáticos da névoa. Além da performance de Curcic se sobressair diversas vezes nas sequências de ação e de drama, roubando o foco dos outros protagonistas, seu arco é o mais bem delineado e o mais agradável de toda a temporada, ainda que isso não seja o suficiente para apagar deslizes imperdoáveis.

The Mist é o que podemos chamar de desperdício de potencial, apostando suas fichas em apenas uma pequena parcela do gênero que ousa explorar e afastando-se de forma inexplicável de sua fonte original. Em detrimento até mesmo de uma narrativa que tentasse escapar das convencionalidades, a série é um amontoado de investidas presunçosas e brutas – fazendo pouco jus ao seu criador original.

The Mist – 1ª Temporada (Idem, 2017 – EUA)

Criado por: Christian Torpe, baseado livremente na obra de Stephen King
Direção: Guy Ferland, Nick Murphy, Adam Bernstein, David Boyd, James Hawes, Richard Laxton, Matthew Penn, T.J. Scott
Roteiro: Christian Torpe, Amanda Segel, Andrew Wilder, Peter Biegen, Noah Griffith, Peter Macmanus, Daniel Stewart, Daniel Talbott
Elenco: Morgan Spector, Alyssa Sutherland, Gus Birney, Danica Curcic, Okezie Morro, Luke Cosgrove, Frances Conroy, Darren Pettie, Russell Posner
Emissora: Spike (EUA); Netflix (Brasil)
Gênero: Suspense, Drama
Duração: 45 minutos

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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