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Crítica | Warrior Nun: 1ª Temporada – Um Escapismo que Funciona

Warrior Nun talvez seja uma das produções mais bizarras e inesperadasU da Netflix – e esse senso proprioceptivo de absurdez é sua principal força-motriz. Tendo estreado recentemente na plataforma de streaming, a série foi criada por Simon Barry (Hamlet, The Art of War) a partir dos aclamados quadrinhos homônimos assinado por Ben Dunn e gira em torno de um grupo de freiras guerreiras pertencentes a uma ordem secreta e que lutam contra as forças malignas do submundo que insistem em emergir à Terra e criar caos onde outrora existia paz. E, no geral, a adaptação para as telinhas é bastante competente naquilo que pretende entregar, mergulhando fundo em personagens complexos – ainda que se valha demais dos convencionalismos da ação sobrenatural para ganhar seus créditos.

Apesar do trôpego início e de alguns capítulos que se forçam a encontrar algum dinamismo narrativo e cênico, o show cria uma mitologia própria conforme une certas vertentes religiosas da cultura mundial – centrando-se, é claro, no universo católico e nas percepções ortodoxas do Paraíso e do Inferno. No topo dessa “cadeia alimentar” de mulheres versadas nas mais diversas artes bélicas, existe a Irmã Shannon (Melina Matthews), portadora da auréola de um anjo e líder do clã de freiras. Entretanto, depois de uma emboscada, Shannon acaba morrendo e, numa tentativa desesperada de impedir que o halo caísse em mãos erradas, a missão de guiá-las na eterna luta contra o mal recai sobre Ava (Alba Baptista), uma jovem que se matou e que foi trazida de volta à vida em contato com a auréola.

É aqui que a atmosfera finalmente começa a ser construída: quando em vida, Ava havia sofrido um acidente de carro e, além de ter ficado tetraplégica, perdeu a família inteira e foi enviada para um orfanato, tendo ficado sob os cuidados da dura e burocrática Irmã Frances (Frances Tomelty). Recuperando os movimentos e grata (e assustada) por uma segunda chance (mesmo não acreditando em quaisquer seres superiores e etéreos), ela foge do convento em que seu corpo inerte se encontrava e começa suas andanças pelo mundo para aproveitar tudo aquilo que lhe foi negado no passado – mas as coisas não são tão simples assim. As outras Irmãs, preocupadas com o paradeiro do halo, saem em busca de Ava em uma caçada que pode determinar o futuro da humanidade – e o propósito da milenar Ordem da Espada Cruciforme.

Conforme os capítulos se seguem, a rebelde protagonista descobre que a auréola incrustada em suas costas lhe concedeu habilidade sobre-humanas – como regeneração, força e velocidade, e também a capacidade de enxergar espíritos do além-mundo e arautos infernais. É essa última aptidão que a transforma na chave dessa batalha e o motivo dela representar tamanha importância até para as personagens mais céticas – como a calculista Madre Superiora (Sylvia De Fanti), responsável pelo treinamento e pela proteção de suas pupilas, e de Lilith (Lorena Andrea), uma ressentida Irmã a quem o halo estava predestinado desde sempre.

Apesar do time extenso de roteiristas, cuja problemática é refletida em algumas pontas soltas e certas oscilações rítmicas, o enredo é muito bem estruturado e tem como principal aliado suas personagens. A praticidade em construí-las de forma tão diferentes entre si é um apelo ao saudosismo mítico de histórias clássicas, ainda mais quando pensamos nas clássicas inclinações ao monomito e às adversidades que o herói enfrenta. Temos a resiliência ácida de Shotgun Mary (Toya Turner) como um dos emblemáticos escapes cômicos; temos Beatrice (Kristina Tonteri-Young) como a sagaz, inteligente e quase invencível adição ao time de Irmãs, mostrando-se fria até o ponto em que não consegue mais esconder suas emoções e se mostra vulnerável; e temos até mesmo a entrada de Tristan Ulloa como o Padre Vincent, um traumatizado homem com um passado obscuro que transformou seus pecados em um caminho de redenção para o Senhor.

Num espectro menos cauteloso e mais exagerado, por assim dizer, os diálogos entre os protagonistas e coadjuvantes se desenrolam de modo a oscilar das incursões eruditas do fin-du-siécle até gírias contemporâneas que incrementam as urgentes personalidades – como a de Ava, que usa o humor como forma de se proteger daqueles que querem destruí-la ou vê-la falhar. Entretanto, o conflito promovido pelo time criativo eventualmente esbarra em deslizes amadores e uma perda do naturalismo que, numa ambientação assim, seria uma adição bem mais aproveitável. A série também peca nos efeitos especiais e na introdução de certas reviravoltas apressadas e recuadas para o season finale, buscando explicar tudo em tempo recorde, causar algum tipo de reação no público e arquitetar um cliffhanger para a segunda temporada.

Warrior Nun cria um prospecto recheado de potencial que, pontualmente, não usa tudo o que poderia usar. De qualquer forma, as divertidas cenas de ação e a química estupenda de seu elenco – em justaposição a um cenário de tirar o fôlego e que arranca dos personagens certas inflexões intimistas e interessante que podem ser exploradas nos futuros anos – fazem da série uma aventura divertida e que merece ser conferida em tempos tão complicados como o que vivemos.

Warrior Nun (Idem, EUA – 2020)

Criado por: Simon Barry
Elenco: Alba Baptista, Toya Turner, Thekla Reuten, Lorena Andrea, Kristina Tonteri-Young, Tristan Ulloa, Olivia Delcán, Joaquim de Almeida
Emissora: Netflix
Episódios: 10
Gênero: Ação, Fantasia
Duração: 50 min. aproximadamente

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Publicado por Thiago Nolla

Thiago Nolla faz um pouco de tudo: é ator, escritor, dançarino e faz audiovisual por ter uma paixão indescritível pela arte. É um inveterado fã de contos de fadas e histórias de suspense e tem como maiores inspirações a estética expressionista de Fritz Lang e a narrativa dinâmica de Aaron Sorkin. Um de seus maiores sonhos é interpretar o Gênio da Lâmpada de Aladdin no musical da Broadway.

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