O casamento é, desde muito tempo, considerado como a instituição mais sagrada da sociedade urbana. Desde sempre (é quase impossível encontrar algum parâmetro histórico, inclusive), essa prática se estabeleceu como tradição intocável, utilizando sua secularidade para atravessar gerações – ao mesmo tempo que se reinventa e se remodela conforme a própria comunidade se moderniza. Logo, não é surpresa que esse tema também seja foco em diversas obras da indústria do entretenimento, mas o que aconteceu quando, na verdade, essa mesma instituição é a causa de diversos problemas e pode até levar certas pessoas a cometer loucuras inimagináveis?

Bom, é a partir dessa premissa que Marc Cherry, na semana passada, nos apresentou a sua nova dramédia familiar intitulada Why Women Kill. E a série, trazendo um elenco de ponta em três recortes temporais diferentes, pode ainda não ter explorado por completo seu claro potencial, mas sem dúvida nos manteve presos às telas do começo ao fim e até mesmo abriu espaço para algumas risadas tímidas. Agora, as tramas principais começam a se desenrolar com mais detalhes e, de forma interessante, já prenunciam exatamente o que vai acontecer com um divertido prólogo à la Desperate Housewives (e podem ter certeza de que essas referências irão aparecer mais vezes nessa produção).

No novo capítulo, somos convidados a observar os corolários do momento em que Beth Ann (Ginnifer Goodwin) descobre que seu marido a está traindo como uma garçonete; entretanto, como já é de praxe para a já conhecida mente criativa de Cherry, nem tudo é o que parece ser e Beth decide se aproximar da amante com uma nova identidade, talvez para se vingar de seu marido, talvez para convencê-la de que o que ela faz está totalmente errado. Na verdade, Goodwin ascende a uma sólida performance com diálogos inteligentes e algumas viradas inesperadas, ainda que se valha de certos maneirismos melodramáticos já vistos em outros papéis: de fato, ela re-canaliza nosso foco para sua intimidade com o marido e já deixa bem claro que fará de tudo para recuperar o controle de sua vida, preconizando um possível assassinato.

Quase trinta anos depois, é a vez de Lucy Liu voltar a reencarnar a socialite Simone Grave, que também lida com infidelidade e, deixando bem claro para seu esposo que não o quer na mesma casa com ela, enfrenta chantagens que podem destruir sua vida e sua reputação. Afinal, é um fato dizer que os anos 1980 foram marcados por uma crescente repulsa da homossexualidade – e isso não ficaria de fora aqui. Porém, diferente do que imaginávamos, Simone não se vale de argumentos preconceituosos, e sim não aceita o fato de Karl (Jack Davenport) tê-la traído, descobrindo até mesmo que o caso em questão começou há muito tempo. É por isso que, contrariando o que Beth Ann faria, ela se lança em um affair com um garoto mais novo – o filho de sua “melhor amiga”, Tommy (Leo Howard), prometendo a si mesma que não vai deixar nada lhe abalar.

Já nos dias atuais, é a vez de Eli (Reid Scott) colocar as cartas na mesa e perceber o início de uma traição desconstruída que se restringe, para falar a verdade, à confiança. Afinal, ele e sua mulher, Taylor (Kirby Howell-Baptiste), têm um casamento aberto que nunca se encarcerou às amarras da monogamia, mas se ergueu na base da verdade: logo, nenhum dos dois poderia guardar segredos. Todavia, a “amante” do casal, Jade (Alexandria Daddario) deixa escapar que ela e Taylor já se encontravam há mais de seis meses e, após se envolverem em um ménage à trois, Eli percebe que pode estar na beira de uma ruína marital, ainda que se negue a si mesmo que aquilo está acontecendo e que tudo não passa de um engano.

Ao unir novamente essas três narrativas em um mesmo pano de fundo, Cherry prova aos seus fãs, ao lado do roteirista Austin Guzman, que as aparências enganam e que é sempre bom levar seu público a um caminho apenas para revelar perigosas segundas intenções. A direção, por sua vez, torna algumas sequências insossas demais para conduzirem ou acrescentarem elementos de importância significativa à trama principal, mas é competente o bastante para recuperar seu ritmo não tão tarde demais para nos fisgar a atenção. Apesar dos deslizes estéticos, aqui percebemos uma ousadia imagética que brinca com a atemporalidade cotidiana dos protagonistas, seja de formas sutis (como a edição), seja com bastante clareza (um breve narrador que dá o tema da iteração durante o prólogo).

Se a série deixa a cautela de lado em certos aspectos, certamente encontra território mais que fértil para explorar seus preceitos artísticos. Já no segundo episódio, percebemos que a vibrante paleta de cores sofre uma mínima perda tonal, aumentando a atmosfera melancólica que irá reger certas sub-narrativas dos protagonistas. Por enquanto, sabemos que Beth Ann e Robert (Sam Jaeger) perderam uma filha e, por mais novelesco e formulaico que isso pareça, deixou um vazio em seus laços como casal que pode explicar atitudes condenáveis e imperdoáveis.

Why Women Kill perde um pouco de seu brilho em relação ao episódio de estreia, mas permanece estruturada o bastante para convencer a audiência de que algo grande está saindo das sombras. Ainda assim, seu elenco irreverente continua sendo a melhor coisa para se aproveitar e, enquanto se manterem nesse nível, terão nossa completa devoção.

Why Women Kill  – 01×02: I’d Like to Kill Ya, But I Just Washed my Hair (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Marc Cherry
Direção: Marc Webb
Roteiro: Austin Guzman
Elenco: Ginnifer Goodwin, Lucy Liu, Kirby Howell-Baptiste, Alexandra Dadario, Sam Jaeger, Sadie Calvano, Jack Davenport, Reid Scott, Leo Howard
Emissora: CBS
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 49 minutos