Os dramas de Marc Cherry, ainda que não tão extensos quanto poderíamos imaginar, sempre partem de um contraditório princípio de “quem está certo e quem está errado” que, na verdade, é a força-motriz que transforma suas obras em deliciosas e convincente aventuras familiares. Até mesmo as saídas mais convencionais se transformam em distorções narrativas incríveis (no sentido etimológico da palavra), sem perder o brilho tragicômico que nos faz desejar por cada vez mais – e o que reflete a capacidade inegável do showrunner em cativar seu público. E é claro que o mesmo aconteceria com Why Women Kill, sua nova série que, apesar de ter dado uma recuada na semana passada, voltou com força descomunal em o que podemos classificar como o melhor episódio apresentado.

Seguindo os passos das iterações predecessoras, o terceiro capítulo abre com um breve prólogo comandado por um trio de dançarinos de tango que denuncia com sutileza perceptível e encantadora o novo tema das três tramas entrelaçadas: o ciúme.

Já era de se esperar que essa patologia emocional aparecesse em algum momento, mas não pensávamos que seria tão cedo. Mas é com maestria que Cherry, aliado à roteirista de Randi Mayhem Singer, cria uma controversa jornada coming-of-age que busca por conclusões metalinguísticas ao mesmo tempo que abre espaço para um futuro incerto para cada um dos protagonistas. É também nesse fértil território que o lado artístico da produção fala mais alto, combinando-se através de estéticas tão distintas quanto complementares entre si, talvez com mais força do que presenciamos. Mas, sem sombra de dúvida, é a atuação que ganha um escopo diferenciado ao apresentar novas camadas para nossas heroínas ao avesso, para as verdadeiras personagens principais que caminham para uma purgação catártica episódio após episódio.

Desde o princípio, a produção vem premeditando que os supostos assassinatos serão por crimes passionais – mas isso não passa de uma aceitação apressada provinda de espectadores acostumados ao extremo com contos de tragédia desse tipo. Na verdade, o ciúme aqui discorrido mergulha em uma exploração muito mais profunda que não se restringe a relacionamentos românticos ou traições: temos, por exemplo, Beth Ann (Ginnifer Goodwin) que não resolve se vingar do fato de seu marido estar tendo um caso, mas manter a compostura, aproximar-se da amante, April (Sadie Calvano), e tentar fazê-la desistir do affair. E é de forma invejável que Singer transforma o que poderia ser uma fórmula novelesca qualquer em um delicioso amadurecimento: April, na verdade, busca por liberdade e por uma carreira de cantora, despertando em Beth Ann a necessidade de voltar aos seus hobbies e perseguir seus sonhos – independente das convenções impostas pela patriarcal e familiar sociedade da década de 1950.

A atmosfera emancipatória é transgredida quando viajamos quase trinta anos depois para o conturbado cotidiano de Simone (Lucy Liu), que se vê presa entre duas vidas completamente diferentes: em um, é forçada a continuar num casamento destruído pelas mentiras de seu esposo, enquanto ela mesma cultiva um caso com o jovem Tommy (Leo Howard). Apesar de conseguir conciliar, as tensões aumentam quando ela e o marido vão juntos para uma cerimônia beneficente à la cultura “latina” (no sentido mais branco possível) e são servidos por Tommy. O rapaz, eventualmente, explode em uma crise de ciúmes e leva Simone a lhe dizer que, independente do que houve, ela não tem capacidade de odiá-lo: Karl (Jack Davenport) ainda é o único homem que sabe como lidar com suas extravagâncias – e não podemos deixar de dizer que Davenport e Liu carregam uma química invejável entre si.

Já nos dias atuais, a situação entre Eli (Reid Scott) e Taylor (Kirby Howell-Baptiste) encontra um novo obstáculo: ao que tudo indica, Jade (Alexandra Daddario), a jovem e belíssima moça que praticamente se muda para a casa dos dois, é a única base que impede que Taylor exploda em um necessidade incontrolável de se libertar de todas as suas obrigações. Não se enganem, ela ainda ama Eli, mas sente como se Jade fosse o único elemento fácil de sua vida – algo que explica da forma mais condescendente possível seu ataque ciumento quando a amante anuncia que vai viajar para Veneza com outros amigos e deixá-los. Porém, a superficialidade à prima vista é apenas uma máscara que esconde tramitações complexas que oscilam desde inevitáveis ciclos de afastamento, confiança e sacrifício.

À medida que nos aproximamos do ato final, a condução promovida por David Grossman atinge um ápice sensorial incrível que dialoga com o prólogo supracitado: aqui, o diretor coreografa uma batalha por autoafirmação que, sem sombra de dúvida, será explorada nas próximas semanas. Beth Ann, Simone e Taylor, mesmo que exauridas pelos demônios interiores e pelas submissões (conscientes ou inconscientes) a que se prestam em prol de algo maior e benéfico, começam a recusar esse comodismo – e então numa dança que culminará num irremissível e irreverente caos.

Why Women Kill  – 01×03: I Killed Everyone He Did, But Backwards and in High Heels (Idem, 2019 – EUA)

Criado por: Marc Cherry
Direção: David Grossman
Roteiro: Randi Mayhem Singer
Elenco: Ginnifer Goodwin, Lucy Liu, Kirby Howell-Baptiste, Alexandra Dadario, Sam Jaeger, Sadie Calvano, Jack Davenport, Reid Scott, Leo Howard, Sadie Calvano
Emissora: CBS
Gênero: Drama, Comédia
Duração: 42 minutos