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Seria a realidade mais poderosa que a ficção? Não é à toa que o Drama seja o gênero favorito de muita gente, afinal ele trabalha sentimentos humanos muito fortes, além de exibir uma crua janela da realidade que permite uma relação muito forte capaz de causar poderosas catarses no espectador. Mesmo que hoje possa parecer um subgênero batido, os dramas de guerra, especialmente da Segunda Guerra, trouxeram histórias absolutamente memoráveis.

Variando entre blockbusters pomposos repletos de efeitos visuais e alto valor de produção até dramas mais intimistas baseados somente na criação implacável de atmosfera. Entretanto, também temos os filmes desconhecidos – o que é um verdadeiro pecado, já que eles se provam sempre muito bons. No caso, temos Adeus, Meninos, filme do cineasta francês da Nouvelle Vague, Louis Malle, já com muitos anos de carreira que permitiram um nítido amadurecer como artista.

As Duas Colaborações

Em questão de minutos, é possível suspeitar que a narrativa de Adeus, Meninos seja baseada em fatos. Louis Malle traz a história do jovem Julien Quentin, um garoto enviado ao campo para estudar em um convento católico enquanto Paris e toda a França sofrem com a ocupação nazista em 1944. Ao chegar para mais um ano letivo repleto de restrições, além da grande saudade que sente da mãe, Julien praticamente acredita que terá a mesma rotina sem graça de sempre. Porém, a chegada de um novo aluno, Jean Bonnet, mudará sua perspectiva monótona na rotina escolar, ainda mais que o garoto reserva grandes e perigosos mistérios.

A cruel ironia é que essa suspeita do espectador realmente está correta, pois a história é vinda diretamente da vida do cineasta. É justamente por isso que vemos uma acuidade escrita fascinante em criar personagens juvenis. Malle não faz questão que seu longa seja somente uma retratação histórica da bizarra situação que os franceses se encontraram ao viver sob ocupação nazista chegando também a exibir os “colaboradores” que delatavam judeus e estrangeiros para a Gestapo.

O foco verdadeiro é mostrar a rotina das crianças entre as diversas desavenças, brincadeiras e nutrição do crescente companheirismo. Como a narrativa é situada em um convento, Malle também traz a alusão a rigidez do lugar que tenta controlar os jovens de todo modo, apesar da explosão de hormonal que os pré-adolescentes passam.

Logo, Malle traz com muita sutileza esse contraste do ensino e da prática da fé com os desejos irrefreáveis dos garotos pelo proibido, pelas mulheres que quase nunca tem contato além da visita semanal de uma bela professora de piano. Há essa constante mistura típica da idade entre o desejo e o ser criança como os colecionismos diversos, traquinagens e resquícios da primeira infância pouco bem-vindos – como a curiosa incontinência urinária que o protagonista sofre.

Porém, se há luz nos dias tremendamente frios que os jovens encaram, também há trevas. Seguindo as regras sutis que preservam a atmosfera realista do filme, Malle indica uma situação mais precária na França com escassez de alimentos, falta de emprego e a presença sempre ameaçadora dos alemães que sabem que tem o povo francês totalmente refém de suas vontades. É justamente nesse cenário tão pessimista, estéril, frio e sem cor que o cineasta apresenta as poucas fagulhas de esperança de amor ao próximo.

Com dicas bem espalhadas pelo roteiro, temos toda a construção indireta do personagem de Bonnet que explicam os motivos do menino ser tão melancólico. Seu papel é vital para a mensagem da obra, apesar da reviravolta envolvendo seu mistério ser bastante previsível. Entrentanto, como Malle desenvolve a amizade dos dois com muito alento em passagens simples, incluindo uma envolvendo o burlar de um toque de recolher, sentimos o impacto daquela tragédia e da inevitável separação.

Aliás, nesse jogo frequente de forças que resistem à escuridão opressora do nazismo, Malle cria uma das sequências mais belas de toda sua carreira. Em uma noite de rara diversão, os monges reúnem os meninos para lhes oferecerem um conforto especial: uma sessão de cinema. O filme traz uma das divertidas aventuras de Charlie Chaplin provocando risos em todos na sala em uma atmosfera de verdadeira felicidade – Malle faz planos próximos de diversas faces para mostrar esse ar descontraído.

Porém, basta o filme mostrar a Estátua da Liberdade e alguns relances dos Estados Unidos que os franceses se entristecem, se sentindo tão reféns amarrados quanto o próprio protagonista. Nessa grande impotência, a nação abdica do orgulho e clama pela inestimável ajuda americana para se livrar dos nazistas.

Bem-vindo, Malle

Mesmo que seja cinematograficamente bastante frio e repleto de olhar realista, raramente se aventurando em composições mais elaboradas ou de uma estética que arrisque alguma poesia maior, Adeus, Meninos é um dos melhores filmes de toda a carreira da Malle que exorciza os demônios de uma infância traumatizada através da arte. Às vezes, não é preciso milhares de tiroteios e sofrimento melodramático para criar uma grande história sobre a Segunda Guerra.

Malle conseguiu criar uma peça fundamental sobre um período conturbado da História da França, trazendo à luz diversos eventos complicados como a situação dos colaboradores, além de exibir um panorama sobre a pré-adolescência em um raro olhar sensível capaz de extrair o melhor de seu elenco mirim para uma peça tão pesada. Em um filme que mistura com perfeição a alegria da amizade em contraste ao horror da guerra, temos uma obra que merece sim ser conferida por todos.

Adeus, Meninos (Au revoir les enfants, França, Itália, Alemanha Ocidental – 1987)

Direção: Louis Malle
Roteiro: Louis Malle
Elenco: Gaspard Manesse, Raphael Fetjö, Francine Racette, François Berléand, Irène Jacob
Gênero: Drama, Guerra
Duração: 104 minutos.

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