Bill Condon é um diretor apaixonado pelo místico mundo dos musicais e, principalmente, por narrativas fantasiosas e que nos levem para além do mundo como o conhecemos. Apesar de ter comandado os dois últimos capítulos da franquia Crepúsculo – que, de fato, se configuram como algumas das piores peças fílmicas do século -, ele nos entregou o apaixonante Dreamgirls: Em Busca de Um Sonho e o competente A Bela e a Fera que, se não buscou nada além do que a animação original arquitetou, ao menos nos cativou por seus visuais e por sua narcótica nostalgia. Agora, Condon retorna à cadeira de direção com uma trama que foge de sua zona de conforto e que, por mais que falhe em vários aspectos, ao menos mostra um novo lado que ainda não conhecíamos.

Em A Grande Mentira, o cineasta recruta dois dos maiores nomes da história da indústria performativa e os convida para um jogo de caça e caçador com imenso potencial: aqui, Ian McKellen e Helen Mirren constroem uma relação incrivelmente profunda ao darem vida a Roy Courtnay e Betty McLeish, duas pessoas muito diferentes entre si que se conhecem através de um aplicativo de relacionamento on-line. Entretanto, segredos obscuros se escondem no metódico cotidiano de Roy e, à medida que a suposta rom-com da terceira idade vai se desenrolando, percebemos que ele é, na verdade, um golpista que se aproveita de absolutamente qualquer um.

Roy se apresenta numa vida dupla: é notável o modo como ele se aproxima de Betty e, passo a passo, a recém-erguida amizade transforma-se em um laço muito mais belo e puro (ou ao menos é o que ele pretende nos vender). Esse inebriante romance é fruto das habilidades aplaudíveis de McKellen e Mirren, que explodem em uma incrível química cênica que se estende até os chocantes e conclusivos momentos. Mesmo com alguns fracos diálogos e um enredo que perde o ritmo em diversas situações, a dupla protagonista carrega nas costas o peso dramático, as inteligentes sacadas e os intrincados clímaces que, infelizmente, caminham para um decepcionante finale.

Se conhecemos a estética convencional de Condon, a falta de singularidade ao menos tem um espaço considerável dentro desse longa-metragem. O jogo de cena tem uma ou outra investida “fora da caixinha”, contribuindo para uma quase identidade que se volta para as fórmulas estruturais de qualquer drama britânico dos últimos dez anos. Ainda que as sequências de tensão existam, elas são traduzidas em uma justaposição que oscila entre uma espécie de grau zero da catarse cinematográfica e um mergulho de cabeça em reviravoltas inesperadas.

À medida que Roy se aproxima de Betty, começa a atrair a desconfiança de um inseguro neto, Stephen (Russell Tovey), que tenta proteger sua avó dos imaginários perigos do mundo, como ela deixa bem claro na transição do segundo para o terceiro ato. Mas isso não impede que Betty comece a se entregar para Roy que, dentro de seu escopo estelionatário, passa a desenvolver uma primitiva sensação amorosa – principalmente depois que ambos foram abandonados por suas famílias ou observaram, impotentes, seus pais, filhos e irmãos passarem desta para a melhor. Por mais que tenha a chance de uma redenção, Roy opta por retomar seu golpe, que envolve rouba todas as finanças de Betty e desaparecer.

O que ele não imaginava é que a proteção exagerada de Stephen viria a expor um segredo sobre seu passado: o velho e amável senhor é um veterano de guerra que sobreviveu a um ataque de um dos nazistas reminiscentes da Segunda Guerra Mundial e, desde então, trocou de identidade com seu colega morto. Dessa forma, ele conseguiu fugir da Alemanha e abrir um novo capítulo na Inglaterra, tentando esquecer os pecados que cometeu. Mas não se enganem; afinal, a trama fica ainda mais complexa depois que essas revelações vem à tona – e é justamente aí que o roteiro assinado por Jeffrey Hatcher perde o rumo por completo.

Hatcher é conhecido por seus trabalhos em A Duquesa e Sr. Sherlock Holmes, cujas revitalizações das clássicas histórias ganharam um patamar considerável quando lançados. Logo, era de se imaginar que ele conseguisse dramatizar o romance assinado por Nicholas Searle com cautela – o que não é o caso: na verdade, temos a impressão de que o próprio Searle se valeu de uma constante intangibilidade para ganhar nossa atenção, optando por criar conflitantes delineações narrativas que, apesar de incríveis, são previsíveis do começo ao fim. Ora, era de se esperar que Betty não fosse apenas uma ingênua mulher, e nossas suspeitas se confirmam quando até mesmo a atuação de Mirren transparece uma obviedade autoexplicativa no ato final.

Recuperando elementos de outros filmes de suspense, Roy percebe tarde demais que caiu dentro de um golpe. Porém, o twist é explicado de modo apressado demais, buscando um frenético ritmo que também é transposto para uma “batalha final”, beirando a canastrice cinematográfica. Betty, na verdade, conhecia Roy desde criança, tendo sido estuprada por ele quando ambos eram adolescentes. Para além disso, ele foi responsável pela morte do pai, da mãe e pela pobreza extrema que viveu até se tornar uma adulta, embebendo-se num desejo de vingar que se concretizou seis décadas mais tarde. Basicamente, um deus ex machina que não faz sentido algum.

A Grande Mentira vale a pena pela pompa com a qual McKellen e Mirren trabalham, em atuações incríveis e que refletem uma carreira pautada em rendições artísticas impecáveis. No mais, a história falha em pontos cruciais, incluindo o momento em que as pontas soltas se alinham – jogando fora um incrível potencial.

A Grande Mentira (The Good Liar – EUA, 2019)

Direção: Bill Condon
Roteiro: Jeffrey Hatcher, baseado no romance de Nicholas Searle
Elenco: Helen Mirren, Ian McKellen, Russell Tovey, Jim Carter, Mark Lewis Jones, Laurie Davidson, Phil Dunster, Lucian Msamati
Duração: 109 min.