Crítica | A Ilha Esquecida oferece ao público infantil roupagem modernizada para folclore filipino
A maneira que A Ilha Esquecida escolhe para enfrentar o primeiro desafio é estabelecer um ritmo quase alucinante
![]()
A Ilha Esquecida é uma aposta alta da DreamWorks que leva às telas um universo pouco conhecido do público ocidental pelas mãos da dupla Joel Crawford e Januel P. Mercado (a mesma de Gato de Botas 2: O Último Pedido). O desenho animado mistura uma premissa parecida com a da franquia Se Beber Não Case com o tipo de dinâmica de ação do sucesso Guerreiras do K-Pop, equilibrando diferentes técnicas de animação estilizada e clássicos da música dos anos 1990, como INXS e Simple Minds.
Na trama, Jo e Raissa são duas pré-adolescentes filipinas desajustadas (cada uma a seu modo) que constroem uma amizade sólida ao longo do tempo que, entretanto, fica ameaçada quando o destino das duas parece escolher caminhos opostos. Jo é encrenqueira e solitária, vinda de um ambiente familiar instável, e não consegue enxergar um futuro mais promissor no horizonte. Raissa por sua vez é uma típica estudante oriental bem-comportada cujo projeto pessoal (e dos pais) é ingressar em alguma prestigiosa universidade norte-americana. Na véspera da despedida entre elas, surge a possibilidade de uma jornada mitológica ao mundo místico de Nakali, onde Jo e Raissa tomarão contato com uma realidade sobrenatural entre lendas típicas da religiosidade tradicional das Filipinas. As amigas precisam lidar com a memória (e ausência dela) para retornar à sua realidade e fazer escolhas que determinarão o futuro da própria amizade.
O desenho animado tem pelo menos dois desafios significativos – e é onde ele se perde. O primeiro deles é apresentar à audiência uma lista grande de personagens, costumes e crendices típicas do país, num intervalo de tempo relativamente curto e numa modalidade que seja compreensível (e divertida) para o público infantil. O segundo é fazer as provocações culturais mais amplas e menos conectadas especificamente à cultura local e que se relacionam muito mais com uma “agenda” internacional que mira diversidade e “desconstrução” num formato que caiba na atração infantil.
A maneira que A Ilha Esquecida escolhe para enfrentar o primeiro desafio é estabelecer um ritmo quase alucinante, que na verdade mascara o problema sem lidar com ele de fato: são tantos estímulos visuais e dramatúrgicos jogados na cara do espectador que este sequer chega a ficar em dúvida sobre o que está acontecendo porque rapidamente outro evento de “cor local” se sobrepõe ao anterior. O resultado é quase um estupor trapaceado, uma abordagem que se agrava quando lembramos a média etária do público.
O segundo desafio, por sua vez, tampouco é resolvido de forma satisfatória. O roteiro faz insinuações tão espalhafatosas que dificilmente passariam despercebidas pelas crianças, as quais por outro lado o mesmo roteiro não aprofunda nem desenvolve. Então, essa camada de significado do desenho tem a consistência do “rap” que uma das personagens cantarola em determinado momento. Uma boa parte do tempo, Jo é agressiva e opressiva com Raissa, mas o roteiro finge não estar ciente disso. O episódio com o cabelo da segunda é particularmente revelador. Em outras circunstâncias, um evento que poderia facilmente ser compreendido como “bullying” vira uma piada inocente na dramaturgia superficial praticada pelo enredo. Sobra para os coitados dos pais tentar traduzir o que filme quer dizer com tudo aquilo.
O que resta em A Ilha Esquecida é a exuberância técnica e uma direção de arte opulente, exagerada, carnavalesca, que provoca o olhar dos mais velhos, cansando – talvez – as crianças (salvo engano, o verdadeiro público da produção). Mas seria injusto dizer que o visual do filme e todo o universo que ele propõe não é provocativo e interessante, ou mesmo ignorar o esmero com que ele se debruça – de forma atabalhoada, é verdade – sobre toda uma cultura nem tão conhecida do público ocidental. Ademais, é louvável que os grandes estúdios deem abertura a uma cultura periférica em um produto popular como este, colocando à disposição o arsenal quase interminável de ferramentas técnicas e artísticas a um olhar regional que, do contrário, teria menos espaço e alcance no mercado distribuidor.
Como, via de regra, quem escolhe qual “filme infantil” as crianças assistirão no cinema são seus parentes ou responsáveis, a escolha está entre apostar ou não em um produto complexo, de imaginário algo conturbado, que provoca perguntas mas não oferece tempo para respostas e certamente exigirá dos pais um tempo maior que a própria projeção para lidar com as dúvidas que o enredo joga para o ar e os pequenos carregarão no caminho de volta para casa.