Quando a Pixar resolveu lançar Divertida Mente, ela teve uma ideia maravilhosa. Afinal, ciência explica muita coisa, mas nossa criatividade consegue justamente pegar essas noções e transformá-las em narrativas lúdicas e cheias de fantasia. A originalidade é um dos fatores que trazem qualidade à uma história como essa. Por isso que trabalhos como Emoji: O Filme, nem que tentem muito, conseguem chegar ao patamar dessas animações.

Mostrar o universo por trás de algo presente no nosso dia-a-dia e relacionado as nossas emoções não é muito novo, mas pode ser reaproveitado sim. Porém, não é porque nossa geração é viciada em suas personas online e na comunicação com emojis e figurinhas que o filme consegue estabelecer uma conexão conosco. Muito pelo contrário, o filme repele e parece que a animação da Sony Pictures tenta demais. Divertida Mente e até Detona Ralph, por exemplo, fazem isso de uma maneira muito mais cativante. Eles possuem personagens e premissas próprias, enquanto Emoji se aproveita de algo já existente e bem disseminado na cultura digital para construir uma fundação rasa demais.

A HISTÓRIA

Emoji conta a história de Gene (T.J. Miller), filho de dois emojis caracterizados pela expressão de entediados. Eles e todos os outros emojis moram em Textopolis, uma cidade digital dentro do celular de Alex, um adolescente. Encontramos Gene animado para seu primeiro dia de trabalho – mas ele não deveria estar animado. Acontece que o emoji não consegue manter a expressão de tédio que deveria ter herdado de seus pais, variando o tempo todo e, eventualmente, causando um acidente quando Alex (Jake T. Austin) tenta mandar uma mensagem para uma garota da escola. Isso faz com que Gene, que já não era lá muito respeitado pela comunidade, se torne um excluído. Literalmente – inútil em Textopolis, ele será perseguido por bots até que estes consigam deletá-lo permanentemente.

É então que começa a verdadeira jornada, com Hi-5 (James Corden) – um emoji de “toca aqui” que deseja voltar a ser popular – resgatando Gene e ambos procurando um hacker que possa consertá-lo. Quando encontram Jailbreak (Anna Faris), a hacker, eles precisam então ir até o Dropbox – o sonho da emoji é viver na nuvem – e transitam por diversos apps do telefone, se embananando no Candy Crush, dançando em Just Dance e surfando nas ondas sonoras do Spotify, em propagandas bem explícitas.

RUIM, MAS BEM-INTENCIONADO

Com um emoji de donut aqui, os macaquinhos acolá e o fantasma assustando colegas, e abertura praticamente grita “ei, olhe aqui, todos os emojis que você ama usar, isso é tão divertido!!!!!!!”. Ainda se suas piadas causassem algum efeito, mas nem isso.

Ao início do filme, o clássico emoji de cocô (Patrick Stewart) e seu filho cocôzinho saem de uma cabine do banheiro. O menor olha para o pai e pergunta se eles devem lavar as mãos – em seguida, ambos saem dando risada. Até dei um sorrisinho, mas porque tentava ver a maior parte da história pelo olhar da minha sobrinha pequena, que coincidentemente está na fase de achar “cocô”, “xixi” e “meleca” palavras muito engraçadas.

A questão é que emoji também se distancia do humor dessa criança mais nova que só usa o celular enquanto na supervisão da família, principalmente pelos emojis estarem no telefone de um adolescente. Concluí, então, que o filme pode sim ser engraçado, de um jeito bem bobinho que poucos gostarão – mas aposto que atingirá algum nicho.

Algumas referências especiais aos adultos, uma tentativa de resgatar a atenção destes para o que se passa nas telas, fazem de Emoji um pouco mais divertido. Acredito que uma das melhores cenas nesse sentido é a reconciliação dos pais de Gene, Mary (Jennifer Coolidge) e Mel (Steven Wright). Ela poderia ser uma das mais repletas de emoção de todo o filme, e é justamente protagonizada pelas carinhas entediadas que não demonstram sentimentos, uma escolha curiosa. Apesar disso, sua montagem é bonita, do momento que Mary entra em uma fotografia do Instagram até quanto encontra Mel. O fim do diálogo talvez não seja compreendido nem pela metade dos espectadores do filme – enquanto os dois caminham para fora da foto, que apresenta a família de Alex em uma viagem à França, Mel evoca Casablanca e diz que “nós sempre teremos Paris”.

O tema implícito da narrativa é interessante. Afinal, Gene é um cara diferente de todos à sua volta, detestado e então perseguido por ser quem é. A princípio, ele tenta e se esforça para se conformar aos padrões, mas não consegue. A premissa é tão atual quanto o uso da tecnologia, cabendo em vários sentidos, do bullying ao preconceito de orientação sexual e gênero. Pena que não foi tão bem explorada pelo roteiro, que apostou mais na ação dos personagens que no aproveitamento do que sentem.

No geral, Emoji: O Filme vai agradar à algumas pessoas – alguns poucos pré-adolescentes, provavelmente, no limbo entre diferentes tipos de humor. Anthony Leondis, o diretor e idealizador da obra, teve intenções boníssimas. Porém ele falha em compreender que um hit como Toy Story – Leondis chegou a dizer que a trilogia era uma inspiração – precisa de mais complexidade, pecando ao tentar demais nos momentos errados. O resultado é uma obra sem nuances, monótona e previsível que não vale a pena ver de novo.

Emoji: O Filme (The Emoji Movie, EUA – 2017)

Direção: Anthony Leondis
Roteiro: Anthony Leondis, Eric Siegel, Mike White, John Hoffman
Elenco:  T.J. Miller, James Corden, Anna Faris, Maya Rudolph, Steven Wright, Jennifer Coolidge, Patrick Stewart
Gênero: Animação
Duração: 86 min