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Crítica | O Círculo

Quando TED Talks engravida Black Mirror nasce essa bizarrice cinematográfica.

Gabriel Danius
Gabriel Danius Redação
21 de junho de 2017 · 7 min de leitura
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Crítica | O Círculo

Se o filme O Círculo estiver certo em sua profecia sobre o futuro teremos que nos preparar para o caos social/digital que nos espera. Mas antes de entrar em suas teorias vamos voltar um pouco ao passado e falar a respeito de uma outra obra que tem muito a ver com essa produção. Em 1949 era lançado o livro 1984 de George Orwell que abordava, entre os muitos temas, a falta de privacidade e a observação pelo Estado via um instrumento chamado de Teletela. Era uma espécie de televisão/câmera que vigiava toda a população. Foi daí que surgiu o termo “Grande Irmão”.

Em O Círculo,  filme baseada na obra de Dave Eggers, muitos lembrarão do clássico de George Orwell enquanto o assistem. Assim como virá a mente outro fato recente que foi amplamente divulgado por todos veículos de mídia que é o caso Snowden. Edward Snowden foi um ex-funcionário da CIA e que trabalhava para a NSA. Ele tornou público um sistema de vigilância macabro feito pela agência que deveria fazer o contrário. A NSA criou um programa de vigilância chamado PRISM e o usava para vigiar qualquer cidadão nos EUA, claro que tudo muito invasivo, pois poderiam acessar a webcam de qualquer pessoa sem que ela soubesse que estava sendo vista por alguém que tivesse acesso.

E não é de se estranhar que esse tema esteja tão em pauta nas produções americanas. Snowden recentemente foi lançado com a direção de Oliver Stone e Citizenfour ganhou o prêmio Oscar de melhor documentário por mostrar o lado sombrio de um programa que tinha como intuito vigiar possíveis terroristas e acabou sendo usado como forma de espiar pessoas em seu lar ou ambiente de trabalho sem que essas pessoas soubesse do que estava acontecendo.

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Ainda não entendeu a relação de tudo isso com o O Círculo? O filme dirigido por James Ponsoldt (O Maravilhoso Agora) teoriza um futuro assustador e nos mostra como uma empresa privada pode se tornar tão poderosa ao ponto de influenciar o que uma pessoa deve fazer, vestir ou com quem conversar. E isso é um fato que não deve ser ignorado nos dias de hoje. Os dados são a principal fonte de lucro das empresas. Ao instalar um aplicativo no celular, por mais simples que ele seja você aceita que ele tenha acesso, por exemplo, aos seus contatos ou ao seu Facebook e, assim, gera a eles um banco de dados enorme sobre o que você gosta de fazer, onde gosta de ir nos fim de semanas, ou que tipo de esporte curte. Sua rotina inteira na palma da mão para diversas empresas.

O Círculo não é uma obra-de-arte quando o assunto é produção ou narrativa, mas o debate que ele tenta provocar é o mais importante, de certa forma. Essa não é apenas a única coisa que o filme trata, são muitos os temas debatidos nele. Mae (Emma Watson) é uma garota que tem um emprego que não é do seu agrado e não lhe traz atrativos econômicos, nem sociais. Seu pai tem uma doença que precisa de maiores cuidados médicos. Ela sonha em mudar de carreira para ajudá-lo com o tratamento. Até que um dia recebe a chance de sua vida que é fazer uma entrevista na maior empresa de tecnologia do mundo – o lugar repleto de hipsters pós-modernos chamado de O Círculo.

Ela consegue a tão sonhada vaga e passa a trabalhar na empresa de Eamon Bailey (Tom Hanks). A referência para o personagem de de Tom Hanks é clara, o visionário empreendedor Steve Jobs. Tudo lembra sua empresa Apple, desde o logo que aqui é um circulo até o jeito em que as novas tecnologias são anunciadas em um anfiteatro e com transmissão ao vivo para todo o mundo. Suas invenções também são icônicas e estão na cabeça de todos, além de mudar o jeito com que as pessoas se relacionam também influencia o modo como elas devem se portar. Porém, conforme Mae cresce na empresa, acaba tomando decisões e aderindo a invenções cada vez mais megalomaníacas de Bailey que somente estreitam a linha tênue entre público e privado. Isso, gradativamente, destruirá as relações pessoais importantes da protagonista.

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O roteiro de O Círculo traduz perfeitamente o que acontece quando há uma péssima adaptação da escrita de um material original já fraco. A ironia é que tanto o diretor, James Ponsoldt, e o autor do livro Dave Eggers foram os responsáveis pela narrativa que o espectador encontra no filme. Ironicamente, apesar da trama de subversão de identidade e privacidade, o que temos é uma história flácida, bastante arrastada e chata com performances insossas de Emma Watson – sua pior atuação, de longe, e Tom Hanks que aparece de vez em quando com um carisma genérico que qualquer CEO tem em suas apresentações de novos produtos. 

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Os problemas de O Círculo são vistos a olho nu por qualquer espectador, mas o principal deles é sentimento constante de que o filme se trata de um resumão da narrativa do livro. Absolutamente nada consegue ser desenvolvido do modo apropriado: a narrativa, os personagens e os conflitos. Quem sofre duramente com isso é a protagonista Mae, já prejudicada pela atuação tenebrosa de Watson que não consegue expressar as emoções corretas nas cenas, sempre levando o espectador para uma interpretação diferente do que a personagem dela gradativamente se transforma. O roteiro não se preocupa em estabelecer bem essa mudança vital na percepção de mundo da personagem e, muito menos, com suas relações com parentes, amigos e os novos colegas de trabalho.

Para piorar, Ponsoldt costuma fechar cada sequência com algum corte para o preto – isso é, usar fades até escurecer toda a tela pontual o fim de um arco. Em todas as muitas vezes que isso acontece, perpetua-se um sentimento que o texto está se atropelando, pulando fatos importantes que iriam conferir mais credibilidade para as ações da protagonista, já que a obra também é pretensiosa e almeja ser um estudo de personagem. Mas nada disso funciona. Tudo é perdido em meio aos avanços de uma história ruim que mantém sua mensagem em cima do muro a todo momento. É um cinismo exorbitante que não posiciona o filme de modo algum, como se fosse um episódio fraco e confuso de Black Mirror, mas que não possui as boas características do seriado.

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Entrar nesses detalhes, seria entregar boa parte da narrativa, algo que é bastante injusto com o filme e com o leitor. Mas é perfeitamente possível apontar que entre as repetitivas cenas a la conferência TED Talks, reviravoltas previsíveis, personagens caricatos, mensagem cínica e bastante danosa por não tomar partido entre as diversas presepadas ideológicas – ou melhor, pela incredulidade da escolha da narrativa, repetição de temas, conflitos clichês que nunca geram atrito e acabam abandonados assim como outros personagens, O Círculo se torna uma infelicidade cinematográfica. 

Para os mais curiosos, talvez valha a pena conferir por conta da narrativa de ascensão utópica, bastante inocente e juvenil, mas não espere conseguir levar nada disso que verá à sério. Quanto mais você ficar “desconectado” desse filme, melhor será sua experiência. 

Escrito por Gabriel Danius.

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O Círculo (The Circle, EUA, Emirados Árabes Unidos – 2017)

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Direção: James Ponsoldt
Roteiro: James Ponsoldt, Dave Eggers
Elenco: Emma Watson, Tom Hanks, John Boyega, Karen Gillan, Bill Paxton, Ellar Coltrane
Gênero: Ficção Científica, “Distopia”, Drama, Mistério
Duração: 110 minutos.

Tags: #apple #Emma Watson #George Orwell #O Círculo #snowden #Tom Hanks
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Gabriel Danius
Escrito por

Gabriel Danius

Jornalista e cinéfilo de carteirinha amo nas horas vagas ler, jogar e assistir a jogos de futebol. Amo filmes que acrescentem algo de relevante e tragam uma mensagem interessante.

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