Pode parecer que não, mas após assistir à uma bagunça de filme feito o recente Calmaria de Stephen Knight, algumas explicações são mais do que bem vindas, não só sobre porque o filme deu tão errado mas também o que raio o filme quis realmente passar em sua mensagem final. Sobre o que inicialmente aparentava ser um thriller dramático cheio de mistérios e segredos, para revelar ser algo COMPLETAMENTE diferente.

Perfeita ocasião para se questionar se conhecem aquele velho ditado que diz que tudo dentro de um filme está ali por alguma razão? Pois então, ao longo de Calmaria todas as várias e estranhas cenas onde vemos Patrick, o filho de Dill (Matthew McConaughey) no filme focado em jogar o seu videogame de pesca estavam ali por uma razão muito maior do que poderiam imaginar e as revelações malucas do filme começam a ser reveladas.

Gameplay em vida real

Tudo começa logo após Dill finalmente ser convencido por Karen (Anne Hathaway) em seguir com o plano de ambos de assassinar o marido Frank (Jason Clarke), é exatamente onde o filme finalmente revela a sua verdadeira faceta que vinha escondendo até então, através do personagem de Miller (Jeremy Strong) que vinha seguindo o personagem de Dill ao longo de todo o filme. Com o misterioso sujeito dizendo que pode dar à Dill a coisa que ele sempre quis através de um sonar aquático de última geração que pode ajudá-lo a encontrar o grande peixe que ele sempre andou caçando.

Dill suspeita da oferta e a recusa, mas Miller insiste ao tentar o persuadir dizendo que sabe dos planos de Dill para matar Frank. Mas quando Dill ameaça Miller com uma faca, o misterioso sujeito diz que apenas está cumprindo o seu “papel no jogo”, e quando Dill pergunta qual jogo, a grande revelação de Miller é feita, que tudo na ilha de Plymouth faz parte de um jogo de computador que o filho de Dill, Patrick, constantemente joga.

Miller então explica que em Plymonth há vários tipos de jogos, e o que Dill faz parte é exatamente o de pescaria, e ele vem como o estabelecedor de regras do jogo para que Dill continue no seu objetivo principal de pescar o seu cobiçado peixe, algo que os moradores da ilha na manhã seguinte começam à agir para que convençam ele a fazer, e que tecnicamente ele está quebrando as regras do jogo ao fugir do seu objetivo de pescaria ao querer matar Frank.

Mas Dill se martela, convicto do que tem que fazer contra Frank para salvar o seu filho no mundo real, que logo descobrimos estava controlando Dill no jogo o tempo todo. O que explica porquê Karen havia dito antes que quando Dill falava com Patrick, o filho conseguia ouvi-lo. Que estavam conectados nessa bizarra forma entre realidade e a fantasia do jogo

E depois que o jogo novamente impede que Dill cometa o assassinato na manhã seguinte, com Duke (Djimon Hounsou) tendo providenciado que Frank fosse atacado e ter a mão destra quebrada, e novamente com a aparição surpresa do filho de Constance no barco após Karen ter conseguido levar Frank à bordo; Dill rapidamente planeja a morte do homem na forma de um acidente quando o grande peixe novamente volta à morder a isca mas dessa vez Dill entrega a vara a Frank que é rapidamente puxado pelo peixe mar a dentro.

Em simultâneo à isso, Patrick na vida real saca uma faca de sua gaveta e sai para fora do quarto em direção aos gritos de sua mãe sendo agredida por Frank e o mata, com o noticiário a seguir reportando que o jovem foi levado em custódia por assassinato em defesa própria e que logo seria solto, ao mesmo tempo em que é revelado que Dill na vida real havia morrido em combate no Iraque em 2006.

De volta ao jogo, Karen vai embora, mas antes diz à Dill que ele agora pode ter sua chance de viver novamente com o filho. E agora Patrick reformula todo o jogo de Plymouth para que ele e o pai de alguma forma possam conviver juntos para sempre, com o filme terminando com uma Plymouth toda renovada e Patrick e Dill finalmente juntos navegando em direção ao pôr do sol.

O Criador

Se não conseguiram entender tudo até aqui, não vos culpo, todo o conceito da realidade de Dill ser dentro de um jogo é entregue de forma muito confusa, mas é mais simples do que aparenta quando se alça o fio da meada. Repare que Miller durante a crise existencial que sofre antes de seguir em frente com o plano de assassinar Frank, ele pergunta ao protagonista se ele sabe quem é o seu criador, que Dill instintivamente responde ser Patrick.

Então, tudo leva a crer que Patrick, dito no filme ser um jovem gênio de informática, conseguiu criar essa espécie de realidade virtual dentro do jogo como se fosse um GTA versão Ilha paradisíaca, onde seu pai que o jovem tanto sente falta pode habitar. Com a trama do assassinato se iniciando no momento em que Patrick sente a necessidade de salvar a mãe das agressões do padrasto, que logo se refletem com os acontecimentos dentro do jogo. Então a realidade de Dill na verdade é uma criação física e metafórica de tudo que está acontecendo na vida de Patrick, sua fuga daquela realidade opressora em que vive, onde seu pai ainda vive e se importa em ajudar o filho, e que lhe desperta a vontade de agir contra isso ao planejar a morte do padrasto dentro e fora do jogo.

Ao mesmo tempo que Dill parece criar uma vida própria dentro da imaginação do jogo em que o filho inventou para eles conviverem, o que permite a ideia final de Patrick de reformular o jogo onde o principal objetivo de ambos se torne apenas de filho e pai finalmente convivendo juntos em paz.

Interprete tudo isso como uma metafórica fuga da realidade de uma mente jovem, ou uma sutil crítica ao fato de que jogos podem despertar sentimentos e aptidões violentas no jogador, seja qual for, é uma ideia até interessante mas que com certeza merecia um filme muito melhor do que teve.