PlayStation vai deletar 551 filmes comprados por usuários sem oferecer reembolso
A Sony confirmou que vai remover 551 filmes da StudioCanal das bibliotecas dos usuários da PlayStation Store em 1º de setembro de 2026, sem reembolso.
O botão “Comprar” que nunca significou o que parecia
Em algum momento entre 2013 e 2021, milhares de usuários da PlayStation Store clicaram em “Comprar” ao lado de filmes como O Exterminador do Futuro 2, O Silêncio dos Inocentes, Moonlight, Hot Fuzz e centenas de outros títulos distribuídos pela StudioCanal. Pagaram entre R$ 10 e R$ 50 por título. Receberam acesso a esses filmes nas suas contas PlayStation. Acreditaram, com razão, que os haviam comprado.
A Sony comunicou esta semana que em 1º de setembro de 2026, esses 551 títulos serão removidos das bibliotecas de todos os usuários afetados. Sem reembolso. Sem compensação. Sem alternativa.
O que a Sony disse e o que não disse
A mensagem enviada por e-mail aos usuários afetados é direta ao ponto: “A partir de 1º de setembro de 2026, em virtude dos nossos acordos de licenciamento de conteúdo, você não poderá mais assistir a nenhum de seus conteúdos adquiridos anteriormente da StudioCanal, e o conteúdo será removido da sua videoteca.” A palavra “adquiridos” aparece sem ironia. Sem aspas. Como se fosse normal remover algo que alguém comprou.
Até o fechamento desta matéria, a Sony não havia respondido às perguntas do Kotaku sobre reembolso ou compensação. A lista completa dos 551 títulos está publicada no site oficial da PlayStation, sem qualquer indicação de que a empresa considera dever algo a quem pagou por esses filmes.
A letra miúda que ninguém lê
A Sony não está tecnicamente errada. O que os usuários compraram, como está escrito nos termos de serviço que ninguém lê até o dia em que a situação se torna relevante, é uma licença não-exclusiva de acesso ao conteúdo. Não o conteúdo em si. Quando o acordo de licenciamento entre a Sony e a StudioCanal expirou e a Sony optou por não renová-lo, o direito de distribuir esses filmes, inclusive para quem já havia “comprado”, simplesmente deixou de existir.
É a mesma cláusula que está no Steam, na App Store, no Google Play e em praticamente qualquer loja digital do planeta. A diferença entre “comprar” e “licenciar acesso temporário condicionado a contratos comerciais de terceiros” é real, está no contrato e é invisível no momento da compra.
O momento mais inconveniente possível
A decisão da Sony chega numa semana em que a Rockstar confirmou que GTA 6 não terá disco físico, em que varejistas começaram a se recusar a vender a caixa sem disco e em que o debate sobre propriedade digital atingiu o nível de atenção mais alto que teve em anos. A PlayStation apagar 551 filmes das contas dos usuários agora é como jogar combustível numa fogueira que já estava alta.
A iniciativa Stop Killing Games, que surgiu após a Ubisoft encerrar The Crew em 2024 tornando o jogo inacessível para quem havia pago por ele, acumulou mais de um milhão de assinaturas pedindo regulação sobre o que acontece com produtos digitais quando as empresas encerram o suporte. A Comissão Europeia respondeu que não pode propor uma obrigação legal de manter jogos jogáveis após o fim da distribuição comercial. A questão permanece sem resposta legislativa.
O precedente e o que vem depois
Não é a primeira vez que isso acontece em escala. A Microsoft removeu acesso a filmes comprados no Xbox em 2023. A Walmart encerrou sua plataforma de vídeo digital em 2020, movendo os títulos dos usuários para a Vudu, sem garantia de permanência. A Disney removeu filmes comprados da plataforma Movies Anywhere em mercados específicos. Cada vez que acontece, a mesma discussão se repete: você não comprou nada, você alugou com prazo indeterminado.
O catálogo afetado pela remoção da Sony inclui títulos de peso: Exterminador do Futuro 2, Rambo: First Blood, O Veado Caçador, Labirinto do Fauno, Apocalypse Now, O Diário de Bridget Jones, De Pijama Para a Guerra e Confissões de uma Mente Perigosa, entre centenas de outros. Para os usuários que tinham esses filmes na biblioteca, a mensagem prática é simples: até 1º de setembro, assista o que quiser antes que desapareça.