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Review | Horizon Zero Dawn – quando um mundo pós-apocalíptico se torna inesquecível

Horizon Zero Dawn apresenta uma das narrativas de ficção científica mais interessantes que os videogames produziram nos últimos anos

Ayrton Magalhães
Ayrton Magalhães Redação
8 min de leitura

Um mistério que prende do início ao fim.

Poucos jogos conseguiram me prender pela curiosidade da forma que Horizon Zero Dawn fez. Quando comecei a aventura da Aloy, eu não sabia absolutamente nada sobre sua história nem sobre a construção de mundo criada pela Guerrilla Games, e fui surpreendido por um mistério cuidadosamente desenvolvido, capaz de transformar cada nova descoberta em um detalhe instigante que desperta ainda mais vontade de continuar explorando.

A princípio, a premissa parece simples: uma jovem pária busca entender suas origens em um mundo dominado por máquinas que lembram animais e dinossauros. No entanto, a verdadeira força de Horizon não está apenas na jornada da Aloy, mas nas perguntas que o jogo planta desde os primeiros minutos. Quem é Aloy? O que aconteceu com a antiga civilização? Por que aquelas máquinas existem? O roteiro entende que a curiosidade é sua maior arma e utiliza cada resposta para criar novas perguntas.

O mais impressionante é que o jogo consegue fazer com que o passado seja tão interessante quanto o presente. Enquanto Aloy enfrenta tribos rivais e perigos imediatos, existe uma narrativa paralela acontecendo através das ruínas, gravações, hologramas e vestígios deixados por uma humanidade desaparecida. Cada registro encontrado oferece apenas informações suficientes para formular novas teorias, fazendo com que a investigação nunca perca o ritmo.

Conforme a campanha avança, o jogador deixa de investigar apenas a origem da protagonista e passa a tentar compreender como aquele mundo chegou ao estado atual. Quando todas as peças finalmente começam a se encaixar, percebe-se que Horizon construiu um dos mistérios mais bem elaborados dos videogames recentes.

Aloy e uma jornada de autodescoberta

Aloy é uma protagonista extremamente complexa. O jogo evita transformá-la em uma heroína perfeita e constrói sua personalidade a partir da determinação, da inteligência e da constante busca por respostas.

Sua condição de exilada dentro da própria tribo adiciona um peso emocional muito forte à narrativa. Desde criança ela cresce sendo rejeitada, sem compreender o motivo, e sua jornada deixa claro que ela não está apenas tentando salvar o mundo, mas também descobrir quem realmente é e qual é seu lugar nele.

O que mais gostei é que Aloy nunca assume uma postura passiva diante dos acontecimentos. Ela questiona tradições, desafia crenças e enfrenta autoridades sempre que acredita estar diante de uma injustiça. Conforme a trama avança, sua maturidade cresce junto com a do próprio jogador, tornando cada revelação ainda mais impactante.

Um mundo vivo e repleto de culturas únicas

É justamente aqui que Horizon Zero Dawn se diferencia da maioria dos jogos de mundo aberto.

Muitos títulos utilizam seus cenários apenas como pano de fundo para a ação. Aqui, eu realmente senti que o mundo é um personagem por si só. Cada ruína abandonada, cada estrutura tomada pela vegetação e cada vestígio da antiga civilização reforçam constantemente a sensação de que existe uma história muito maior acontecendo por trás daquela realidade.

Outro aspecto que adorei foi a construção das diferentes tribos. Cada povo possui identidade própria, crenças, costumes, estrutura política e uma maneira completamente distinta de enxergar o mundo.

Os Nora, por exemplo, vivem isolados, guiados por uma forte espiritualidade voltada para a natureza. Já os Carja representam uma sociedade mais desenvolvida, marcada por um passado recente de guerras e conflitos internos. Conforme Aloy avança em sua jornada, outras culturas igualmente distintas surgem, cada uma contribuindo para tornar esse universo ainda mais rico.

O jogo faz questão de mostrar como cada tribo interpreta as máquinas, a tecnologia e até mesmo a própria Aloy de maneiras diferentes. Não são apenas NPCs espalhados pelo mapa: são sociedades com lógica própria, tradições, conflitos e histórias que tornam esse universo incrivelmente vivo.

Exploração que recompensa a curiosidade

A exploração não é motivada apenas pelas recompensas materiais, mas pelo desejo genuíno de descobrir a verdade.

Cada nova região apresenta paisagens impressionantes, novas máquinas e informações capazes de aprofundar a compreensão daquele universo. Existe uma sensação constante de descoberta que me acompanhou durante toda a campanha.

Mesmo quando eu não estava avançando na história principal, sentia que estava aprendendo algo novo sobre aquele mundo durante as missões secundárias.

O mundo aberto também merece destaque por encontrar um excelente equilíbrio entre tamanho e densidade de conteúdo. Cada região possui identidade própria, tanto visualmente quanto na fauna mecânica, nas tribos que a habitam e nos perigos que esconde.
Em diversos momentos abandonei a missão principal apenas porque havia uma ruína interessante ali perto ou uma nova máquina que despertava minha curiosidade. Poucos jogos conseguem incentivar a exploração de forma tão natural. A jogabilidade complementa essa experiência de maneira exemplar.

O combate contra as máquinas continua sendo um dos sistemas mais criativos que já experimentei em um jogo de mundo aberto. Cada confronto funciona quase como um quebra-cabeça, exigindo observação, estratégia e preparação.
Cada máquina possui comportamento próprio, pontos vulneráveis específicos e exige abordagens diferentes. Em vez de simplesmente atacar, o jogador precisa analisar fraquezas, utilizar munições elementais, posicionar armadilhas e escolher cuidadosamente o momento certo para agir.

A sensação de derrotar máquinas gigantescas após estudar seus padrões continua sendo extremamente satisfatória.

O que torna esse sistema ainda melhor é a enorme variedade de ferramentas disponíveis. Arcos especializados, estilingues, armadilhas, cabos de contenção, diferentes tipos de flechas e a possibilidade de explorar os componentes das máquinas fazem com que praticamente todo combate possa ser resolvido de várias maneiras.

Além disso, a possibilidade de dominar determinadas máquinas e utilizá-las como montaria, e posteriormente até como aliadas em combate, adiciona uma camada extra de estratégia e variedade.

Progressão constantemente recompensadora

A evolução das habilidades de Aloy também merece destaque.

A árvore de habilidades é bem distribuída entre furtividade, combate à distância, sobrevivência e técnicas de luta, permitindo adaptar completamente o estilo de jogo às preferências do jogador.

Ao mesmo tempo, o sistema de criação de equipamentos incentiva a exploração constante. Muitos recursos só podem ser obtidos desmontando máquinas específicas ou explorando determinadas regiões do mapa.

Essa combinação faz com que cada nova habilidade desbloqueada e cada novo equipamento conquistado tragam uma sensação genuína de evolução, tornando a progressão extremamente recompensadora do início ao fim.

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Personagens que dão vida à jornada

Embora Aloy seja o coração da narrativa, os personagens que cruzam seu caminho tornam essa aventura ainda mais memorável.

Encontramos guerreiros, estudiosos, líderes tribais e pessoas comuns tentando sobreviver em um mundo hostil. Muitos deles possuem motivações próprias e ajudam a expandir ainda mais a construção daquele universo.

Rost merece uma menção especial. Sua relação com Aloy estabelece toda a base emocional da história logo nas primeiras horas, e sua influência continua presente durante praticamente toda a campanha.

Outros personagens importantes, como Erend, Sylens e diversos líderes tribais, também possuem personalidades marcantes e ajudam a enriquecer significativamente a narrativa.

Missões secundárias que enriquecem o universo

Embora o grande mistério da campanha principal seja o principal atrativo da experiência, as missões secundárias desempenham um papel igualmente importante.

Boa parte delas vai muito além de simples tarefas para aumentar a duração do jogo. Muitas expandem histórias pessoais de personagens, apresentam novos conflitos entre tribos e aprofundam aspectos culturais daquele universo.
Em vários momentos senti que essas atividades eram extensões naturais da narrativa principal, reforçando constantemente a sensação de que existe uma vida acontecendo além da jornada da Aloy.

Visualmente, Horizon Zero Dawn continua impressionante mesmo anos após seu lançamento.

A direção de arte consegue criar uma identidade única ao misturar uma natureza exuberante com os vestígios de uma civilização tecnologicamente avançada.

Florestas crescendo sobre estruturas metálicas, cidades em ruínas tomadas pela vegetação e máquinas circulando por paisagens belíssimas criam uma narrativa visual constante, capaz de contar parte da história daquele mundo sem precisar recorrer a diálogos.

Cada região parece cuidadosamente construída, oferecendo cenários que frequentemente convidam o jogador a simplesmente parar por alguns instantes para apreciar a paisagem.

Muito mais do que uma aventura pós-apocalíptica

Mas o que realmente elevou Horizon Zero Dawn para mim foi sua capacidade de transformar informação em emoção.
Conforme os segredos do passado começam a ser revelados, o jogo deixa de ser apenas uma aventura de sobrevivência e passa a discutir temas como inteligência artificial, responsabilidade científica, propósito humano e as consequências das escolhas da própria humanidade.

As respostas entregues pelo roteiro conseguem ser tão impactantes quanto as perguntas apresentadas no início da jornada. Quando tudo finalmente se encaixa, fica evidente que estávamos acompanhando algo muito maior do que uma simples história de origem.

Eu ainda ouso dizer que Horizon Zero Dawn apresenta uma das narrativas de ficção científica mais interessantes que os videogames produziram nos últimos anos.

Este jogo foi uma experiência que me lembrou o quanto uma boa história pode transformar completamente um jogo.
Entrei nessa aventura sem qualquer expectativa e terminei completamente fascinado por sua narrativa, pela construção de mundo, pelo desenvolvimento da Aloy e pela riqueza de seu universo.

O combate é excelente, a exploração desperta curiosidade constantemente, a progressão recompensa o jogador, as tribos possuem identidades marcantes e o mundo aberto consegue ser vasto sem jamais parecer vazio. Poucos jogos conseguem equilibrar narrativa, gameplay, construção de mundo e direção de arte com tanta competência.

Terminei Horizon Zero Dawn com aquela rara sensação de ter vivido algo muito maior do que imaginava quando iniciei a campanha. É uma experiência que permanece na memória muito depois dos créditos finais

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Membro do OpenCritic