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Review | Maneater – Quando Tubarão encontra com Sharknado

É particularmente curioso que os games de ação raramente explorem os maiores predadores do mundo animal, além de nós, humanos, claro. 

Por que nunca ter um jogo que você pode ser um leão? Um gorila gigante? Um guepardo ou um lobo? A resposta é simples: construir um game em torno de uma proposta interessante como essa é extremamente difícil, afinal, como fica a narrativa? Como não deixar a jogabilidade do game viciada e repetitiva?

Mesmo com todas essas questões pertinentes, a Deep Silver e a Tripwire Interactive resolveram testar o conceito com Maneater, game no qual encarnamos um tubarão cabeça-chata cheio de sede de vingança aterrorizando todos no seu caminho. 

Tubarão sem se levar a sério

Acredite, existe narrativa single-player em Maneater o suficiente para justificar as 14 horas que o game possui até sua conclusão. 

Felizmente, existe criatividade na apresentação da história. O game traz um programa no melhor estilo de Caçadores do Pântano e realities do tipo sobre caça e controle de feras. Nele, conhecemos Scaly Pete, um dos caçadores mais experientes em exterminar a ameaça de tubarões no baía. 

Capturando a mãe do cabeça-chata que controlamos, Pete mata o animal e depois faz uma cicatriz no pequeno tubarãozinho para reconhecê-lo quando for a hora de uma nova caçada. Com isso, toda a motivação que conduz o tubarão cabeça-chata que controlamos se trata de uma vingança.

Além de Pete, outros oito caçadores um tanto genéricos ficam atentos ao nível de ameaça que representamos dentro da baía. Enquanto o tubarão cresce, a caçada se torna mais intensa até o confronto final. 

Pontos positivos para a dublagem das cutscenes e narração ao estilo de documentário de natureza em português conseguindo incluir algumas referências e piadas regionais que se esforçam em tirar um sorriso do jogador. A história por si é um adendo divertido e dá mais propósito para o jogador finalizar o game.

Vivendo no Perigo, mas nem tanto

A jogabilidade de Maneater é funcional. É o mínimo que posso dizer depois de investir horas no jogo até conseguir evoluir o tubarão ao máximo permitido pelo sistema de evolução totalmente inspirado em RPGs modernos clássicos como The Witcher 3 e Monster Hunter World, por exemplo. 

Durante os primeiros minutos de jogatina, é um fato que Maneater se trata de um game desafiador, afinal o tubarão é filhote e desfere pouco dano em suas mordidas contra outros peixes e habitantes da vida marinha.

Velocidade, dano, pontos de vida, tudo ganha progressão ao decorrer das evoluções dos níveis que superamos com o auxílio de missões e missões secundárias, além de outros objetivos com colecionáveis e descoberta de baús com os três principais ingredientes para subir o nível de qualquer “equipamento” que você acoplar no tubarão: proteínas, minerais, óleos e mutagênicos.

Logo, em termos de jogabilidade, você passará muito tempo apertando os botões de nado rápido, ataque e atordoamento, além de outra habilidade especial que você acabar equipando. Então já dá pra notar que se trata de um button masher meio hack n’ slash que seria bastante equilibrado não fossem as falhas de progressão graves que o jogo sofre. 

Apesar de divertido e engraçado, Maneater é um game muito repetitivo e isso simplesmente não combina com a proeza técnica e visual investida no mundo, personagens e modificações do tubarão. Existem apenas três, é sério, três variações de missões sejam elas principais ou não.

Você terá que matar dez humanos, dez peixes x em uma certa área e matar um predador alfa. E é isso ao longo do jogo inteiro, até mesmo quando batalhamos contra os caçadores únicos que o game oferece como uma espécie de luta contra chefes quando na verdade absolutamente nada no modo que eles atuam e de como os combatemos. 

Raramente é preciso usar a estratégia em Maneater. A força bruta vence tudo em questão de minutos, até mesmo durante a luta final contra Scaly Pete – ela acaba em segundos caso você tenha feito a progressão certa. 

A progressão que seria a “certa” é investir nos equipamentos que aumentam a resistência do tubarão: o conjunto que aprimora a ossada do bicho. Você realmente vira um tanque que em questão de chegar quase no nível 15, você já consegue dar conta de todas as missões que o jogo te apresenta sem qualquer dificuldade. 

Infelizmente, a progressão do game para aí. Nenhum outro conceito é apresentado além de modificadores diferentes como um que eletrocuta inimigos, nada de muito bizarro como um raio laser surge como modificação no tubarão, mais personagens não são apresentados além dos predadores alfa que traz absolutamente o mesmo desafio de esmagar o botão de ataque até o bicho morrer. 

O que te motiva a explorar mais partes do mapa de mundo aberto é ver o detalhamento artístico conferido para cada nova área, inclusive ao “mar aberto” e os covis iluminados que nosso tubarão descansa para aceitar as novas modificações – não é possível aumentar atributos do bicho em qualquer outra parte dos mapas.

Trabalho de gente investida, não apaixonada

Por mais que Maneater tropece muito feio na questão da progressão, balanceamento torpe de dificuldade tanto no começo quanto no final do jogo e seja muito repetitivo, ao menos é possível afirmar que o mundo aberto criado pelos desenvolvedores é muito bonito mesmo, seja na linha do horizonte com cidades coloridas com ciclos de dia e noite, ou nas profundezas de rios e oceanos.

Existem diversas referências de pontos de interesse para descobrir e dar algumas risadas, além da fauna animal ser exuberante com diversos tipos de animais aquáticos, sejam répteis ou peixes. Até mesmo baleias e orcas entram no seu caminho para acabarem destroçadas como todos os outros. 

E o detalhamento das mutilações é curioso. Se tiver paciência para ver como o combate se comporta (ainda que a câmera seja caótica em lutas mais demoradas), vai perceber que jacarés, crocodilos e peixes maiores acabam perdendo parte do corpo enquanto lutam contra o tubarão.

Embora de diversos modos tenhamos sinais claros que muita gente investiu um bom tempo em polir os aspectos visuais e sonoros do jogo, ainda faltou investimento para aprimorar o design das missões, torná-las mais diversificadas, além de trabalhar melhor a I.A. dos inimigos, principalmente dos humanos,

Há momentos meio surreais nos quais atacamos uma praia lotada de gente, um píer, um show de luau, entre outros eventos, que tocamos o terror com o tubarão e alguns banhistas ou turistas se desesperam e saem correndo enquanto alguns ficam tranquilos ao ver seus amigos serem destroçados em segundos na sua frente. 

Mistura que dá charme e estranheza

Ainda que Maneater seja muito mais no estilo de Sharknado, ele muitas vezes se pauta em abordagens menos insanas e mais realistas como as vistas em Tubarão. Nesse meio termo, o jogo tem sim sua característica única que chega a remeter as bizarrices da franquia Saints Row

Entretanto, por não apostar mais no fantástico e bizarro, que realmente confere atmosfera bacana para o jogo, ele perde muitas oportunidades de renovar suas mecânicas, mudar o conceito da jogatina e realmente ocasionar um apocalipse de tubarão. 

No mais, é uma estreia original valiosa e recompenso a coragem pela ousadia da temática. Não é fácil elaborar um game desses focado em um predador mortal e conseguir pautar algo realmente revolucionário. Então, em uma vindoura sequência, espero que o time ouse mais nas ideias apresentadas aqui e simplesmente abracem a galhofa. 

Ela certamente garante momentos mais inusitados do que apenas uma história de tom satírico. Para quem procura, o jogo está em promoção na Epic Games Store com um bom desconto de cupom. Por esse preço, com toda a certeza a compra é recomendada. 

Maneater (Idem, 2020 – EUA)
Desenvolvedora: Tripwire Interactive
Distribuidora: Deep Silver
Plataformas: PC, Xbox One, PS4 e Switch (em breve)

Agradecemos à Deep Silver pela cópia gentilmente cedida para a elaboração dessa análise.

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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