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Análise | Resident Evil Village – É tudo isso mesmo?

A história até aqui…

A série Resident Evil passou por diversos altos e baixos, tanto em questões de vendas quanto na opinião do público, já houve problemas relacionados a um desgaste na fórmula da série, que foi a justificativa para as baixas vendas de de Code: Veronica, Resident Evil 0 e Resident Evil Remake no início dos anos 2000. O problema foi contornado com o lançamento de Resident Evil 4 que combinava o terror sci fi, sendo um pouco lúdico em sua abordagem, assim tendo algumas pitadas de humor aqui e ali característico da série com uma ação um pouco mais frenética, revolucionando novamente não apenas a franquia em si, mas a indústria dos games como um todo. A influência de Resident Evil 4 é sentida em outras marcas reconhecidas dos vídeo games como Gears of War, Dead Space e The Last of Us.

Após isso a série viu novamente uma bonança em termos de vendas, o jogo posterior, Resident Evil 5 foi o maior sucesso de vendas da Capcom até então, superando Resident Evil 2 que estava no topo anteriormente. Apesar do sucesso estrondoso desse jogo, alguns fãs mais puristas começaram a reclamar que os elementos de terror haviam desaparecido completamente da série, a Capcom então decidiu tentar agradar a todos com Resident Evil 6 lançado em 2012, com a ambiciosa ideia das quatro campanhas diferentes, cada uma com um estilo diferente, remetendo a algum aspecto específico dos jogos anteriores.

Resident Evil 6 inaugurou a famosa crise de identidade da série que tanto fãs quanto críticos apontavam, estava evidente que era hora de reinventar a franquia novamente. Um experimento foi realizado em Resident Evil: Revelations (inicialmente exclusivo do portátil Nintendo 3DS)  que angariou diversas opiniões positivas quanto à sua abordagem ao terror, dando assim a coragem para a Capcom experimentar também em seu próximo jogo numerado.

Em 2017 foi lançado Resident Evil 7: Biohazard, que implementa alguns aspectos de jogos mais recentes do terror, como Amnesia e Outlast que reaqueceram o gênero com sua mecânica mais passiva em torno dos inimigos, em que tudo que é possível fazer é fugir ou se esconder. Boa parte do jogo se dá assim, pelo menos nos momentos iniciais somos impotentes perante os Baker. Essa implementação rendeu boa aceitação da franquia perante o público, neste meio tempo vieram dois remakes, ambos um sucesso (apesar da recepção do 3 remake ser um pouco mista) e enfim chegamos à nova entrada da franquia, Resident Evil: Village.

Um belo conto de fadas

 

Village começa alguns anos depois dos eventos de Resident Evil 7, o protagonista, Evan Winters tem agora uma filha com Mia Winters, a sua amada Rose. O jogo se inicia com uma belíssima animação que me lembra um estilo um pouco parecido com o das animações do Tim Burton e outras como Coraline e The Night Before Christmas, algumas das quais eu cresci vendo, ativando meu frágil sensor de nostalgia, a Capcom não poderia ter causado uma primeira impressão melhor do que essa.

O jogo ainda utiliza o motor gráfico RE Engine e os gráficos estão melhores do que seus antecessores,  o que é um verdadeiro feito, pois o visual de RE7 e os recentes remakes já eram bastante impressionantes e realistas, quase fotorrealistas mesmo, visto o detalhamento dos personagens, objetos e cenários. 

Aproveitando que mencionei o gráfico, tenho que elogiar a grande atenção aos detalhes que os profissionais tiveram com este jogo. Por exemplo, quando um monstro é morto próximo a você, as gotas de sangue dele deixam manchadas até mesmo a arma que você utilizou. Aliás os objetos estão caprichados até os mínimos detalhes, aproximando-se deles é possível perceber até mesmo arranhões e manchas pequenas.

Os cenários neste jogo são fantásticos, a Capcom volta com a abordagem do vilarejo no interior da Europa que lembra bastante Resident Evil 4, que por si só já transfere essa atmosfera mais lúgubre e sinistra(o jogo traz de volta vários elementos desta quarta entrada numerada da série, mas ainda vamos chegar lá).

No jogo há quatro lordes para enfrentar, sendo estes os chefões do jogo, e cada um deles tem um cenário que reflete sua personalidade. Lady Dimitrescu, a famosa “Tall Lady” que deixou a internet em fervorosa possui um castelo, ela tem um certo aspecto vampiresco e até mesmo se alimenta de sangue, não pude deixar de pensar na franquia Castlevania nesta seção, que é outra série que gosto bastante.

Beneviento conta com o que em minha opinião é o cenário mais interessante deste jogo, sua habilidade é mexer com o psicológico das pessoas, assim sendo o seu cenário, por sua vez, me lembrou a franquia Silent Hill, outra série dos videogames pela qual sou apaixonado.

Moreau tem um aspecto muito semelhante ao de peixe, seu cenário é mais aquático e por fim temos o Heisenberg e a sua fábrica, outro cenário bem impressionante, como ele é uma espécie de cientista mecânico, seu lar tem um aspecto que remete a algumas obras de ficção científica. 

Os figurinos também tem uma função semelhante a que acabei de apontar com os cenários, que já te fazem ter uma impressão destes personagens desde a primeira vez que os olhamos: A vampiresca Dimitrescu, a estranha Beneviento, o monstruoso Moreau e o excêntrico Heisenberg. Tudo dentro ainda dessa temática de contos de fadas que dá unidade ao jogo, tratando-se de mais um esplêndido trabalho de design de produção e direção de arte que a Capcom faz aqui. 

 

Nostalgia pura

Vamos falar sobre o gameplay apresentado aqui. Vários elementos do Resident Evil 7 retornam aqui, a câmera continua sendo em primeira pessoa e o menu dos inventários tem um design semelhante. O sistema de crafting que por sua vez remete ao clássico Resident Evil 3: Nemesis retorna ainda mais evoluído, agora além de ser possível confeccionar diversos tipos de munição, ainda é possível criar minas e granadas, os tipos de materiais usados neste processo também estão mais variados.

Falando em variação, uma das minhas reclamações em relação ao Resident Evil 7 era a pouca variedade dos inimigos, que se resumia aos Mofados e os Baker, esta constituía uma das maiores falhas naquele jogo, mas neste eles corrigiram, os inimigos agora são licanos e há uma boa variedade deles. Há os que espreitam a fazenda que são um pouco mais rápidos e possuem um aspecto mais robusto e peludo. Os do castelo são mais magros, lentos e não possuem pelos, alguns podem voar, tem alguns que são maiores e mais resistentes, outros quadrúpedes, enfim… há uma gama de inimigos diferentes para enfrentar.

Aspectos do tão aclamado Resident Evil 4 retornam em Village. Em Resident Evil 7 havia uma caixa de armazenamento, referência aos jogos clássicos da série, já em Village não se faz mais necessária a caixa. Retorna um elemento do Resident Evil 4 que é o mercador, onde é possível vender e comprar itens e ainda aumentar o espaço de armazenamento.

Foi implementada também a mecânica da caça, Ethan encontrará em seu caminho diversos animais que devem ser abatidos para a obtenção de variados tipos de carne em troca de upgrades pessoais no mercador. Entre esses estão o upgrade de vida e a defesa aumentada. O mercador é também um personagem interessante, seu nome é apenas Duque e além de vender itens ele te traz algumas informações sobre o que está ocorrendo na história, assim servindo também como um dispositivo de exposição na trama.

A caça aos tesouros que era presente tanto em Resident Evil 4 e 5 retorna aqui. Você pode encontrar tesouros para vender no mercador tanto avançando na jornada da campanha quanto resolvendo puzzles espalhados no mapa. Aliás é interessante perceber que as áreas dele estão interligadas, não sendo inteiramente linear, do que me recordo este é o Resident Evil que mais explorou este aspecto de mapa extenso interconectado, apesar de ter havido alguns experimentos iniciais tanto em Resident Evil 7 quanto nos remakes recentes, mas este é o primeiro a ter de fato este elemento incorporado de forma mais abrangente.

Mais Ação!

Resident Evil 7 trouxe de volta o terror nos jogos da série, que fica mais presente na primeira metade e na segunda volta a ser o bom e velho RE que conhecemos onde temos lança granadas, lança chamas e tudo mais para detonarmos monstros.  A impressão que fica, ao contrário do que vi alguns apontando é que Resident Evil Village tenta equilibrar melhor ambos estes aspectos em todo o jogo, trazendo assim uma relação até mesmo mais harmônica entre os dois.

Tomemos a seção do castelo Dimitrescu por exemplo, nesta parte há as sinistras filhas, que no início somos impotentes perante, sendo um jogo de gato e rato semelhante ao que tínhamos com os Baker em Resident Evil 7, mas ao invés de demorar uma metade inteira do jogo para Ethan encontrar uma maneira de enfrentá-los como acontecia naturalmente, no próximo encontro já acontece o embate.

Mesma coisa com a Lady Dimitrescu, ela funciona de uma forma muito parecida com o Jack Baker do jogo anterior e para enfrentá-la é preciso primeiro livrar-se de suas filhas, até lá ela funciona como uma espécie de perseguidora implacável. Vale acrescentar que seu físico gigantesco conferem a ela uma aura bem assustadora e intimidadora, entrando aí o aspecto terror.

Há seções que são mais tensas que outras, destaco aqui a casa de Beneviento, que possui  tanto a parte mais assustadora do jogo quanto o puzzle mais bem elaborado. Aqui ela usa seus poderes para fazer Ethan alucinar, vemos vultos em ambientes escuros e enfrentamos um monstruoso feto gigante que caso consiga se aproximar de você causa morte instantânea. Então o jogo fica nesse vai e vem entre ação e terror e creio que este foi o que melhor equilibrou os aspectos. Tenho que mencionar o ótimo trabalho no design de som e trilha sonora do jogo que contribuem para este efeito

Quanto ao que alguns dizem, que Resident Evil não parece mais Resident Evil, creio que seja uma declaração um tanto exagerada, que de fato é feita desde o Resident Evil 4 pelos fãs mais puristas, mas para muitos é o melhor da série. É verdade que os monstros nesse tem um aspecto mais folclórico e sobrenatural, lembrando lobisomens e vampiros, mas tenha paciência, a explicação dada para isso ainda se encaixa no lore da série perfeitamente.

A história

A história tem um aspecto muito semelhante a um conto de fadas, como fica explicito na abertura e cada vez mais evidente conforme o tema principal do jogo em si é apresentado. Trata-se, mais uma vez de família, agora mostrado de uma forma um pouco mais complexa que no Resident Evil 7. Ethan agora tem uma família constituída, com uma esposa e uma filha. A vilã principal, Miranda, por sua vez possui seus próprios problemas familiares.

Entra aí também o tema específico da paternidade e maternidade. O tema do jogo pode ser reduzida a seguinte pergunta, “até onde um pai vai pelo seu filho?”. Não é exatamente algo original, nem mesmo nos videogames, a franquia que costumava ser concorrente direta de Resident Evil, Silent Hill já explorou este tema algumas vezes no passado, por exemplo, mas mesmo assim é sempre interessante de se ver o tema sendo trabalhado, pois a identificação com ele é universal.

Há um mistério que conduz a trama, ligado ao herói da franquia, Chris Redfield, que assassina a esposa do Ethan, Mia Winters a sangue frio e ainda leva a sua filha, Rose, embora. Assim questionamos o motivo para o primeiro protagonista da série que sempre foi um herói de realizar  tal ato tão repentinamente.

A resolução que isso tudo toma é mais conclusiva que em Resident Evil 7, em alguns pontos é expositiva até demais. O famoso “não precisava ser explicado” e o “se tal fosse dito ou feito muita dor de cabeça seria evitada” passaram pela minha cabeça enquanto jogava. Não entrarei em detalhes, pois não quero dar spoilers e gostaria que cada um tivesse sua própria experiência pessoal com o game.

Problemas narrativos e da história se fazem presentes na maioria dos jogos da série e não deixamos de a amar por isso, mas em geral, creio que tenha menos problemas do que o Resident Evil 7, em que terminamos com mais perguntas do que respostas e algo que eu odeio bastante, o “espere a DLC para entender o final”. Sem duvidas, é um dos melhores jogos da série e o coloco um pouco acima do Resident evil 7 pelos aspectos que foram mencionados ao longo da análise. A seguir um resumo dos pontos fortes e fracos.

Pontos fortes: Terror melhor equlibrado com a ação, sistema de crafting, variedade de inimigos e armas, belos gráficos, a história é mais conclusiva que no Resident Evil 7

Pontos fracos: para quem gostou da abordagem ao terror no Resident Evil 7, este pode ser mais decepcionante e há um pouco de backtracking.

Gostaria de agradecer à Capcom por ter cedido este game para análise.

Ficha técnica:

Título: Resident Evil Village

Desenvolvedora: Capcom

Distribuidora: Capcom

Ano de lançamento: 2021

Gênero: Survival Horror

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Publicado por Daniel Tanan

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