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Crítica | Cafarnaum – Infância Perdida

Cafarnaum é uma ótima produção libanesa que retrata uma rotina de pobreza e de falta de perspectiva das crianças.

Gabriel Danius
Gabriel Danius Redação
15 de janeiro de 2019 · 5 min de leitura
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Crítica | Cafarnaum – Infância Perdida

Cafarnaum certamente é um filme que irá deixar muitas pessoas angustiadas e chocadas com as situações impostas a Zain (Zain Al Rafeea), um garoto que vive uma rotina de pobreza e de total abandono por parte de seus pais, que não pensam no bem estar dele, apenas o colocam para trabalhar e não se importam se ele estuda ou não. A falta de uma perspectiva quanto ao futuro de Zain é bem clara caso essa situação se mantenha, e o menino parece entender bem o momento pelo qual vive, e daí que vem sua revolta que o faz se rebelar contra tudo e contra todos. 

É difícil ficar indiferente ao que a diretora Nadine Labaki (E Agora, Aonde Vamos?) nos apresenta nas duas horas do longa. São tantas situações que Zain vivencia e presencia que só faz com que ele se torne mais decidido em querer abandonar essa vida de miséria e abandono. O tal ato criminoso provocado pelo garoto tem um motivo, mas provavelmente ele não o fez apenas por vingança, mas também por ser um meio fácil de sair dessa vida de solidão e pobreza. 

A cena inicial já é bastante forte, crianças correndo com armas de brinquedo na mão em meio a prédios e ruas sujas e deterioradas, e isso para não dizer o apartamento que o menino mora e os locais pelos quais irá passar durante todo o filme, tudo é muito feio e abandonado em Cafarnaum, não a toa o nome do filme em português seja Caos, o garoto vive em um lugar extremamente caótico. 

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Nadine nos apresenta esse cenário para nos mostrar várias outras questões, não apenas a do abandonado que é uma questão bastante presente no longa, mas há muitas outras situações que se seguem durante toda a trama e cada uma com sua importância.  

O cotidiano de pobreza e violência é algo bastante presente durante a vida de Zain e seus irmãos. A pobreza que faz com que os pais coloquem as crianças para trabalhar na rua e muitas vezes, tanto meninos quanto meninas, sofrem diversos tipos de assédio por parte de homens adultos. Nos apresenta também a conivência por parte dos pais que colocam as crianças para viver essa realidade sem se preocupar nas consequências. Há uma cena que fica claro que a violência é uma realidade presente na família, quando a mãe de Zain, junto com as crianças, vai ao presídio e conversa com primos presos se descobre que todos da família do tio estão ali detidos, uma geração toda na prisão. O que a diretora quer nos dizer é que essa infância pela qual Zain está passando acaba levando essas crianças da inocência ao crime ou a outros caminhos sombrios.

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Outros dois temas debatidos por Nadine Labaki são o tráfico humano, principalmente o de crianças com o personagem do traficante bastante presente na trama e a questão dos ilegais e dos refugiados que entram no país vindos de várias partes da África e de outros países. Estes assuntos abordados ao longo do filme são muito claros e se entende porque o garoto fica tão revoltado com a vida que leva.

A diretora se preocupa tanto em colocar tantas situações do cotidiano que chega um momento que não consegue discutir a fundo várias outros assuntos, apenas dá uma pincelada para depois voltar a ele novamente sem se aprofundar no tema. isso fica nítido em relação ao casamento da irmã de Zain, que é obrigada a se casar ainda criança com um homem adulto. Uma situação chocante, mas que não é discutida a fundo.

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A narrativa segue por dois caminhos ao contar a história. Primeiro segue o garoto pelas ruas, contando toda sua trajetória até o derradeiro dia que irá cometer o crime e em outros momentos cortam para nos dizer como está se desencadeando o julgamento no tribunal. Essas cenas de Zain sendo julgado servem para dar uma quebra no momento que a narrativa principal se torna monótona demais e ajuda a dar uma impulsionada em contar a trama do garoto a partir do ponto certo. 

Zain Al Rafeea, o menino que interpreta Zain no filme, tem uma atuação fantástica. Seus olhos são cheios de vida, interpreta um garoto revoltado e triste e é um papel bastante difícil para uma criança. O longa é focado praticamente no protagonista e mesmo assim consegue segurar bem a atenção do público. Seu personagem ajuda bastante, é um garoto que não teve uma infância comum como as outras crianças. A vida que foi imposta a ele o faz ser uma pessoa bastante séria, tanto que antes do final não havia dado uma risada sequer.

Cafarnaum é uma ótima produção libanesa que retrata uma rotina de pobreza e de falta de perspectiva das crianças. Serve como denúncia e como um drama sensível que faz pensar sobre as situações vividas pelo protagonista e por outras crianças que fazem personagens secundários. Como retrato da realidade é bastante forte, intenso e triste ao ponto de colocar o telespectador naquela rotina e vivenciar todas as crueldades pelas quais Zain passa. Um filme difícil de se tirar da cabeça uma vez assistido. 

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Cafarnaum (Capharnaüm, Líbano, 2018)

Direção: Nadine Labaki
Roteiro: Nadine Labaki, Jihad Hojeily, Michelle Keserwany
Elenco: Zain Al Rafeea, Yordanos Shiferaw, Boluwatife Treasure Bankole, Kawsar Al Haddad, Fadi Yousef, Haita ‘Cedra’ Izzam, Alaa Chouchnieh, Nadine Labaki
Gênero: Drama
Duração: 121 min

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Tags: #Oscar 2019
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Gabriel Danius
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Gabriel Danius

Jornalista e cinéfilo de carteirinha amo nas horas vagas ler, jogar e assistir a jogos de futebol. Amo filmes que acrescentem algo de relevante e tragam uma mensagem interessante.

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