Desperate Housewives tornou-se um grande sucesso da ABC por reformular as histórias tragicômicas do suspense e do drama familiar. Afinal, o título enganoso poderia facilmente nos levar para uma esquecível fórmula que teria como foco donas de casa desesperadas com seus problemas superficiais e seus arcos tão profundos quanto uma colher de sopa. Entretanto, a brilhante mente de Marc Cherry, na verdade, nos apresentou a personagens fortes, com narrativas envolventes e chocantes que cultivaram um espaço considerável em nossos corações e transformaram Wisteria Lane em uma espécie de segunda casa – mesmo com todas as suas mentiras e os seus condenáveis habitantes. Mas, no final das contas, Cherry joga nas nossas caras a premissa “atira a primeira pedra quem não tem pecados” e arquiteta personas tão reais quanto nós.

De qualquer forma, o show nunca esteve livre de deslizes. Os primeiros erros começaram a dar as caras já na segunda iteração que, apesar de ser esteticamente competente, falhou em nos comover do mesmo modo que fez em seu ano de estreia – talvez pela quantidade absurda de personagens, ou talvez até mesmo pela repetição inusitada das subtramas. Conforme os anos se passaram, a obra recuperou a sua glória, pelo menos até 2009: com a chegada do sexto ciclo, Cherry parece demonstrar mais uma vez um prematuro cansaço que até mesmo explica a duração de Desperate por apenas mais dois anos antes do chocante e vindouro series finale.

Como já é de se esperar, os novos capítulos se valem bastante de mais mudanças para a vida de cada uma das protagonistas. Lynette (Felicity Huffman) enfrenta as consequências de sua nova gravidez; Bree (Marcia Cross) tenta ao máximo terminar seu casamento com Orson (Kyle MacLachlan), que se transformou em uma das pessoas mais odiosas de todo o seriado, mergulhando em um vicioso ciclo de egolatria e chantagem; Gabby (Eva Longoria) “ganhou” mais uma filha, Ana (Maiara Walsh), introduzia ao público como uma rebelde adolescente nos episódios passados; e Susan (Teri Hatcher), após passar por mais um evento de quase morte, finalmente voltou para os braços de Mike (James Denton).

O problema é que, desde a estreia de seu piloto, o show provou para sua audiência que nenhuma ação fica sem seu respectivo corolário. Afinal, para aqueles que não se recordam, Mike estava em um relacionamento com Katherine (Dana Delany) e prestes a pedi-la em casamento antes de se reentrelaçar com seu primeiro e único amor da conturbada Wisteria Lane. Era apenas natural que, após salvá-la, os dois se reconectassem – mas ninguém poderia imaginar que Katherine se transformaria em uma lunática e tentaria por um fim ao casal. Cherry acerta em cheio junto a seu time de roteiristas à medida que delineia duas perspectivas diferentes, levando-nos dentro de um frenesi que nos impede de torcer apenas para um lado.

A dramédia logo se transforma num pano de fundo trágico que culmina em sua internação – mas essa resolução não chega aos pés de mais uma chocante iteração que envolve uma festa de Natal e uma queda de avião. De fato, a entrada intitulada Boom Crush não apenas sacrifica mais um de seus personagens (algo que o showrunner parece gostar de fazer sumariamente), como também causa mudanças ainda mais irreversíveis na vida de todos, sendo capaz de inverter os papéis do tóxico relacionamento entre Bree e Orson – afinal, este fica paraplégico e aquela se sente culpada pela condição do marido.

Porém, seguindo parâmetros predecessores, a série introduz também uma nova família e um novo mistério que deveria reger, ao menos em teoria, a atmosfera principal da temporada. Entretanto, as presenças de Drea de MatteoJeffrey Nordling como Angie e Nick Bolen, respectivamente, não encantam e constroem-se de forma fragmentada dentro de um escopo já bastante sólido. A personalidade sarcástica e durona de Angie nos dá uma impressão artificial, afastando-se de qualquer enlace químico com qualquer outras das personagens – até mesmo de Gabby, com a qual detém uma proximidade muito maior.

De Matteo e Nordling, todavia, entregam-se o máximo que conseguem a uma performance razoável. É Beau Mirchoff que nos rouba o foco por todos os motivos errados, dentro de uma atuação que não chega aos pés dos outros artistas. Ao encarnar Danny, filho do casal Bolen, ele se esforça para alcançar um patamar dramático considerável; o resultado é risível, culminando, no final das contas, em uma espécia de adolescente problemático com tiques nervosos presos em um beco sem saída – não é surpresa que, em seus momentos de “ápice” sentimental, ele sempre recorra ao copioso choro e se transforme na vítima mais patética de todas.

É triste observar a decadência de Desperate Housewives; mais triste ainda é perceber como nossas adoradas donas de casa, na verdade, não têm culpa mesmo perdendo lugar em prol de uma tentativa falha de alcançar um patamar desnecessário. O desfecho extremamente apressado nem mesmo se configura como o principal problema: afinal, os alicerces principais já haviam mergulhado em uma profunda inércia, preferindo ceder a saídas formulaica a buscar originalidade.

Desperate Housewives – 6ª Temporada (Idem, EUA – 2009)

Criado por: Marc Cherry
Direção: Charles McDougall, Larry Shaw, Arlene Sanford, Jeff Melman, Fred Gerber, John David Coles, David Grossman
Roteiro: Marc Cherry, Oliver Goldstick, Tom Spezialy, Alexandra Cunningham, Tracey Stern, John Pardee, Kevin Murphy, Jenna Bans, Patty Lin, David Schulner, Chris Black, Bob Daily
Elenco: Teri Hatcher, Marcia Cross, Eva Longoria, Felicity Huffman, Brenda Young, Kyle MacLachlan, Doug Savant, Ricardo Chavira, Andrea Bowen, James Denton, Dana Delany, Kathryn Joosten, Drea de Matteo, Maiara Walsh, Jeffrey Nordling
Emissora: ABC
Episódios: 23
Gênero: Drama, Comédia, Mistério
Duração: 45 min. aprox.