Desperate Housewives teve uma trajetória interessante em sua longa vida na televisão norte-americana. Além de nos surpreender com uma narrativa de grande qualidade e personagens que sem dúvida ficariam marcadas para a história – fosse pelas personalidades contrastantes ou pelas múltiplas tramas que se fundiam num delicioso misto de suspense e comédia. Agora, com a chegada da sétima temporada, nos deparamos com o súbito fim que nossa querida série teria no próximo ano. E, como já era de se esperar, Marc Cherry prenunciaria o adeus a Wisteria Lane logo no primeiro episódio do novo ciclo, resgatando elementos práticos e envolventes utilizados nas iterações anteriores para recuperar uma glória perdida.

Para aqueles que não se recordam, a sexta temporada do show falhou em quase todos os aspectos e conseguiu se tornar uma esquecível aventura novelesca de Fairview. Como sempre, Cherry buscou trazer novos personagens, uma nova família atraída pelos segredos obscuros da pitoresca vizinhança, mas não alcançou seu objetivo – muito pelo contrário: as visíveis falhas foram rapidamente cortadas com resoluções apressadas e que pavimentaram o caminho para a chegada de umas das personas mais cômicas e complexas da televisão contemporânea: Renee Perry (Vanessa Williams).

Em uma perspectiva mais abrangente, Renee é apenas uma das incríveis adições que trazem o respiro de originalidade para as tramas intrincadas das desesperadas donas de casa e, devido à atuação impecável de Williams, a nova femme fatale caiu no gosto popular e tornou-se personagem regular com aplaudível credibilidade. Renee é uma das amigas mais antigas de Lynette (Felicity Huffman), e volta para sua vida após terminar o casamento com um famoso jogador de basquete Doug Perry (Reggie Austin) – e, como todas as outras moradoras de Wisteria Lane, sua superficialidade oculta quem é de verdade (e os segredos que carrega de um passado longínquo, mas que poderia acabar com um casamento).

Renee não é a única a roubar nosso foco; Paul Young (Mark Moses) faz um comeback de tirar o fôlego no season finale predecessor ao alugar a casa de Susan (Teri Hatcher) após ela se mudar para um pequeno apartamento no centro da cidade. Paul foi liberado de sua prisão após os policiais descobrirem que Felicia Tilman (Harriet Sansom Harris) estava viva e se escondia esse tempo todo para dar a impressão de ter sido assassinada pelo taciturno homem. Agora que voltou para seu lar, ele deixa bem claro desde o princípio que pretende se vingar de tudo o que aconteceu e de todas as coisas que seus vizinhos fizeram contra ele – inclusive não estarem ao seu lado quando mais precisou.

A princípio, podemos encarar as storylines do sétimo ano como pesados o suficiente para que sejam explorados na profundidade que merecem – isso sem contar as subtramas que concernem às personagens principais. Entretanto, o showrunner tem vinte e três episódios e uma equipe competente o bastante para que nada ceda às fórmulas extenuantes dos dramas televisivos. O resultado final é competente e aprazível na medida certa para nos manter enganchados para a temporada final: Cherry não se restringe apenas em arquitetar algo com o que já estávamos acostumados, mas constrói sequências agonizantes que incluem uma tentativa de assassinato, uma traição e um protesto que acaba em tumulto e em vários feridos.

O que mais nos chama a atenção é a inteligência e a sagacidade com a qual os arcos se erguem em meio a um cenário não tão promissor assim. O roteiro é cautelosamente escrito e se envolve com uma progressão narrativa que reflete o melhor que a série poderia ter nos entregado – talvez alcançando o mesmo patamar que as iterações originais. A ideia aqui é manter o nível de desconstruções das protagonistas e colocá-las em uma atmosfera bem diferente da que já estavam, obrigando-as a sair da zona de conforto e cultivando certas nuances que foram ofuscadas pelos equívocos artísticos e técnicos dos últimos dois anos.

Conforme nos aproximamos do season finale, percebemos que o criador não perde a chance de utilizar alguns gatilhos importantes apenas mencionados em episódios anteriores, e mais uma vez muda os holofotes para uma subtrama que já deveria ter sido explorada, mas foi guardada para o final. Gabrielle Solis (Eva Longoria), já tendo recomposto seu império do zero e se afastado da superficialidade extremamente consumista, é jogada em um último arco de redenção, no qual enfrenta demônios que julgava estarem exorcizados: seu padrasto, Alejandro (Tony Plana), não estava morto e a reencontrou para continuar seu reinado de caos e medo a que sempre lhe infligira. Isso é, até ser brutalmente morto por Carlos (Ricardo Chavira) e enterrado na floresta.

Desperate Housewives basicamente volta à sua boa forma e preconiza um triste fim que, ao certo, deixará muitas saudades. Agora, caminhamos numa certeza impalpável ao fim, que transborda com ainda mais segredos e que também dá início a um dos momentos mais obscuros das nossas heroínas.

Desperate Housewives – 7ª Temporada (Idem, EUA – 2010)

Criado por: Marc Cherry
Direção: Charles McDougall, Larry Shaw, Arlene Sanford, Jeff Melman, Fred Gerber, John David Coles, David Grossman
Roteiro: Marc Cherry, Oliver Goldstick, Tom Spezialy, Alexandra Cunningham, Tracey Stern, John Pardee, Kevin Murphy, Jenna Bans, Patty Lin, David Schulner, Chris Black, Bob Daily
Elenco: Teri Hatcher, Marcia Cross, Eva Longoria, Felicity Huffman, Brenda Young, Doug Savant, Ricardo Chavira, Andrea Bowen, James Denton, Kathryn Joosten, Vanessa Williams, Mark Moses, Kevin Rahm
Emissora: ABC
Episódios: 23
Gênero: Drama, Comédia, Mistério
Duração: 45 min. aprox.