O olhar histórico sobre o Cinema Japonês pré e pós-Segunda Guerra Mundial é bastante curioso. Praticamente, há um inestimável trio de realizadores dos quais sempre conquistarão prestígio independente do que aconteça no futuro. Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi são os incontestáveis realizadores que popularizaram o cinema oriental ao redor do mundo fortemente influenciado pela distribuição de clássicos americanos e franceses.

Entretanto, não importa qual lista que veja sobre os melhores filmes japoneses, sempre haverá a presença merecida de Harakiri, o filme anti-samurai de Masaki Kobayashi. Apesar dele não figurar entre os três cineastas mais influentes do Japão, Kobayashi certamente foi o que aplicou maior influência em realizadores americanos como Quentin Tarantino e George Lucas, difundindo um estilo de ‘cinema samurai’ que ressoa até hoje nas iterações mais recentes da franquia Star Wars.

Logo, um mistério é estabelecido, afinal por qual motivo Kobayashi não figura a mesma fama que sua principal obra-prima entre a própria História do Cinema? A razão incerta talvez seja perturbadora, mas tem a ver com criar a linguagem certa no tempo errado, afinal a maioria das revoluções do cinema japonês já estavam nas mãos de Kurosawa – contribui o fato da negligência indiscutível da crítica de cinema também.

Um Samurai para Matar Todos Samurais

Desde 1954, com a montanha monetária que Kurosawa e a Toho haviam conquistado com Os Sete Samurais, era bastante óbvio que a indústria cinematográfica japonesa se atrairia pela montanha de dinheiro em potencial de um público ávido para mais histórias como aquela. Logo, assim como os Westerns hollywoodianos, houve uma verdadeira explosão de produções samurai dentre das quais, muitas não remetiam a qualidade vista em filmes de outros realizadores.

Nessa enorme estafa, curiosamente tanto Kurosawa quanto Kobayashi realizaram filmes próximos que eram completamente contrários ao mito do samurai: Yojimbo: O Guarda-Costas e Harakiri, com lançamentos separados apenas por um ano. Entretanto, enquanto Kurosawa buscava uma mistura perfeita de humor com violência gráfica, Kobayashi estava interessado em uma audácia ainda maior ao criar a desconstrução completa da honradez dessa figura quase mitológica.

Sua narrativa é concentrada na realidade, utilizando nomes de clãs reais e mostrando a consequência de um Japão unificado e pacífico. Sem guerras civis entre diversos senhores, a principal força armada constituída por samurais entrou em colapso, já que esses guerreiros sabiam somente a arte da guerra. Sem emprego, sem mestres e sem dignidade, diversos dos ronins (samurais sem mestre), procuravam se eliminar através do digno ritual do haraquiri no qual o indivíduo se auto-estripa e logo é decapitado por outro guerreiro que supervisiona a agonizante morte violenta.

Nesse cenário, conhecemos Hanshiro Tsugomo (Tatsuya Nakadai), um ronin, decide tirar sua própria vida do que viver na perturbadora miséria que assola o país nos primeiros anos do Xogunato Tokugawa. Mas para realizar o ritual do haraquiri, Tsugomo precisa ir até um clã consagrado para ter um ritual honrado. No caso, parte até o clã Iyi, mas ao chegar lá, Tsugomo é advertido pelo líder que sua intenção de praticar o haraquiri terá de ser concretizado caso firmem o pacto. Para avisá-lo, conta a história de outro samurai que havia passado por lá algumas semanas antes. Porém, essa história já é bastante conhecida por Tsugomo que possui intenções ocultas para visitar aquele aparente honrado local.

É curioso como Kobayashi e seu roteirista Shinobu Hashimoto conduzem a narrativa de Harakiri. Assim como Kurosawa explorava as belezas de uma narrativa não-linear em Rashomon ao contar diferentes versões de uma mesma história, aqui temos uma grande história interrompida a todo momento por constantes flashbacks que contam tanto a história trágica do primeiro samurai, como outra envolvendo Tsugomo e sua relação com a primeira narrativa.

Em essência, Harakiri simboliza o antes e depois da honradez do samurai. Em primeiro momento, durante a entrevista de Tsugomo e da história envolvendo o jovem Motome Chijiiwa. Nela, contada de modo bastante cru, há um cinismo profundo do narrador indicando uma “vilanização” do personagem, já que ele procura o clã com outras intenções, além da prática do haraquiri. Por conta da natureza misteriosa de seu outro pedido, os samurais do clã Iyi forçam o ritual no rapaz que portava uma espada de bambu.

É através desse ponto que vemos o sadismo dos outros samurais em nome de um ideal abstrato de “honra”, uma desculpa para saciar o lado grotesco desses guerreiros sedentos e carentes de violência. O discurso do longa então fixa ainda mais sua posição anti-samurai e anti-tradição com a longa sequência envolvendo os preparos do haraquiri de Tsugomo que é um personagem muito perspicaz ao conseguir conduzir uma grande plateia a uma armadilha engenhosa.

Esse segmento é certamente o mais poderoso por envolver um uso transformador do flashback. A história contada pelo protagonista muda a percepção do espectador acerca da outra narrativa elaborada anteriormente, mostrando como a verdade está sempre mudando dependendo do interlocutor, além de trazer a moral clássica de não julgar terceiros sem conhece-los adequadamente. A moral da humildade é uma crítica direta a soberba dos guerreiros que vivem uma realidade paralela àquela do Japão.

Inesperado Melodrama

Todo o segundo flashback poderia pertencer a um belo melodrama, já que envolve uma infinidade de tragédias romantizadas e sacrifícios honrados. É nele que Tsugomo ganha mais relevância como personagem, apesar de Chijiiwa e Miho, filha do protagonista, servirem apenas para torna-lo mais complexo.

É normal que nos filmes desse gênero, não haja essa obsessão plena em desenvolver os personagens que servem apenas para solidificar uma moral. Mas no caso de Harakiri vemos como Tsugomo perde a crença na tradição gradativamente até se tornar um completo e trágico desgraçado em busca de vingança.

Essa virada fenomenal transforma o longa até sua conclusão sanguinolenta e bastante enérgica destruindo toda a pose tradicionalista do gênero. Mas o que mais interessa além dessa narrativa bastante satisfatória, é a direção estupenda de Kobayashi. Apesar de manter um ritmo excessivamente lento até para os padrões do cinema japonês da época, o cineasta presenteia o espectador com um jogo elaboradíssimo de imagens ao longo de toda a obra.

Todos os enquadramentos de Harakiri são extremamente simétricos e equilibrados. Isso, obviamente, não significa que Kobayashi insista apenas em enquadramentos centrais como realiza durante a arrepiante sequência de créditos iniciais que vasculha cada cômodo da Mansão Yiy. Quem é Wes Anderson perto de Kobayashi? Lhes digo, é algo realmente formidável e muito sofisticado que poucos realizadores conseguem arquitetar.

A composição elaborada surge até mesmo durante planos de estabelecimento ou com diversos outros personagens enquadrados. O mesmo ocorre nas cenas de duelo, com movimentos das espadas igualmente simétricos puxando os próximos planos também de precisão cirúrgica. Mas o que mais chama a atenção do espectador, é a criação a olhos vistos da clássica linguagem dos filmes samurai que são sim bastante distintas se comparada às imagens criadas para duelos western a la Sergio Leone.

Kobayashi tem a sacada de aprimorar em um nível artístico bastante superior ao de Kurosawa, compreendendo o magnetismo da coreografia com as imagens e a hierarquia dos planos. A cada espada que se movimenta, o cineasta troca a imagem mostrando os dois guerreiros que se movimentam lentamente em contraste com a fúria da ventania que atinge o terreno da luta. Como esse segmento é montado paralelamente com Tsugomo revelando o clímax de sua história, vemos a mesma ventania atingir a Mansão Yiy, prenunciando completamente a matança que se instalará em breve no lugar.

O Anti-Samurai se torna o melhor Samurai

Por conta do aprimoramento pleno da linguagem do gênero, de sua mensagem intrinsecamente envolvida com a própria História do Japão e da hipocrisia de lendas tradicionais revividas por um gênero muito floreado, Harakiri consegue destruir a imagem heroica de uma classe inteira de guerreiros, revelando a completa desunião e perversidade de homens que não foram heróis, mas apenas instrumentos de batalha em confrontos de motivações complexas cinzentas.

Kobayashi mostra a honradez da vingança pela família. Seu storytelling através de uma fórmula clássica de camadas aliadas ao uso muito eficaz do flashback, fazem de Harakiri uma verdadeira obra-prima. Mas uma obra-prima que simplesmente abomina o gênero do qual ela pertence.

Harakiri (Seppuku, Japão – 1962)

Direção: Masaki Kobayashi
Roteiro: Shinobu Hashimoto, Yasuhiko Takiguchi
Elenco: Tatsuya Nakadai, Akira Ishihama, Shima Iwashita, Tetsurô Tanba, Masao Mishima, Kei Satô
Gênero: Samurai, Drama
Duração: 133 minutos