O novo filme de Adam Mckay, Vice, indicado a 8 Oscar, finalmente chegou aos cinemas brasileiros. Trazendo a história de Dick Cheney, vice-presidente durante o governo Bush de 2001 a 2009 nos EUA, o longa pretende trazer um arquivo de “verdade inconvenientes” culpando Cheney por toda a maldade do mundo, além de ter mudado o curso da história do mundo ocidental.

Certamente uma proposta bastante ousada ao acusar Cheney de ser o próprio Diabo na Terra. Porém, existe verdade nessa história trazida por McKay? Ou é apenas uma perseguição política de um diretor que com certeza é inimigo declarado dos Republicanos? É o que iremos descobrir nesse artigo que aborda os principais pontos do filme.

Dick Cheney foi expulso de Yale duas vezes?

Sim. Segundo o próprio Cheney em sua autobiografia, ele acabou fazendo amizades errôneas que o incentivavam a beber, já que a cerveja era basicamente uma das melhores coisas da vida. Por conta dos efeitos da bebedeira, Cheney acabou expulso da universidade já que não correspondia as expectativas da instituição. Entretanto, não existe evidência alguma sobre a cena na qual Cheney se mete em uma briga física após ser chamado de “lixo” por outro indivíduo.

Depois de um ano, tentando regressar para a universidade, acabou recusado.

Após a expulsão, Cheney trabalhou na companhia elétrica realizando reparos. Porém, ele não trabalhava com as linhas de transmissão como o filme infere. O político na verdade cavava os buracos nos quais os postes são instalados e ajudava os instaladores das fiações que estavam pendurados nos postes.

Cheney foi autuado por dirigir embriagado?

Dessa vez, o filme é bastante fiel aos fatos. Registros policiais comprovam que Dick Cheney foi pego em flagrante duas vezes em um espaço de oito meses nos anos 1960 dirigindo embriagado. O homem foi autuado e preso quando tinha 21 e 22 anos. Ele perdeu sua licença e teve que pagar uma multa. Segundo Cheney, as prisões o fizeram pensar no caminho que estava trilhando, temendo pelo futuro.

Lynne Cheney realmente deu um ultimato a respeito da bebedeira?

Sim. Quando próximo ao fundo do poço, Cheney recebeu um ultimato de sua esposa Lynne mandando ele encontrar seu rumo e abandonar a bebedeira, pois seria a última vez que suportaria situações desse tipo. Em entrevista ao Business Insider, o político revelou que aquela conversa foi definitiva em sua vida e ajudou ele a manter o casamento e endireitar seus planos.

O pai de Lynne Cheney realmente matou sua esposa em um afogamento?

Uma das acusações mais graves de Vice e Adam McKay é afirmar que o sogro de Dick Cheney matou sua esposa em um afogamento planejado. No filme, durante o velório da sogra, Dick avisa para seu sogro Edwin Vincent nunca mais retomar contato com ele, Lynne e suas filhas, já que todos tem a certeza de que Edwin é um assassino. Isso nunca mais é explorado no filme como se nunca tivesse acontecido.

Entretanto, na vida real, os Cheney não acreditam nessa teoria da conspiração. Edna, mãe de Lynne, realmente morreu afogada na tarde de 24 de maio de 1973 com 54 anos. De acordo com uma publicação de um jornal local, Edna estava andando com seus cachorros na beirada do lago Yesness. Escorregando, acabou caindo diretamente na água de grande profundidade. Como não sabia nadar, acabou morrendo. Seu corpo foi encontrado quando Edwin a declarou como desaparecida um dia depois.

Tanto o xerife quanto o legista indicaram que não havia nenhum sinal de afogamento forçado: havia sido um acidente. As investigações pararam aí. Na autobiografia de Lynne Cheney, ela levante algumas questões sobre a possibilidade da mãe ter sido assassinada através da mistura de álcool e medicamentos controlados, resultando em tonturas inesperadas. Mas no fim, conclui que deve ter sido um acidente.

O pay de Lynne ficou tão deprimido e traumatizado que acabou morrendo dois anos depois por conta da bebedeira excessiva para atenuar a depressão.

É baseado apenas nessa incerteza que Adam McKay infere que o sogro foi o verdadeiramente responsável pela morte de Edna. Uma afirmação sem qualquer prova para ser sustentada e bastante irresponsável de se colocar em uma biografia.

Dick Cheney realmente não sabia para qual partido se afiliar?

No filme, Cheney chega em Washington como um enorme ignorante não sabendo a menor diferença entre os partidos. Ele só decide se tornar um republicano depois de Donal Rumsfeld, um deputado republicano, fazer um discurso repleto de palavrões e preconceitos. A partir disso, Cheney decide ingressar no Partido.

Porém, não é isso o que aconteceu na vida real. Cheney já tinha moldado sua esfera política naquele ponto, reconhecendo que havia sido conservador em grande parte de sua vida. Na faculdade, se destacou pelo modo que falava sobre a política estrangeira, um de seus campos favoritos na carreira. Logo, é bem leviano afirmar que Cheney nem fazia ideia do que era política até se encontrar com Rumsfeld.

O jovem Antonin Scalia disse que o Artigo Segundo da Constituição americana permite que o chefe do executivo exerça o poder absoluto?

No filme, Cheney é aconselhado pelo futuro juiz da Suprema Corte americana, Antonin Scalia, compartilhando a mesma opinião interpretativa sobre o Artigo Segundo da Constituição, permitindo que o chefe do executivo tenha plenos poderes absolutos.

Os ataques do filme para com Scalia são simplesmente absurdos. O juíz foi um dos mais leais à Constituição Americana. Todas suas decisões foram pautadas pela Constituição e nunca ousou se desviar do sentido original das leis. Scalia também nunca teria dito isso para Cheney simplesmente por que o Artigo Segundo não afirma que o presidente possa fazer absolutamente qualquer coisa que lhe der na telha.

Adam Mckay admitiu ter criados diversos diálogos do nada e com certeza esse foi um deles.

Lynne Cheney conquistou o cargo no congresso para Dick?

Essa é uma das muitas afirmações que o filme traz sem muita cerimônia. Na verdade, é impossível afirmar nem que sim e nem que não sobre as ações de Lynne em conquistar votos para seu marido quando ele estava acamado por conta de um ataque cardíaco. Após ganhar a eleição, o filme mostra Cheney votando contra todas as pautas que seriam progressistas, mesmo que seja benéficas à Nação. Porém, não foi isso o que ocorreu, já que Cheney votou a favor do feriado de Martin Luther King enquanto no filme o político dá um voto contrário.

Dick Cheney realmente convenceu o Congresso a preservar o veto de Reagan sobre a Doutrina de Justiça?

Na cena na qual Bush filho é apresentado, totalmente bêbado e folgado, o pai do futuro presidente, George W. Bush, agradece Cheney por ter conseguido conquistar o Congresso para não votarem contra o veto de Reagan sobre a Doutrina de Justiça, uma lei de 1949 que obrigava rádio e televisão a mostrar igualmente os dois lados de uma história.

Em fatos, isso é muito provavelmente falso, já que Cheney não era o principal articulador republicano no Congresso em 1987. O filme culpa Cheney pela ascensão de canais de notícias opinativas como a Fox News, uma emissora declaradamente de direita. Porém, Adam McKay comete um erro embaraçoso aqui. Além de erroneamente associar a Fox News com Cheney, ele não soube interpretar que a Lei na verdade se trata apenas de emissoras públicas. Como a Fox News é um canal pago, a Lei nunca teria atingido o canal.

O mais curioso é que o filme acusa a Fox News de algo que ele mesmo faz: só mostrar um lado.

Dick Cheney aceitou o cargo de Vice-Presidente apenas com a intenção de ampliar os poderes do executivo?

Novamente, Vice faz afirmações impossíveis de provar. Somente Cheney sabe verdadeiramente de suas intenções, porém suas ações até o 11 de setembro não condizem com seu plano de dominar o mundo como o McKay pinta no filme. Após os eventos trágicos de 2001, os EUA declaram a guerra ao terror, entrando em estado de guerra, diversas atitudes controversas foram feitas pelo executivo como a prática da tortura, a lei do Ato Patriota que permitiu a espionagem de diversos cidadãos e negação de julgamentos para terroristas.

Em sua defesa, Cheney declarou “Em uma guerra, você captura o inimigo até o fim do conflito. Você não captura um nazista e o coloca em julgamento em plena Segunda Guerra Mundial.”.

Dick Cheney realmente ordenou que as aeronaves sequestradas fossem abatidas no ar no 11/9?

Não. O filme faz outra afirmação perigosa que não consegue provar com documentos oficiais. A investigação sobre a polêmica ligação de Cheney foi inconclusiva pela falta de provas. Bush e Cheney negaram veementemente que isso tenha acontecido. Uma das testemunhas mais importantes do caso foi Condoleezza Rice que, no filme, sugere que Cheney espere a aprovação do presente.

Na realidade, em suas memórias Rice afirma que Cheney estava em contato com o presidente o tempo todo, debatendo sobre as questões necessárias de retaliação em momentos desesperadores.

Dick Cheney incentivou à invasão ao Iraque por conta de suas ligações com a empresa Halliburton?

O filme infere que sim, apesar de ser um mais um palpite do que realmente aconteceu. Não há como provar que essa foi ou não a intenção de Cheney ao incentivar a invasão ao Iraque, afinal ele mesmo lucrou 26 milhões de dólares ou até mais por conta da Halliburton na época.

Dessa vez, é bem possível que o filme esteja correto. Durante o governo Bush em 1990, na Guerra do Golfo, Cheney era Secretário de Defesa. Nessa época, ele se opunha firmemente a invadir o Iraque, pois criaria uma enorme instabilidade na região ao remover Saddam Hussein no poder.

Essa opinião mudou depois do 11/9 e também depois de ter trabalhado na Halliburton. Ele acreditava fielmente que Hussein tinha armas de destruição em massa e que estava conectado a al-Qaeda.

Porém, o filme falha em mencionar que muitos envolvidos no governo apoiavam a decisão de invadir o Iraque, incluindo 29 senadores democratas e todos, com exceção de um, senador republicado. A própria Hillary Clinton defendou a Guerra do Iraque – ela, por algum motivo, é relembrada pela montagem do filme.

O Iraque de Saddam Hussein realmente investiu pesado na pesquisa e desenvolvimento de armas de destruição em massa no passado, porém há pouca evidência que isso havia continuado depois da Guerra do Golfo em 1991, quando as Nações Unidas destruíram diversas armas com esse poderio. Porém, em 2004, a comissão do 11/9 descobriu que havia sim uma relação de colaboração entre o Iraque e a al-Quaeda. Desse modo, por conta da omissão do governo de Hussein e suas falhas com as Nações Unidas, diversos países passaram a suspeitar que ele estava novamente pesquisando armas de destruição em massa, resultando na coalização contra o Iraque.

Dick Cheney é o culpado pela criação do ISIS?

Vice infere que sim através de sua nada agradável narração, já que o próprio político mencionou o nome do terrorista Abu Musab al-Zarqawi. O nome do terrorista foi divulgado para que a população dos EUA aprovasse a Guerra do Iraque, porém, ao mesmo tempo, mencionar al-Zarqawi o tornou uma celebridade local que fez com que resultasse na origem do Estado Islâmico.

McKay ainda vai além e infere que al-Zarqawi foi a mente criminosa dos ataques em Londres em 2005, além de que, por conta de sua morte em 2006 acabou resultando em todos os desastres violentos enfrentados pelo mundo durante a administração Obama. O culpado de tudo isso? Sim, ele mesmo. Dick Cheney.

Porém, a verdade não é tão simples como Adam McKay acredita que é. Até mesmo para os críticos mais ferrenhos de Cheney essa declaração é absolutamente absurda. A crítica de McKay sobre Cheney não ter prestado muita atenção sobre Zarqawi é válida, porém a administração Bush estava empenhada contra diversos terroristas – algo que o filme não faz muita questão de mencionar.

Dick Cheney e Bush são os responsáveis pelo afogamento simulado na Baía de Guantanamo?

Sim. O campo de detenção da Baía de Guantanamo foi criado durante a administração Bush/Cheney. Lá, diversas violações de direitos humanos ocorreram para extrair informações de terroristas, incluindo a tortura do afogamento simulado. Enquanto o filme claramente toma posições anti-republicanas, ele blinda o lado democrata. A administração Obama preservou o campo em seus mandatos. Ele diminuiu o número de presos, mas continuou prática do “interrogatório avançado”.

Além disso, ampliou o programa de guerra ao terror com o uso de drones que matou milhares de civis inocentes. Nunca houve qualquer escrutínio por parte da imprensa e Hillary Clinton defendeu o programa diversas vezes, de acordo com o Washington Post.

Dick Cheney apoiou sua filha lésbica para então, depois, decepcioná-la?

Uma das poucas vezes que o filme se aprofunda no lado mais humano de Cheney é quando ele apoia a revelação de sua filha como mulher homossexual. Porém, quando sua outra filha, Liz, se opõe ao casamento gay para conseguir vencer sua campanha para o Congresso, Cheney a apoiou em sua decisão.

Para Adam McKay, Cheney fez isso porque é um maníaco por poder e um traidor da confiança da filha Mary. Porém, na verdade, as coisas são mais complexas. Cheney apoiou os dois pontos de vista de ambas as filhas, mesmo que conflitantes. Cheney declarou que Liz nunca havia apoiado o casamento gay mesmo com sua irmã sendo parte da comunidade.

Durante anos, Cheney apoiou o casamento gay, incluindo no debate de vices em 2000. Ele conquistou diversas críticas de conservadores em 2009 por declarar que as pessoas devem ser livres para se casarem com quem quiserem. Ainda hoje, tanto Liz quanto Mary são conservadoras.

O Homem que Cheney atirou realmente pediu desculpas a ele?

Sim. Um dos casos mais bizarros da vida de Cheney, acabou em Vice e que surpreendentemente é verídico. O filme até mesmo mostra imagens reais de Harry Whittington pedindo desculpas por ter sido baleado por Cheney durante uma caça a patos. O texano de 78 anos foi atingido acidentalmente por Cheney sofrendo ferimentos no pescoço e parte do peito.

Três dias depois do pedido de desculpa, teve um ataque cardíaco não fatal em decorrência dos ferimentos. Isso feriu e muito a reputação de Cheney, se tornando motivo de piada. Ele demorou a tornar o incidente algo público e admitir a culpa. Porém, no filme, é entendido que ele pouco se lixa para o incidente, achando mais um aborrecimento na sua vida.

Porém, não é preciso pesquisar muito para ver que isso não é verdade. Em entrevista na Fox News, Cheney declarou que era o “cara que puxou gatilho, que atirou a bala que machucou Harry. Posso falar de todas as condições no dia, mas no fim é tudo culpa minha. Não é culpa do Harry. Eu machuquei meu amigo e vê-lo cair é uma memória muito dolorosa. Foi um dos piores dias da minha vida.”.

Dick Cheney realmente é um gênio do mal?

Apesar de Adam McKay acreditar que ele um planejador estratégico e inteligentíssimo, apesar de pintá-lo como ignorante diversas vezes, Cheney parece não ser o culpado por todas as mazelas do mundo.

O fato que ofereceu grandes poderes do executivo foi mesmo o acontecimento do 11/9 permitindo as expansões vistas naqueles anos que foram aprovadas pelo Senado e Congresso com base na Guerra. Ainda assim, Cheney auxiliou o governo Bush e não foi o governo Bush como o filme dá entender. Bush buscou seus conselhos, mas ao mesmo tempo estava assessorado por diversos profissionais da West Wing.

Adam McKay afirma que tudo é verdade em seu filme?

Não. McKay diz que seu filme não é 100% fiel aos fatos. Ele avisa que é uma história real, mas também informa que, por conta de Cheney ser tão reservado, é difícil saber o que aconteceu. É uma situação tão bizarra que deve ser a primeira vez que um filme biográfico culpa o objeto de seu estudo para justificar suas diversas mentiras extrapoladas.

Personalidades foram alteradas, diálogos foram criados do nada envolvendo pessoas reais. Então fica a total impressão que McKay quis reescrever a história, já que é muito fácil as pessoas encararem filmes biográficos como a verdade absoluta. Porém, com Vice, é melhor se manter longe tanto de suas informações tortas, de seu assassinato de reputação pedante e também de um entretenimento completamente fracassado.

Não existe graça na mentira.