Críticas

Review | Assassin’s Creed Black Flag Resynced é a redenção que a Ubisoft precisava

Ubisoft acerta no remake de Black Flag: combate renovado, mundo vivo e conteúdo novo genuíno.

Matheus Fragata
Matheus Fragata Redação
11 min de leitura

Se Assassin’s Creed morreu no Black Flag, ele acaba de renascer com Black Flag Resynced.

Existe uma pergunta que toda grande editora enfrenta quando decide remaster um clássico amado: até onde ir? Mexer demais e você corre o risco de trair o que fez as pessoas se apaixonarem pelo jogo. Mexer de menos e você entrega pouco mais que uma atualização de resolução vendida a preço de jogo completo. A Ubisoft, com Assassin’s Creed Black Flag Resynced, encontrou um equilíbrio que na maior parte do tempo funciona muito bem, ainda que nem sempre acerte a mão exatamente onde seria mais necessário.

Por que Black Flag continua sendo especial

Para quem não acompanhou a trajetória da franquia, vale explicar por que esse jogo específico ocupa um lugar tão particular no coração dos fãs de Assassin’s Creed. Lançado em 2013, o Black Flag original representou uma ruptura corajosa com a fórmula que a série vinha seguindo desde seu início. 

Em vez de duplicar a estrutura de assassinatos furtivos em cidades históricas, o jogo colocou o combate naval no centro da experiência, transformando o protagonista Edward Kenway em um pirata mercenário mais interessado em ouro do que em qualquer causa maior.

Foi uma decisão que rendeu frutos. O jogo se tornou um dos capítulos mais bem-sucedidos da franquia em vendas e crítica, e para uma geração inteira de jogadores foi a porta de entrada para toda a série. A liberdade de navegar pelo Caribe, abordar embarcações inimigas, caçar tesouros e viver uma fantasia pirata que ninguém sabia que queria até experimentá-la, tudo isso construiu uma legião de fãs que até hoje considera Black Flag o auge da franquia.

Treze anos depois, esse legado impõe uma responsabilidade enorme sobre qualquer remake. É exatamente aqui que o trabalho da Ubisoft convence: em vez de reescrever a fórmula que já funcionava, a equipe escolheu polir cada engrenagem que o tempo e a experiência acumulada em outros jogos da série permitiram enxergar com mais clareza. 

O resultado é um jogo que ainda entrega aquela sensação de liberdade marítima que conquistou tanta gente há mais de uma década, só que rodando sobre uma base técnica e mecânica muito mais madura.

Edward Kenway, o mesmo homem, contado com mais camadas

A trama central permanece praticamente intocada. Edward Kenway segue sendo o galês ambicioso que se vê seduzido pela promessa de riqueza fácil nos mares do Caribe, apenas para descobrir que sua ganância pessoal o joga direto no meio do conflito milenar entre Assassinos e Templários. 

Personagens históricos como Barba Negra, Mary Read e Benjamin Hornigold continuam presentes, moldando a jornada de transformação de Edward de mercenário egoísta a alguém que compreende que existe algo maior do que ele mesmo em jogo.

Onde o remake realmente investe é na expansão dessas relações. Novas sequências de missão dão mais peso a personagens que antes eram tratados de forma superficial. Barba Negra ganha sua própria linha de missões dedicada. 

Stede Bonnet, o antigo proprietário de terras que abandona sua vida confortável em busca de aventura, recebe um epílogo que aprofunda sua amizade com Edward. Mary Read também tem sua trajetória expandida. Nenhuma dessas adições muda o rumo fundamental da história, mas todas ajudam o elenco coadjuvante a parecer mais tridimensional do que era originalmente.

Três novos Oficiais recrutáveis reforçam essa expansão narrativa. Lucy Baldwin, uma construtora naval criada especificamente para esta versão, traz consigo uma habilidade de manobra evasiva perfeita que neutraliza danos de embarcações inimigas quando bem cronometrada. 

Padre desbloqueia um ataque de abalroamento mais poderoso. Tobias, apelidado de “Deadman”, permite disparos consecutivos de canhão. Cada um deles vem com sua própria mini-história e conversas de bordo enquanto navegam com Edward, o que os torna presenças genuínas na tripulação do Jackdaw, não apenas adições mecânicas disfarçadas de personagem.

A decisão mais controversa do remake é a remoção completa da narrativa do presente ligada à Abstergo Entertainment, elemento que estruturava o original através dos segmentos jogados fora do Animus. No lugar disso, a Ubisoft optou por integrar lore adicional através de um banco de dados expandido dentro do próprio Animus, revelando conexões com jogos mais recentes da franquia e insinuando novos mistérios sobre o chamado Efeito Sangramento se espalhando entre a população comum. Para veteranos da série que apreciavam o vaivém entre passado e presente, essa mudança pode soar como uma perda real de contexto. Para quem está chegando agora a Black Flag pela primeira vez, não vai fazer falta – na minha experiência com o original, todos os segmentos com a Abstergo eram péssimos e quebravam o ritmo da aventura.

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Reprodução

Combate reformulado

O sistema de combate recebeu a atualização mais substancial de todo o remake. A base agora lembra bastante a abordagem mais crua e focada em contra-ataques vista em entradas recentes da franquia, com bloqueios bem cronometrados sendo fundamentais e o uso inteligente de ferramentas rápidas fazendo diferença real entre sobreviver e ser dessincronizado instantaneamente.

O dardo com corda, ferramenta que no jogo original só era desbloqueada tardiamente, agora aparece muito mais cedo na campanha, permitindo puxar inimigos para distância de combate corpo a corpo antes de finalizá-los com a lâmina oculta. As pistolas de Edward continuam sendo extremamente eficazes contra inimigos mais resistentes, capazes de atordoá-los e abrir janelas para finalizações brutais. Habilidades permanentes como chutes e varreduras dão a Edward opções mesmo quando desarmado, garantindo que ele nunca fique completamente sem recursos numa emboscada.

Essa reformulação, ambiciosa no papel, resultou num jogo consideravelmente mais fácil do que deveria ser. Mesmo em configurações de dificuldade elevada para combate e furtividade, os confrontos raramente representam ameaça real. 

Inimigos tendem a atacar de forma isolada, esperando educadamente sua vez em vez de cercar o jogador de forma coordenada, e contra-ataques bem executados podem eliminar sequências inteiras de adversários sem risco significativo. A furtividade sofre do mesmo problema: a inteligência artificial dos guardas esquece rapidamente o que viu, e é possível atrair múltiplos inimigos para emboscadas silenciosas sem que o restante do grupo perceba qualquer coisa.

Não é um problema que arruína a experiência, longe disso. Mas é uma oportunidade de refinamento genuíno que a Ubisoft administrou com um pouco de excesso de cautela.

As missões de perseguição, finalmente extintas

Uma mudança que praticamente todo mundo vai aplaudir é a extinção das missões de perseguição com estados de falha imediata que atormentavam completistas no jogo original. Ser detectado por um único inimigo bastava para arruinar uma tentativa perfeita em 2013. No remake, essas situações foram redesenhadas para adotar um design mais aberto, similar ao que a série vem explorando em suas entradas mais recentes.

Agora, ser descoberto durante uma missão de infiltração não significa fim de jogo. Você pode fugir, enfrentar os inimigos diretamente, ou simplesmente abandonar completamente a abordagem furtiva em favor do combate aberto. Objetivos que antes exigiam execução perfeita em ordem específica agora funcionam como desafios opcionais que recompensam com dinheiro e recursos extras, sem penalizar quem prefere uma abordagem mais improvisada. 

É uma mudança de filosofia que traz o jogo para mais perto do design contemporâneo sem sacrificar o espírito das missões originais que certamente te faziam arrancar os cabelos em frustração e impaciência.

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O Caribe nunca esteve tão vivo

Se há um departamento em que o remake é inquestionavelmente bem-sucedido, é no visual. Reconstruído na versão mais recente do motor Anvil, a mesma tecnologia usada em produções recentes da franquia, Black Flag Resynced impressiona em praticamente qualquer ângulo. 

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As cidades caribenhas, a densa vegetação tropical e os fortes espanhóis mantêm o charme imersivo que tornou o original tão magnético, agora com uma densidade de detalhe que treze anos atrás seria impensável tecnicamente.

O mar, verdadeiro protagonista silencioso de toda a experiência, recebeu atenção especial. Novos sistemas climáticos dinâmicos criam tempestades que se formam no horizonte e desabam sobre o jogador em pleno comando do Gralha, devolvendo uma sensação de perigo e pequenez diante da natureza que fazia a navegação parecer uma experiência real, não apenas um deslocamento funcional entre dois pontos do mapa. 

Ventos, ondas fortes e mudanças climáticas chegam a interferir fisicamente no controle da embarcação, adicionando uma camada extra de imprevisibilidade às viagens marítimas já que uma tempestade perfeita pode acontecer em questão de segundos.

O jogo funciona muito bem em termos de otimização, atingindo boa estabilidade de frames no PC acima da casa dos 60 quadros sem grandes sacrifícios visuais e com os modelos de ray tracing ativados até o talo. É um resultado técnico sólido, ainda que alguns problemas visuais característicos das produções da Ubisoft persistam: detecção de colisão inconsistente durante sequências de parkour, câmera que ocasionalmente perde o jogador em momentos de ação intensa, e bugs pontuais que, embora raros, ainda aparecem o suficiente para serem notados.

Menos colecionáveis, mais significado

Uma das decisões de design mais elogiáveis do remake foi reduzir drasticamente a quantidade de colecionáveis espalhados pelo mapa. O original enchia a tela com marcadores de interrogação branco, escondendo uma quantidade quase excessiva de itens que transformavam a exploração em tarefa mecânica. 

O remake corta essa quantidade de forma agressiva, e o resultado é uma exploração que se sente mais recompensadora item por item, mesmo com menos deles disponíveis. As canções dos marujos, claro, continuam sendo o colecionável mais interessante de perseguir para destravar grandes clássicos como Leaver Her Johnny.

Baús agora exigem um pouco mais de esforço para serem localizados, escondidos atrás de pequenas situações contextuais que dão personalidade ao ato de coletar. Isso não muda fundamentalmente a estrutura de jogo, mas embrulha a mesma mecânica de coleta de forma bem mais elegante do que o original jamais conseguiu.

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Batalhas navais: a excelência que não precisava mudar

As batalhas navais permanecem, propositalmente, quase inalteradas em sua essência. Não havia motivo para consertar o que já era o ponto mais forte de toda a franquia. O Gralha continua extremamente customizável, e transformá-lo numa embarcação de guerra temível ainda exige investimento de tempo genuíno, especialmente contra os Man O’ Wars e navios lendários que representam os desafios mais duros do jogo.

As novas habilidades trazidas pelos Oficiais recrutáveis adicionam camadas táticas interessantes sem comprometer o equilíbrio cuidadosamente calibrado dessas batalhas. Diferentemente do combate terrestre, aqui a dificuldade permanece consistente e justa: sem os upgrades adequados, enfrentar embarcações mais poderosas continua sendo praticamente impossível, e mesmo com toda a progressão completa os confrontos contra os navios lendários seguem exigindo atenção real.

Uma vida de pirata para mim

Assassin’s Creed Black Flag Resynced não tenta reinventar a roda, e essa é precisamente a decisão certa. O jogo pega tudo que fez o original ser tão amado e atualiza exatamente onde precisava, sem perder de vista por que as pessoas se apaixonaram por ele originalmente. 

O mundo está mais bonito, o combate parece melhor mesmo com seus problemas de calibração, a navegação continua sendo um dos pontos altos de toda a série, e ainda existe uma quantidade impressionante de coisas para descobrir e fazer.

As imperfeições existem e são reais: o desafio raso em níveis normais de dificuldade e alguns problemas técnicos pontuais característicos da Ubisoft. Nenhum desses problemas, no entanto, compromete de forma significativa o que é, sem sombra de dúvida, uma das melhores experiências piratas que os videogames já produziram.

Seja você um veterano querendo reviver a jornada de Edward Kenway com todos os recursos que a tecnologia atual permite, ou alguém completamente novo na franquia buscando entender por que esse capítulo específico é tão querido, Black Flag Resynced entrega. 

É a prova mais convincente de que às vezes a melhor forma de homenagear um clássico é simplesmente entender profundamente o que o tornava especial, e ter a humildade de deixar essa essência intacta enquanto se refina tudo ao redor dela. Parabéns à Ubisoft por, finalmente, ter escutado seus fãs que não são nem um pouco silenciosos. Aguardo por mais remakes de títulos consagrados que também merece esse grande carinho entregando essa mesmíssima qualidade.

Agradecemos à Ubisoft pela cópia gentilmente cedida para a realização desta análise.

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