Review | Final Fantasy X/X-2 encontra mais uma chance de brilhar no Switch 2
FFX/X-2 chega ao Switch 2 rodando lindamente, mas a ausência de transferência de save do Switch original incomoda quem já investiu na franquia.
Existem jogos que funcionam como marcadores de tempo. Você não lembra apenas da trama ou dos personagens, lembra de onde estava quando jogou, de quem você era naquele momento da vida. Final Fantasy X é esse tipo de jogo para uma geração inteira de jogadores, e a forma como ele lida com luto, sacrifício e a necessidade de seguir em frente depois da perda envelheceu de um jeito que poucos RPGs conseguiram replicar.
Vinte e cinco anos depois de seu lançamento original no PlayStation 2, a dupla formada por X e sua sequência X-2 chega ao Switch 2 numa nova versão que promete ser, tecnicamente, a mais completa já lançada em console.
Chega perto de conseguir. Mas tropeça exatamente onde menos deveria.
Spira, revisitada com todo o cuidado que ela merece
Para quem nunca visitou esse mundo, vale um contexto rápido. Final Fantasy X acompanha Tidus, um jogador estrela de blitzball que é arrastado mil anos para o futuro após um ataque da entidade Sin, e que se junta à jovem summoner Yuna numa peregrinação que promete, ao menos temporariamente, libertar Spira do ciclo interminável de destruição causado por essa mesma criatura.
É uma história sobre dogma religioso, sacrifício encarado como virtude suprema e a difícil tarefa de questionar tradições que moldaram gerações inteiras.
X-2, lançado dois anos depois, se passa também dois anos após os eventos do primeiro jogo, numa Spira que finalmente experimenta paz. Yuna, agora movida por uma pista misteriosa capturada numa esfera, embarca como caçadora de esferas ao lado de Rikku e da nova personagem Paine, numa aventura de tom completamente diferente: mais leve, mais colorida, e centrada em autodescoberta em vez de sacrifício coletivo.
A dupla funciona de um jeito que poucas sequências na história dos RPGs conseguem replicar. Onde o primeiro jogo é sobre perda e resignação diante do destino, o segundo é sobre reconstrução e a possibilidade de reescrever o próprio papel depois da tragédia. Jogados em sequência, formam uma jornada emocional completa que poucas franquias souberam encerrar com tanta coerência temática.
Uma coleção verdadeiramente completa
O pacote reúne toda a saga de Final Fantasy X num único lançamento: os dois jogos principais, o curta-metragem Eternal Calm que serve de ponte narrativa entre eles, a mini-aventura pós-campanha X-2: Last Mission, e o drama em áudio Final Fantasy X -Will-, ambientado depois dos eventos de Last Mission. Somando tudo, incluindo conquistar 100% de conteúdo em ambos os títulos principais, a experiência completa ultrapassa facilmente cem horas.
Para quem nunca visitou Spira, ter tudo isso reunido num único pacote portátil é uma proposta extremamente atraente. É possível vivenciar a saga inteira do início ao fim sem precisar caçar edições avulsas espalhadas por gerações diferentes de consoles.
A versão para Switch 2 traz melhorias técnicas reais em relação à edição do Switch original. A resolução sobe de 1080p para 1440p, e há filtragem de textura aprimorada perceptível em comparações lado a lado, embora a taxa de quadros permaneça em 30fps em ambas as versões – o que é decepcionante, mas justificado pelo código original da construção do jogo.
Rodando tanto no modo portátil quanto conectado à TV, o jogo mantém desempenho estável e cenas que ganham vida com uma paleta de cores vibrante, mesmo em ambientes de pouca luz onde os detalhes continuam nítidos.
O problema estético que ainda não foi resolvido
Existe uma queixa recorrente entre quem acompanha essa franquia de remaster há anos, e ela continua presente nesta versão: os modelos de personagem em alta definição ainda sofrem do mesmo problema que atormenta essa franquia de remasters há anos: o excesso de nitidez expõe uma rigidez facial que a resolução mais baixa do PlayStation 2 disfarçava por completo.
O olhar fica parado demais, as feições perdem a naturalidade que tinham originalmente, e o efeito é mais perceptível quanto mais tempo você passa olhando para os personagens de perto. Os olhos parecem vidrados, as proporções ficam levemente erradas, e a expressividade que os rostos tinham na era original acaba se perdendo na tradução para HD.
É um problema conhecido desde a primeira leva de remasters lançada há mais de uma década, e que Square Enix ainda não resolveu de forma satisfatória. Cenários e criaturas se saem muito melhor nessa atualização visual, o que torna a discrepância com as figuras humanoides ainda mais evidente por contraste. Você se acostuma com o tempo, mas é o tipo de detalhe que fica entalado, especialmente para quem lembra com carinho de como os personagens pareciam vivos e expressivos na era do PS2, mesmo com toda a limitação técnica daquele hardware.
Ferramentas modernas para dois sistemas de combate radicalmente diferentes
Um dos maiores méritos desta coleção sempre foi como ela consegue equilibrar dois jogos com filosofias de combate completamente opostas. Final Fantasy X aperfeiçoou o sistema Conditional Turn-Based, onde cada decisão em batalha altera fisicamente a ordem de turnos exibida na tela, criando um quebra-cabeça tático que recompensa planejamento cuidadoso.
X-2, por outro lado, abandona esse sistema em favor de um ATB mais dinâmico e ágil, incorporando o mecanismo de Dresspheres que permite trocar de classe em pleno combate com fluidez impressionante, além de um sistema de Chain que multiplica dano quando ataques de personagens diferentes são cronometrados em sequência.
O remaster incorpora um conjunto de ferramentas de qualidade de vida que se tornaram praticamente padrão em relançamentos recentes da franquia, e que fazem diferença real na experiência. É possível acelerar o jogo em duas ou quatro vezes a velocidade normal, desativar completamente encontros aleatórios quando eles não interessam, maximizar estatísticas dos personagens instantaneamente, e ativar batalha automática para simplesmente atravessar seções mais repetitivas.
Para quem quer revisitar esses clássicos sem o grind característico de RPGs de PlayStation 2, essas opções tornam o replay dramaticamente mais ágil.
Também está disponível a opção de escolher entre a trilha sonora original, com seu peso melancólico característico dos temas compostos originalmente, e a versão rearranjada criada especificamente para os remasters anteriores.
Ambas têm seus méritos, e a possibilidade de alternar livremente entre elas nas configurações é bem-vinda para quem, como muitos fãs de longa data, encontra valor genuíno nas duas abordagens.
O detalhe que estraga a festa
Aqui está o ponto que realmente incomoda em toda essa proposta: não existe qualquer forma de transferir dados de save da versão anterior do Switch para esta nova edição do Switch 2, nem qualquer caminho de atualização com desconto para quem já possui o jogo na plataforma anterior.
Isso significa que qualquer pessoa que comprou essa mesma coleção há relativamente pouco tempo no Switch original precisa pagar o preço cheio novamente para acessar as melhorias específicas desta versão, que, importante dizer, não são particularmente extensas.
A resolução sobe, a filtragem de textura melhora ligeiramente, mas a diferença prática entre rodar a versão anterior no próprio Switch 2 via retrocompatibilidade e comprar essa edição específica é pequena o suficiente para gerar frustração real entre veteranos.
Outras plataformas enfrentaram situações parecidas no passado, com diferentes gerações de PlayStation exigindo compras separadas para cada salto de hardware. Mas ao menos nesses casos havia possibilidade de transferência de dados salvos entre versões.
Aqui, essa opção simplesmente não existe, o que é particularmente difícil de engolir para quem tem o hábito de revisitar esses jogos anualmente e vai precisar recomeçar do zero mais uma vez.
Some a isso a ausência de uma função para pular cutscenes, recurso que já existia na versão para PC há anos e que segue inexplicavelmente ausente nesta edição para Switch 2. Para quem está numa enésima replay e conhece cada cena de cor, essa omissão pesa.
Vale a pena?

A resposta depende inteiramente de onde você está na sua relação com essa franquia. Para quem nunca visitou Spira, esta é seguramente a versão mais completa e tecnicamente polida já lançada em qualquer console, reunindo absolutamente tudo relacionado à saga num único pacote portátil que roda com fluidez impecável tanto em modo dock quanto handheld. É difícil imaginar um ponto de entrada melhor para conhecer uma das histórias mais queridas na história dos RPGs japoneses.
Para quem já é veterano e possui alguma versão anterior, especialmente a edição do Switch original, a proposta fica mais difícil de justificar. As melhorias técnicas existem, mas são incrementais o suficiente para não convencerem sozinhas, e a falta de qualquer ponte entre as duas versões da mesma plataforma Nintendo é uma decisão questionável que penaliza justamente quem mais demonstrou fidelidade à franquia comprando cedo.
O que permanece imutável, independente dessas questões comerciais, é a qualidade fundamental do material em si. Final Fantasy X segue sendo uma das histórias mais bem contadas que os videogames já produziram, com um elenco de personagens que ainda hoje carrega peso emocional genuíno vinte e cinco anos depois de sua criação.
X-2, com todo seu tom mais leve e ocasionalmente exagerado, complementa essa jornada de forma surpreendentemente eficaz, transformando uma história sobre perda numa sobre reconstrução. Juntos, formam uma das duplas mais coesas emocionalmente que a Square Enix já produziu, e esta continua sendo, apesar de tudo, uma excelente forma de experimentá-los novamente, ou pela primeira vez.
Esta review foi realizada através de uma cópia de Nintendo Switch 2 gentilmente cedida para a análise pela Square Enix.
