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Artigo | A Estética de Fragmentado

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Obs: texto longo e repleto de spoilers. Não leia o artigo até assistir a Fragmentado.

Cinema pode não parecer, mas é algo complicado. Não é à toa que diversas pessoas dedicam o tempo de uma vida para compreender suas evoluções, movimentos e padrões estéticos de cada realizador dentre diversos cineastas. Para ter seu nome cravado no imaginário popular de cinema da mais alta qualidade é preciso muito mais do que apenas o zeitgeist do momento.

É preciso ter um domínio estético tão poderoso a ponto de alguém parar, pensar e apontar: “ei, isso aqui é extraordinário”. Por sorte, o Cinema é agraciado com muitos nomes de realizadores extraordinários que fizeram por merecer tornar seus nomes como referências de padrões estéticos. Kurasawa, Hitchcock, David Lean, Renoir, Trouffaut, Godard, Fellini, Bergman, Sergio Leone, Kubrick, Fincher, Nolan. Somente para citar alguns de fácil associação para qualquer cinéfilo.

M. Night Shyamalan, apesar de colecionar desafetos com fãs graças a alguns fracassos de bilheteria e crítica que realmente são indefensáveis vide Fim dos Tempos, consegue ser um dos nomes mais promissores para figurar o rol dos grandes artistas que contribuíram para a evolução estética do cinema. Isso tudo se torna ainda mais forte com o lançamento de Fragmentado.

Shyamalan tem esse quê especial que instiga a nossa curiosidade. Mesmo para quem não deve ligar muito por cinema, deve ter visto alguma de suas obras e ter fixado o nome do diretor indiano em seu inconsciente. “Bora lá ver o novo Shyamalan? ”, pergunta esta que praticamente vendeu suas obras-primas e seus desastres. E, ainda errando tanto, Shyamalan está aí, em plena glória – hoje, mais do que nunca.

O que realmente nos leva de volta aos filmes dele? Certamente não é a bendita reviravolta que todo mundo acha que é a sua principal característica como autor – isso é apenas a cereja no bolo. O que Shyamalan realmente consegue, e com muito sucesso, é ser um ferrenho realizador com noções estéticas muito inerentes ao seu estilo. Esse presente desde seus filmes mais baratos até as grandes produções hollywoodianas.

O que raios é estética?

A estética é uma palavra antiga, datada por volta de 1750. Antes era dita como a ciência dos sentimentos. Hoje, a ciência do belo e da arte em geral. Mas para o cinema, o termo é ainda mais específico dizendo respeito a traços fundamentais que fazem do cinema, o Cinema.

Resumindo, trata-se de movimento, mobilidade do ponto de vista, sequencialidade e a característica definidora do Cinema: a montagem – esses pontos são definidos por diferentes teóricos como Eisenstein, Metz, Deleuze, etc. Toda essa junção de fatores permitem a poética do cinema que conta também com técnicas de outras artes como o Teatro, Literatura e Fotografia. Sem querer desmerecer, o Cinema é a forma mais potente de expressão artística presente na história do homem.

E com o diretor certo, essa magia torna-se na mais crua e chocante realidade.

A Câmera Caneta

Não demora nem cinco minutos para Shyamalan chamar atenção para seu trabalho de câmera. Na segunda cena da obra, em um raro momento (sim, raro), a câmera de Shyamalan assume o ponto de vista subjetivo de Kevin (para facilitar, chamaremos todas as personalidades desse modo, menos a Besta). É o único momento do filme no qual temos essa relação de identidade da câmera se fundindo ao protagonista. O mais legal disso tudo é a sensação que essa encenação transmite para o espectador: apreensão profunda. Estamos no olhar do predador espreitando suas presas. É um foreshadowing de câmera: a primeira enunciação da Besta selvagem que será liberada no terceiro ato.

Logo depois, a relação da câmera com Kevin se altera. Agora ela é aliada do personagem, centrando a ação em primeiro plano acompanhando as meninas se divertindo dentro do carro enquanto revela, sutilmente, que algo mais grave acontece em terceiro plano. A câmera se movimenta em clara provocação ao espectador já ser fisgado pelo mistério, se segurando ao máximo para não revelar quem sentará no banco do motorista situado fora-de-campo. O trailer abaixo contém muitas das cenas que comentei e das quais vou comentar ainda. É importante assistir e memorizá-lo bem.

Quando finalmente Shyamalan decide revelar a presença de Kevin no carro, não a faz de modo trivial e banal. Concentra os esforços com o magnetismo de uma breve montagem baseada somente no olhar de Casey reparando no lixo jogado ao chão através do retrovisor e já sacando completamente que entrou em uma situação perigosa – a presa que já reconhece más situações por conta de seu histórico de abusos sofridos na infância que são revelados aos poucos por flashbacks.

Nisso, Kevin aparece pela 1ª vez e as outras duas meninas só se dão conta disso com um considerável atraso em relação a Casey. Isso é de suma importância, pois já nos primeiros 4 minutos da obra, Shyamalan consegue transmitir para o espectador aspectos vitais para o funcionamento da narrativa sem aquela embromação textual.

A imagem e a encenação já definem: Casey é esperta, uma sobrevivente nata. Claire e Marcia são desatentas, normais, frágeis e não sabem dimensionar o perigo real. E Kevin/Dennis que possui misofobia – aversão a sujeira (característica que também usada contra ele logo nas próximas cenas). Poder absoluto de concisão.

Até que a morte as separe.

Estabelecendo as Regras

O prólogo se distingue totalmente do restante da linguagem que Shyamalan apresentará no restante do filme, em sua maioria, para as cenas no subsolo, no covil escondido onde Kevin reina supremo assim como Gump reinava em seu porão em O Silêncio dos Inocentes.

Após os créditos iniciais, Casey desperta e continua evoluindo sempre através da montagem e da relação de seu olhar com o redor. Ela repara no banheiro limpo, no certo cuidado do captor e apenas dá a dica para Marcia se sujar quando Kevin a separa do grupo.

Um dos enquadramentos apresentados aqui tem suma importância: um plano aberto conjunto que apresenta as meninas divididas em um Split screen feito pelo desenho do cenário. Casey está no lado esquerdo enquanto as outras duas meninas estão no lado direito, divididas pela simetria proporcionada pelo corte na parede.

Shyamalan quase nunca abandonará essa divisão explícita na parede. É uma das maiores dicas que o diretor oferece para sua platéia.

Isso infere algo imediato: o destino das meninas já está traçado para coisas ruins. O plano funciona como um foreshadowing, uma pista do que irá acontecer na narrativa. Nesse jogo, o espectador atento pode presumir:

  1. Casey vive e as garotas morrem.
  2. Garotas vivem e Casey morre.

O destino das meninas é dividido desse modo sem qualquer chance de alteração. Ou é um, ou é outro. E pela construção da introdução do filme, já é bem fácil sacar quem sobrevive a Besta no final.

A partir desse plano, algo sumário já é definido: o enquadramento, em maioria, manda na encenação. Ou seja, raramente Shyamalan movimentará o enquadramento para acompanhar a ação dos personagens. No máximo, há aqueles macetes bê-á-bá da linguagem como travellings ou zooms in ou out para conferir dinamismo de cena ou para elevar a tensão.

O Covil de Dois Níveis

Para entender, portanto, esse estilo de Shyamalan, é preciso compreender ao menos uma das três escolas estéticas que mandam na grande maioria da cinematografia dos diretores de cinema.

A de Shyamalan é a corrente da “composição” como nomeada por Daniel Moreno. Isso é explicado nos parágrafos acima: Shyamalan fixa o enquadramento e pronto. Cria sua relação de diálogos através de espelhamentos bastante simétricos dos planos anteriores. Isso já é notado quando ele insere somente uma porta bem no meio do enquadramento enquanto o plano anterior exibia as garotas divididas com um grande espaço as separando. Quando Kevin surge, o mesmo ocorre: ele fica exatamente no meio do quadro “preenchendo” esse vazio.

Dennis, Hedwig ou Patricia. Absolutamente todos sempre ficam, em algum momento, no centro do quadro. Seja nessa situação ou em outras como na cozinha ou no quarto de Hedwig.

Isso se repete quando Dennis, Patricia e Hedwig entram no quarto. Todos eles ficam na porta enquadrada no meio do quadro. O porquê disso é aberto a diversas interpretação. Eu vejo alguns como principais:

  1. Ele é o principal obstáculo das meninas para a liberdade iluminada ao fundo do terceiro plano.
  2. Ele também é a lacuna que separou aquele grupo para sempre. As garotas permanecem divididas seja pela inteligência para lidar com a situação, seja com a divisória no enquadramento, seja pelo assassinato das meninas.

O único modo de escapatória é forçar um jogo de manipulação contra Kevin e a única que saca isso é Casey. Quando Hedwig aparece, o ordenamento visual é levemente alterando quando a garota abandona sua cama, localizada nos cantos para ir, pela primeira vez, para o centro do quarto e, porventura, do enquadramento.

A câmera de Shyamalan para certas cenas se comporta de modo diferente. “Pousa” no rosto do ator elaborando uma relação íntima, de confidências ou conexão mental. Esse tipo de enquadramento causou um frisson em 1991 com ‘O Silêncio dos Inocentes’, clássico de Jonathan Demme.

Nisso, Shyamalan aproxima a estética de sua câmera com a de Jonathan Demme em diversos filmes de sua filmografia – por exemplo, O Silêncio dos Inocentes. A câmera não se comporta como uma subjetiva, mas se torna uma observadora muito próxima dos personagens que por milímetros não quebram a quarta parede.

Ali, abre-se uma relação de confidências. O interessante é que enquanto o plano é concentrado em Casey, a garota chega próxima de encarar a câmera. Porém, quando surge o contraplano, mostrando Hedwig, o personagem desvia totalmente o olhar para o eixo da câmera. Isso muda aos poucos, com o protagonista ficando cada vez mais centralizado e próximo da objetiva – mais próximo até do que Casey. Em pouco tempo, ele começa a chorar. Casey consegue encantar a serpente somente com seu discurso e, tão logo, a câmera passa a trabalhar para potencializar a ação.

O plano conjunto que marca o clímax da intensa cena.
O plano conjunto que marca o clímax da intensa cena.

Para fechar a cena brilhantemente decupada, há um plano conjunto mostrando pela primeira vez o sequestrador com as meninas em quadro. As outras duas estão desfocadas, completamente acuadas, já também conferindo aspectos fantasmagóricos para suas figuras. Em primeiro plano, Casey e Hedwig se encaram. Há uma conexão forte entre ela e as identidades de Kevin que somente é revelada ao final.

Depois do clímax da cena apontado por esse enquadramento, Hedwig se livra da hipnose. Volta ao centro máximo do enquadramento, a câmera se afasta de Casey, a abandonando, e Hedwig foge as trancando novamente.

As garotas, revoltadas, decidem fugir de modo não tão brilhante e a câmera aponta isso as tratando com bastante frieza, retornando aos ditames da decupagem estabelecida em cenas anteriores. É justamente na fuga que finalmente temos um movimento de câmera que será recorrente em diversas cenas do filme.

Aqui que Shyamalan finalmente desnuda sua estética revelando a profunda inspiração em Stanley Kubrick. Sim, isso mesmo. A estética de Shyamalan bebe muito do que Kubrick proporcionou para o Cinema.

Shyamalan & Kubrick

Ao longo de Fragmentado inteiro, Shyamalan adotou um comportamento de câmera muito similar ao que Kubrick praticava em sua filmografia. Aqui, em especial, há forte correlação estética com O Iluminado.

Perceba, temos enquadramentos centrais que comandam a encenação – em Fragmentado há maior quantidade desses em relação ao clássico de Kubrick – e não o contrário como ocorre em diversos filmes de Hollywood. Por diversas vezes, a relação da câmera com os atores quase chega a quebrar a quarta parede do mesmo modo que ocorre em O Iluminado.

E agora, com a fuga de Claire, a opção de gravar a personagem correndo através de um corredor infindável com o auxílio de uma steadicam, o cumprimento a Kubrick torna-se inegável. A simbologia da imagem é tão forte que com pouca reflexão já é fácil associar essa fuga com a de Danny durante o clímax de O Iluminado no labirinto do Hotel Overlook.

Shyamalan quer tanto que você perceba isso que o mesmo movimento é retomado em pontos chaves da obra como no clímax. Esse movimento da câmera invisível fantasma entre os corredores é presente em diversos pontos de O Iluminado também, como nas cenas dos percursos de Danny com seu triciclo nos corredores estranhos do hotel.

É importante falar um pouco sobre os nítidos contrastes entre a primeira vez que o corredor aparece com a última. Na primeira, Claire nitidamente é a mais despreparada. Foge com desespero e age por instinto: se esconde em um armário, uma reação natural de alguém em pânico. O problema é que ela fracassa rapidamente por conta da obviedade de seu plano. É uma presa fácil.

A câmera basicamente evoca a estranheza de O Iluminado nas cenas dos túneis.

Quando é Casey que foge, já munida de conhecimento e com a escopeta, parte para o mesmo quarto dos armários, mas procura munição para sua arma a fim de eliminar a Besta. Nisso, novamente Fragmentado conversa com O Iluminado.

Here’s Johnny!

Na fuga, tanto Casey quanto Wendy buscam refúgio em um espaço confinado. Elas dependem apenas da proteção de uma jaula (Fragmentado) e de uma porta (O Iluminado) que impedem o acesso de seu perseguidor lunático – até mesmo os enquadramentos são muito similares. Ambas portam armas completamente ineficazes para matar seus algozes. E eles conseguem quebrar as barreiras com facilidade. Dúvida da semelhança gritante? Basta comparar as imagens acima e abaixo desse parágrafo.

Here’s the Beast!

Em Fragmentado, Shyamalan opta por resolver o conflito de um modo bastante condizente com o que estava construído até então – repare que a relação íntima da câmera com Casey e Hedwig se repete com algumas sessões de Dennis com a terapeuta com leves alterações. Seja pelos contrastes entre as garotas, seja pelo trabalho da câmera e do áudio, Shyamalan já vinha preparando o terreno para apresentar um final corajoso que foge do óbvio.

Os três porquinhos

A estética do filme pode sim conversar muito com O Iluminado, porém, também vejo que a narrativa é uma ótima alegoria para contos ou fábulas: no caso, vou me atentar apenas às semelhanças da narrativa de Fragmentado com o conto dos três porquinhos que imagino que vocês já conheçam bem.

Os primeiros porquinhos se dão terrivelmente mal quando o Lobo assopra suas casas até desmoroná-las. Suas fundações são fracas assim como Claire e Marcia são: tem ideias equivocadas que refletem total imprudência diante o tamanho da ameaça (uma tenta fugir e outra parte para o confronto atacando Patricia por trás). O discurso sobre força e fragilidade é expressado por esse contraste tremendo entre as personagens.

Quem tem medo do Lobo Mau?

Assim como no conto, as duas morrem e são devoradas pela Besta. Casey seria o terceiro porquinho nessa história. A garota já é preparada, toma ações inteligentes para contornar sua situação, confronta o inimigo de modo cerebral: suas fundações são firmes e fortes assim como a casa de tijolos do porquinho.

Claro que por se tratar de um filme completo e não uma história infantil, Shyamalan dá a substância necessária para justificar essa tremenda força psíquica da personagem elaborando um confronto cerebral e físico que corresponde com as forças antagonistas – Casey tem que definir estratégias rapidamente contra diversas personalidades da mente quebrada da Besta para sobreviver.

E há muito do Lobo na Besta, principalmente na escolha estética do olhar de Shyamalan para revelar em detalhes a transformação física de Kevin sob essa identidade – uma transformação digna de representações assustadoras de homens virando lobisomens.

O Cinema que ousa dizer seu nome

Pouco a pouco, Shyamalan deixa seu filme mais solto permitindo maior mobilidade a câmera conforme seu filme e seu assunto deixa de ser tão restrito a um lugar ou conforme as amarras da Besta vão se afrouxando.

Também existem conexões muito fortes entre Fragmentado e O Silêncio dos Inocentes, seja na narrativa ou na estética. Entretanto, isso é um assunto muito bem-vindo para outro momento, já que esse artigo está consideravelmente extenso. O que eu gostaria de provar aqui com esse artigo é que Shyamalan não é nenhum imbecil. Esse cuidado estético no primeiro ato da obra consegue potencializar e já preparar o terreno de diversas reviravoltas da narrativa anteriormente apontadas pela imagem.

Ainda há diversos elementos relevantes para falar neste filme como o quarto de Hedwig, cheio de brinquedos ou pelúcias de animais selvagens que já dão a dica sobre o Zoológico ou até mesmo sobre a encenação inteligente que revela o plano de Dennis em se disfarçar de Barry para a terapeuta antes mesmo da revelação ser exposta em texto. 

Não é algo ordinário nos filmes de hoje cada vez mais massificantes, feitos às pressas com diversas equipes desmanteladas ao redor do mundo para entregar as obras em deadlines absurdas de apenas 1 ano de produção efetiva até o lançamento comercial.

É por conta de Fragmentado e do cuidado e carinho de Shyamalan com seu filme que ainda temos respiros revolucionários – esse lance da conexão do filme com outra obra anterior é algo absolutamente inédito para o cinema hollywoodiano – que ousam fugir do padrão enlatado e inócuo que a indústria só tende a seguir com cada vez mais afinco.

Shyamalan prova que apenas com um orçamento muito modesto, nomes desconhecidos, uma carreira que já era considerada arruinada por diversos sabichões da crítica e “gurus” da cultura, é possível fazer do cinema novamente Cinema.

Entre eles, acredite, há uma enorme diferença. E nós andamos precisando muito de filmes com estéticas tão apuradas e inteligente como essa que Shyamalan nos ofereceu aqui.

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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