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Artigo | It: A Coisa e a Morte da Inocência

Spoilers!

O cinema americano tem se tornado cada vez mais apelativo, expositivo e verborrágico. Vive neste ano de 2017 uma de suas piores crises de bilheteria das últimas décadas, além de ter sobrevivido a um agosto completamente ausente de filmes que despertem a atenção do público.

Quando finalmente surge algo bom, muita gente fica incrédula e desconfiada pelo buzz gerado na internet e no boca-a-boca. Mesmo que 2017 não tenha brilhado tanto quando poderia na Sétima Arte, It: A Coisa tornou-se uma das melhores pérolas do ano.

A nova adaptação do clássico livro de Stephen King é sim um baita de um ótimo filme que novamente eleva o gênero do Terror sem a necessidade das firulas tradicionais que andam amaldiçoando exemplares cada vez mais fracos e sem sentido. E nós veremos um desses motivos primordiais aqui neste artigo.

O Terror onde Mais Importa

O discurso narrativo de It: A Coisa é bastante óbvio para o espectador mais atento: a morte da inocência. A jornada constitui no custoso amadurecimento de todo o grupo de pré-adolescentes durante as férias de verão na cidade de Derry, no interior do Maine, quando decidem investigar o sumiço de Georgie, irmãozinho do protagonista do filme, Bill.

Porém, ao contrário de muitas narrativas que envolvem um grupo, It: A Coisa consegue satisfazer plenamente as exigências mínimas do espectador em um ponto crucial de qualquer história: desenvolvimento de personagens.

Mas como isso é feito? Realmente, os diálogos têm sua função, mas caso tenha prestado bastante atenção, notará que a maior parte dos conflitos mais pesados e complicados é resolvido pela encenação bem-feita, através do “mostrar” e não no “contar. E isso é uma das características mais belas da Sétima Arte, o verdadeiro indizível cinematográfico que anda cada vez mais raro em produções supérfluas e verborrágicas.

O filme tem o papel de desafiar o espectador para que ele esmiúce o sentido das imagens. No caso de It, é uma das peças mais importantes para sacar os personagens. Nisso, não me preocupo em focar sobre o material original. Nunca li o livro de Stephen King e tampouco vi o telefilme de 1990.

O que interessa aqui é como o diretor Andy Muschietti consegue provocar uma compreensão maior na plateia apenas com o poder da síntese visual. Por isso, vamos dividir aqui em tópicos a jornada dos garotos, falando como o visual é o principal instrumento para que conheçamos o amago de suas aflições, medos e da morte de suas inocências, afinal, não é por menos que Pennywise seja um bicho-papão metamorfo.

Georgie

O pequeno Georgie é a alma e incidente incitante de toda a narrativa que circunda o Clube dos Otários. Em questão de pouco tempo, nos afeiçoamos pelo menino pelos medos comuns que ele compartilha com o espectador: a escuridão do porão de casa. É preciso que ele enfrente esse pequeno momento de pavor para que consiga a cera para fazer seu veleiro flutuar para brincar na chuva nas ruas de Derry.

Conquistando o pequeno triunfo, Georgie volta à segurança para seu irmão, aprende coisas novas, troca afeições e ligações poderosas e depois vai embora. Para nunca mais voltar. Através de uma correção de cor poderosa, o clima da chuva é bastante sombrio, como se a tempestade tivesse tirado toda a alegria de Derry ao castiga-la a tons acinzentados e deprimidos. Porém, Georgie é uma força contrária a tudo aquilo, afinal traja a colorida e vibrante capa de chuva amarela proporcionando luz na escuridão, uma leve alegria em meio ao choro dos céus.

Porém, isso não demora nada para ser revertido. Assim que o frágil barquinho de Georgie cai na escuridão do bueiro, a reviravolta é pontuada. O destino do garoto é o mesmo que o do brinquedo: se perder na escuridão – talvez para sempre.

Aqui, é extremamente importante que notemos algo que quebra os padrões depois estabelecidos pela narrativa: a abordagem de Pennywise. Ao contrário dos outros garotos com medos muito mais estabelecidos e pessoais, Georgie parece ser novo demais para que seja aterrorizado com figuras assombradas já conceituadas no imaginário popular.

De todos, Georgie é o mais ingênuo e menos vivido. Logo, A Coisa faz Pennywise se comportar como um pedófilo sedutor, oferecendo benesses, leves brincadeiras, prometendo comidas irresistíveis para qualquer criança. Mas a encenação nega tudo aquilo, afinal o palhaço está dentro de um bueiro de esgoto: destino de coisas podres e indesejadas e guardião de segredos escondidos.

Todavia, não é somente porque Pennywise está dentro do bueiro que temos a sensação de estranheza. Bill Skarsgard torna o palhaço bastante simpático e amistoso, mas também é sábio em fazer com os olhos de Pennywise virem para lados distintos, criando algo bastante incomodo e extraordinário. Aquela criatura não é normal e se esforça além da conta para manter a ilusão do palhaço além do tempo necessário.

A cor dos olhos, outrora profundamente azuis, muda para um amarelo nauseante e Skarsgard engrossa a voz. Porém, aqui, Georgie já sabe que há algo de errado com o palhaço e deseja ir embora. Pennywise fracassa em primeiro momento. Logo, é importante relembrarmos a primeira frase que o menino fala quando o barquinho cai no bueiro: Bill vai me matar!

Para não decepcionar o irmão, Georgie se arrisca a reconquistar o barco de papel, mas acaba com o braço devorado pela Coisa que depois a sequestra a arrastando para os confins da podridão. A alegria do menino é morta pelo tom cruel e violento do vermelho do sangue. E Georgie morre. Seja por amor ou medo, a mente do menino estava concentrada em seu irmão.

Detalhe, já estamos no décimo parágrafo para concluir um personagem que não chega a ter nem mesmo dez minutos de tempo de tela. Entenderam como o poder da imagem de um filme é transformador e importante para agregar o desenvolvimento inteiro de um personagem? E isso é só o começo.

Eddie

Eddie é um dos personagens que mais se destacam na aventura sombria pelo tom inteligente do humor marcado em suas falas. O garoto é o hipocondríaco do grupo, além de sofrer de uma asma constante.

A fragilidade da saúde marca o personagem superprotegido pela mãe que nada lembra uma figura saudável tanto no psicológico quanto no físico. É por meio de Eddie que temos uma ligeira apresentação do modo obsessivo e castrador que os adultos agem com as crianças. Praticamente nenhum maior de idade é representado de modo otimista, mas sempre em representações odiosas e cruéis.

A mãe de Eddie o superprotege de tudo e todos, removendo parte da experiência de vida do garoto ao confina-lo a tantos remédios e tortura diária em casa. O menino é praticamente induzido a acreditar ser extremamente doente e hipocondríaco – algo bastante cruel para castrar sua liberdade.

As primeiras aparições da criatura sempre pegam as crianças em seus momentos mais vulneráveis: quando estão isolados ou distraídos. Com Eddie, além disso tudo, ainda o inferniza justamente na hora de tomar os medicamentos. A personificação de Pennywise como um homem Leproso é bastante óbvia, além de caçoar do efeito inexistente daqueles medicamentos. O engraçado é que, assim como Georgie, antes de Pennywise surgir, Eddie também reclama que sua mãe irá mata-lo por ter perdido a hora dos medicamentos.

Admito que Eddie seja um dos personagens que menos se valem do poderio imagético do filme. Apenas temos o uso óbvio do Leproso como a personificação do medo exagerado de doenças com Eddie. Mas a maior graça da encenação ocorre em outros dois pontos simples.

A insistência da permanência do grupo dos Otários com o Loser assinado em seu gesso indicando a retomada do contato com os amigos que o leva a entrar em conflito direto com sua mãe controladora e, depois, no confronto final contra Pennywise quando o palhaço vomita dejetos nojentos na cara do menino que sente apenas uma só coisa: raiva. Eddie se liberta, pelo menos por um instante, de suas fobias para derrotar seu maior medo.

Richie

“Bip bip, Richie!”. Sim, o grande falastrão do Clube dos Otários é um dos que recebem o melhor traço da estética do filme para que compreendamos seus verdadeiros medos.

Ao contrário da maioria dos meninos, Richie não possui um segmento destinado a um primeiro encontro isolado com o palhaço e com seus verdadeiros medos. Apontado como falha por muitos críticos, creio que essa seja outra grande sacada por parte de Muschietti e dos roteiristas.

Richie possui sim seu encontro, mas acompanhado por Bill e Eddie em primeiro momento. O garoto que adora se autoafirmar através de comentários chulos e depreciativos tem um dos medos mais complexos de todo o grupo, mas “mente” em primeiro instante. Diz que é de palhaços, porém a Coisa prepara armadilhas psicológicas mais poderosas.

Quando o trio entra na casa decrépita onde a Coisa vive, não demora muito para que Richie encontre uma mensagem só para ele: um flyer de desaparecido contendo sua foto. Em uma cena anterior, vemos o grupo refletir sobre como os novos desaparecimentos fazem com as pessoas esqueçam dos anteriores, como se tivessem perdido importância.

O verdadeiro medo do menino é desaparecer e ser esquecido. E isso é perfeitamente condizente com o modo histérico e narcisista do menino expressado pelo seu senso de humor curioso. Quando Richie está isolado no quarto repleto de palhaços, reparem que os calafrios e atenção do menino estão concentrados no caixão no centro da saleta. A porta dele abre, apresentando o mesmo flyer encontrado anteriormente, mas com os dizeres “ENCONTRADO” escritos em sangue. Richie vê seu próprio simulacro e se desespera. O medo da morte é real.

Depois dessa sequência, nunca mais temos vislumbre do medo de Richie. Sua rotina após o desmembramento do grupo é a menos detalhada, porém, assim como os outros, o garoto supera seu maior medo ao notar que nunca seria esquecido pelos próprios amigos.

Beverly

Sem a menor sombra de dúvidas, Beverly é a personagem mais desenvolvida do filme inteiro sem a necessidade do uso de diálogos. O seu drama provavelmente é o mais complexo, pois toda a encenação das cenas em sua casa colabora para que o espectador acredite que ela é abusada sexualmente por seu pai – novamente, o horror real dos adultos que colocam a pureza e liberdade das crianças em cheque.

O drama de Beverly é inserido assim que a personagem é apresentada no banheiro da escola: uma menina que sofre com boatos de ter transado com diversos garotos mais velhos do colégio. O filme não martela isso, mas conforme a personagem cresce, sabemos que se trata de uma mentira.

Depois de comprar absorventes (sim, isso é importante), Beverly volta para sua sombria casa. Ali, no corredor, seu pai a encontra e toca nos cachos do cabelo ruivo dizendo “você ainda é a garotinha do papai, não é? ”. A conotação sexual é implícita e pelo desconforto da menina, fica claro que o homem faz essas investidas contra ela há algum tempo.

Tanto que na cena seguinte, Beverly corre ao banheiro para cortar os cabelos que agradavam ao pai, na tentativa de afastá-lo de si, de deixar de ser atraente para ele. Isso reflete a inocência da garota, acreditando que caso ela se torne “feia”, o pai deixará de perturbá-la. Porém, como sabemos, isso acaba o motivando a assediá-la ainda mais: “por que cortou os cabelos? Agora parece um menino. ”.

Enquanto a menina corta os cachos, o diretor nos oferece planos detalhes longos o suficiente para frisar a ação dos cabelos descendo pelo ralo. Não muito tempo depois, Pennywise finalmente aparece para infernizar a vida de Beverly. Ao contrário de todos os outros, o terror da menina é muito mais abstrato tanto que a Coisa não toma forma humanóide pela primeira vez.

Os cabelos jogados pelo ralo retornam e agarram a menina – uma metáfora visual para o medo de ser estuprada pelo pai. Os cabelos a forçam até a pia até vazar, ejacular uma torrente de sangue que quase inunda todo o banheiro – estão lembrados do desconforto da menina ao comprar os absorventes? O medo da garota é o de ser violentada pelo próprio pai em sua casa – certamente o mais pessoal e terrível de todo o grupo.

Com esse momento tão terrível e um cenário familiar péssimo, fica claro o motivo de Beverly se encantar tanto com o carinho e amor provido pelos seus novos amigos. Sua função no grupo também delimita outro tipo de morte de inocência nos garotos que começam a sentir outros sentimentos que vão além da amizade – como visto na cena do lago.

Então passamos a entender a importância da cena da limpeza do banheiro. Ela é um marco da união dos meninos contra a Coisa assim como Beverly acaba sendo no fim do fim do filme. Todos se unem para limpar o medo da menina e deixa-la mais segura. E é justamente pelo amor de seus amigos que ela consegue enfrentar a Coisa e, depois, seu próprio pai durante a tentativa de estupro.

Como ela derrota o medo dos outros e o seu próprio, a Coisa percebe que Beverly não pode mais existir se não acabará colocando sua existência em risco. Não é por menos que a menina é sequestrada justamente quando vence o pai. Porém, ao raptar a menina, a Coisa acaba provocando o efeito contrário: consegue unir ainda mais o grupo, agora totalmente motivado para exterminar de vez seus medos.

A Morte da Inocência

É através dessas situações expostas acima que a maioria dos pré-adolescentes de It: A Coisa consegue matar a inocência da infância e amadurecer através de uma jornada árdua e terrível. Como disso, a maioria desse desenvolvimento é centrada apenas na encenação inteligente, na sugestão e no ordenamento mais sábio dos medos das crianças que realmente a tornam únicas.

Outros personagens que não mencionei no artigo também possuem jornadas próprias e importantes. Até mesmo os antagonistas humanos na forma dos bullies sofrem em encarar os medos trazidos pela Coisa: como a homossexualidade de Patrick Hockstetter e o medo da rejeição ou do ódio mortal que Heny Bowers sente pelo pai rude.

Certamente vale ter um olhar aprofundado a este maravilhoso filme que Andy Muschietti nos trouxe. Vários elementos estão abertos para a interpretação do espectador e certamente há diversas outras maneiras de ver esses elementos que citei no texto. É por isso que ainda vale a pena acreditar no bom cinema. Mesmo que estejam cada vez mais raros, os grandes filmes surgem vez ou outra.

No caso de It: A Coisa, temos a felicidade dele ter alcançado grandiosa popularidade. E é por meio deste merecido reconhecimento instantâneo que o debate sobre Cinema se torna mais vivo, divertido e inteligente. Agora é hora de aproveitar esse excelente momento.

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Publicado por Matheus Fragata

Editor-geral do Bastidores, formado em Cinema seguindo o sonho de me tornar Diretor de Fotografia. Sou apaixonado por filmes desde que nasci, além de ser fã inveterado do cinema silencioso e do grande mestre Hitchcock. Acredito no cinema contemporâneo, tenho fé em remakes e reboots, aposto em David Fincher e me divirto com as bobagens hollywoodianas.

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