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Escrever as análises com spoilers aqui do site sempre são um grande divertimento. No melhor dos casos, como esse, até tenho a oportunidade de rever o filme, o analisando ainda melhor e julgando se minha primeira impressão fora mesmo adequada à qualidade que a obra apresenta.

Porém, é a segunda vez que me pego surpreso pela recepção pouco amistosa de diversos colegas para um filme que julgava nada menos que excepcional. Por incrível que pareça, Guardiões da Galáxia Vol. 2 virou um filme divisivo para muita gente com várias opiniões reclamando sobre a permanência do tom cômico e do escopo mais intimista da obra.

Certamente, acho uma bizarrice exigir de Guardiões muito mais do ele pretende ser. Além disso, o filme surpreende bastante ao ser mais corajoso do que grande maioria dos filmes da Marvel diga-se Guerra Civil, Doutor Estranho ou A Era de Ultron. Aqui há atos e consequências e muito, mas muito mesmo, desenvolvimento de personagens.

A Galáxia intocada

Dessa vez, Peter Quill, Gamora, Drax, Groot e Rocket agem como caçadores de recompensa, protegendo diversas raças e cantos da galáxia. Após livrarem os Soberanos da destruição completa de um ser cósmico interdimensional, Peter Quill e seus companheiros são surpreendidos por Ego que afirma ser o pai perdido do protagonista.

Com algum receio, o grupo se separa. Peter, Gamora e Drax partem com Ego e Mantis para seu planeta a fim de descobrirem o que há por trás das intenções do misterioso Ego. Groot e Rocket ficam para reparar a nave que fora danificada durante uma batalha espacial. Porém são surpreendidos pelos piratas Ravagers que foram contratados para saquear a Milano.

Como não poderia deixar de ser, o roteiro é novamente assinado pelo também diretor James Gunn que parece compreender e investir cada vez mais na pureza de seus personagens. O que pode pegar muita gente surpresa com a sequência de Guardiões da Galáxia é a simplicidade de sua narrativa. O próprio James Gunn disse que suas histórias tendem a ser bastante simplificadas e talvez Guardiões 2 seja o seu filme mais simples até então – em termos de narrativa.

Após o que descrevi na sinopse, basicamente ocorrem pouquíssimas coisas. Gunn procura o escopo menor para trabalhar elementos pertinentes envolvendo os temas família e propósito. A transformação dos Guardiões realmente acontece no qual o sentido de heroísmo é menos óbvio e mais inteligente do que no longa anterior. Isso já fica nítido logo no começo com o grupo salvando os Soberanos de um monstro.

Ainda são desconjuntados, sem liderança alguma e não agem em conjunto para deter o oponente – o exemplo mais nítido é Drax saltando para dentro das entranhas da criatura. Claro que tudo vem acompanhado de doses cavalares de comédia, mas ela está sempre em serviço da mensagem que o filme deseja passar.

Gamora e Peter não definem seu relacionamento, Drax parece mais distraído do que nunca, Baby Groot é só um bebê e Rocket continua colocando o grupo em perigos desnecessários ao roubar a bateria sagrada dos Soberanos – particularmente, julgo inteligente como Gunn utiliza esse McGuffin parcial para resolver o clímax da narrativa. Rapidamente, após a breve perseguição, o grupo é jogado em um planeta aleatório para provocar a separação entre as duas narrativas com o surgimento de Ego.

Ego, o planeta vilão

Como muita gente esperava, a alma do filme reside mesmo em Ego, o melhor vilão do MCU até agora contando com o grande carisma de Kurt Russell. O filme já abre com um flashback do personagem namorando Meredith e apresentando uma flor alienígena que plantou em um bosque – repare como Gunn torna a narrativa tão coesa ao apresentar essas características em momentos prévios do filme.

Através de exposição inteligente, entendemos essa nova versão de Ego, sobre sua índole que parece bondosa e, assim como Peter, compramos rapidamente a versão de que ele se trata de uma figura benevolente, que dirá heroica, e negamos as suspeitas que o cercam. De modo orgânico, Gunn encaixa passagens inteligentes apontando que há mais do que as aparências apontam para o personagem. Seja com a descoberta das ossadas por Gamora e Nebula ou através de Mantis. Novamente, nada genial ou revolucionário, mas eficiente para engajar um pensamento de dúvida no espectador.

Ego é o principal meio que o roteirista busca trabalhar o assunto da paternidade. Sua aproximação com Peter é bem desenvolvida seguindo os preceitos básicos de empatia: revelando os grandes poderes oriundos da Luz – uma energia cósmica própria de Ego e, principalmente, por buscar momentos “pai e filho”. Ou seja, oferece presentes e mostra que seus gostos são similares aos de Quill.

Quando digo que Ego é o melhor vilão que já tivemos nesse universo até agora não é por menos. Gunn praticamente o escreve através de muita exposição, mas encaixada de modo orgânico na obra. Duas são bastante similares, mas opostas em sentido. Elas explicam a origem de Ego como celestial e sua busca por vida no universo. Como toda criatura sapiente e sensiente, o vazio da solidão só resultava em angústia e ausência de significado e propósito até encontrá-los ao se deparar outros seres.

A jornada pela vida, a história de amor e gravidez de Meredith trazem humanidade para o alienígena e, portanto, provoca empatia. A segunda exposição ocorre quando Ego revela seus planos muito dignos de seu nome para Peter Quill, quase totalmente seduzido pela ilusão das intenções de seu pai.

É nesse momento que temos a quebra da “humanidade” de Ego com a revelação egoísta do motivo da existência de seus outros filhos e da reviravolta principal do filme: o assassinato de Meredith. Quando vi o filme pela primeira vez, admito que fui pego de surpresa. Não esperava que Gunn conseguiria emplacar algo corajoso assim em um estúdio que ama a zona de conforto. No primeiro filme, o câncer da mãe de Quill era uma das pontas soltas que eu já especulava ser oriundo da relação dela com um ser cósmico – apontei isso na crítica, aliás.

Logo, toda a dimensão do conflito entre Quill e Ego torna-se muito relevante. Apesar de Gunn não deixar a narrativa descansar após a revelação para termos mais um pouco de desenvolvimento nesse tópico, o roteirista escreve uma reação tão crua que chega a ser excelente. Essa cena já é explicitamente contrastante à anterior que possui carga enorme de Quentin Tarantino no texto, com Gunn utilizando a letra de “Brandy” para expor um pouco mais das motivações de Ego, de sua persuasão e da história que teve com Meredith.

Além do drama entre os personagens ser muito bom, gosto muito do desenvolvimento de Ego. Ele não é motivado por vingança ou poder, mas sim por megalomania. É um personagem que nitidamente passa por transformações durante as eras perdendo sua ingenuidade e propósito originário. Se deparando com a fragilidade e, também, futilidade da vida, molda um novo propósito no qual tudo e todos devem se tornar Ego. Porém, em contrapartida, mesmo copulando afim de criar um novo celestial, a emoção genuína do personagem ao ver Peter manipular a luz pela primeira vez imbui um sentido sociológico pertinente que toca a necessidade empática do ser: não ser mais solitário.

Mesmo que não tendo consciência de todo esse bom trabalho de desenvolvimento, o espectador sente, possivelmente pela primeira vez nesses filmes Marvel, a morte de um vilão seja pela sua qualidade ou pelo enorme sacrifício que a morte dela gera: em poderes e pessoas.

Momento profundamente poderoso que resolve todo o desenvolvimento de Drax na narrativa.

Ponto Sem Nó

Como puderam perceber, o escopo intimista de Guardiões da Galáxia Vol. 2 vem muito a calhar para que haja esse florescer de amor e ódio entre Ego e Quill. Uma jornada sempre em movimento prejudicaria muito a essência do drama resultando em mais um vilão genérico insuportável a la Ronan ou Malekith.

Como 90% do desenvolvimento do protagonista fica centrado em um núcleo, os outros coadjuvantes são resolvidos na base do poder da coesão através de muitas discussões. Gunn não tem vergonha de assumir que esse episódio da aventura seja um belo novelão daquelas ótimas de jornada de autodescobrimento. Como apontei anteriormente, boa parte dos personagens continuam perdidos ou com pendencias psicológicas que impedem atingir esse ‘paraíso’.

Como temos uma quantidade considerável de cenas de ação, alguns arcos precisam ser resolvidos em questão de segundos. Para isso, há a inserção inteligente de Mantis, uma personagem que possui semelhanças com o aprisionamento de Gamora por Thanos, mas de modo levemente distinto. Sua relação com Ego é inteligente a fazendo ter muita utilidade durante o clímax da fita – novamente aponto como muitas das coisas apresentadas no primeiro ato são realocadas no terceiro com propósitos diferentes.

Porém, além de sua função primordial, ela serve como aglutinador de Gamora e Drax. Com Drax, novamente há outro belo trabalho de contrastes – Gunn basicamente faz isso no filme inteiro. Na apresentação de seus poderes empáticos, Mantis diz que nunca sentiu uma alegria tão intensa ao tocar Drax soltando uma de suas muitas risadas enormes (Dave Bautista excelente). Porém, já em Ego, durante uma bela contemplação e uma confidência do personagem sobre sua filha, Mantis o toca e chora compulsivamente.

É uma jogada simples sensacional para resolver essa mudança drástica de Drax entre os dois filmes. Em vez de expiar sua dor através da violência impensada que colocou todo o grupo em risco, Drax opta em extravasar o sofrimento se divertindo e aproveitando todos os momentos. Não será a primeira vez que Gunn usará elementos do filme anterior para desenvolver rapidamente os personagens, pois, na verdade, isso acontece com todos os coadjuvantes – com exceção de Groot que está na história para adicionar doses cavalares de fofura.

Já com Gamora, além do núcleo romântico pouco explorado, Gunn prefere desenvolver sua relação familiar com Nebula – algo que julgo adequado. A dimensão do ódio de Nebula contra Gamora torna-se mais clara para o espectador que finalmente compreende a violência das torturas praticadas por Thanos contra ela agregando mais relevância para essa personagem. Mesmo que a resolução do conflito das duas acontece através de um duelo físico, é inegável dizer que não um tratamento para elas. Novamente, coeso, simples e eficiente.

A ligação entre os dois personagens vai muito além do que o óbvio.

Dupla Dinâmica

Por incrível que pareça é com Yondu e Rocket que temos os conflitos mais densos da narrativa. Yondu é assombrado por Stakar – breve interpretação de Sylvester Stallone, revelando que ele é um Ravager desonrado por ter traficado crianças para Ego no passado. Estabelecendo esse bom conflito sobre honra, Ayesha contrata Yondu e seu grupo para caçarem os Guardiões. Tão pouco ocorre o encontro de Rocket e Groot com Yondu resultando em um motim dentro da trupe de piratas – Kraglin é brevemente desenvolvido aqui.

Novamente através de exposição e conflito de ideias que Rocket é esmiuçado por Yondu. Pode até ser considerada uma cena esquisita por não sabermos se trata de mais uma piada ou de algo sério no começo, mas logo fica claro que Yondu tem a razão ao confrontar o guaxinim espacial. Não há muito o que comentar sobre isso. James Gunn basicamente decide explicar o personagem para o público sem a menor reserva.

O bom disso é que não se trata de exposição gratuita, pois ele escreve isso tratando os dois personagens como um só. Dois caras que se posam como detestáveis, mas que necessitam de redenção e apoio dos amigos.

Não tem erro novamente. Gunn faz com que todo o drama entrelace conflitos do passado e do presente e toca com força o tema da paternidade aqui. Desse modo, há correlações entre Yondu e Ego. A coesão fica a critério no jogo dos contrastes e das lições que cada “pai” de Peter oferece a ele.

Enquanto Ego mostra o poder e a imortalidade, Yondu mostra o caminho para Peter salvar seus amigos durante o confronto final. Ou seja, ela causa a catarse no herói. Efeito esse muito similar ao do primeiro filme, algo bastante legal que reforça ainda mais o conceito de família que Gunn inaugura no clímax contra Ronan. Também há o destaque de Yondu salvar a vida de Quill. Nisso, o roteirista elabora uma alegoria para o pirata, como se ele tirasse pela primeira vez uma das crianças que tinha enviado para a morte naquele planeta.

Gunn novamente resgata memórias do primeiro filme ao elaborar o sacrifício de Yondu para salvar Quill. É uma transformação similar à da cena do primeiro no qual o protagonista se lança para o vácuo do Espaço para salvar Gamora. São rimas entre os dois filmes que casam e conferem dimensão maior para as ações heroicas de Peter que conseguem tirar o egoísmo de seu “pai”. Aliás, outra rima se repete ao fim do filme com o herói recebendo um presente de um parente que dá origem à última música da seleção musical.

Outro elemento belo é a segunda catarse de Quill refletindo a paternidade de seu verdadeiro pai rendendo o momento mais emocionante do longa: o funeral de Yondu.

Armas na Mesa

É evidente que esse é um filme de James Gunn. Interessante notar como o diretor venceu a máquina da Marvel e impregnou sua marca na obra. Não se permitiu ser engolido como Scott Derrickson foi com Doutor Estranho. Explorei por tanto tempo o roteiro nesse texto justamente por estar ali a maior parte de seu trabalho autoral. Para percebermos essa ótima coesão em relacionar itens do começo do filme com o final e até buscar conexões inteligentes com a primeira obra. Ou até mesmo em não tornar nenhum integrante do grupo em um completo inútil durante o clímax com todos desempenhando funções importantes para derrotar Ego.

Gunn buscou evoluir nitidamente seus personagens e não se interessou em nada para movimentar o grande plot desse MCU: Thanos. De fato, Guardiões da Galáxia Vol. 2 é um filme que relembra bons tempos de filmes de herói independentes de um grande universo cinematográfico nos quais somente uma boa história era capaz de segurar as pontas por si só.

Gunn consegue emplacar mensagens muito belas e ainda por cima tem a audácia de explorar o drama e até mesmo assassinar um dos personagens mais legais da aventura em prol da mensagem do filme que finalmente relembra que o heroísmo está muitas vezes associado ao sacrífico pelo bem maior. Os maiores filmes de super-herói tomam essas decisões com coragem como Homem-Aranha 2, X-Men 2, Logan, O Cavaleiro das Trevas, Watchmen, Batman vs Superman e até mesmo Guardiões da Galáxia se encararmos a morte de Groot para salvar a vida do grupo.

Ainda abordando seu roteiro, tudo que comentei acima não diz que o drama é sempre intercalado em equilíbrio por boas cenas de ação e ótimas piadas que não são inseridas em momentos inoportunos. Gunn não atenta à própria obra com essas manias irritantes presentes em outros longas Marvel. Ele respeita o drama, pois reconhece o quão difícil é criar a atmosfera correta. É tão feliz nessa construção que nos consegue fazer chorar – céus, ele fecha o filme “Father and Son” de Cat Stevens e com a imagem do Rocket Raccoon, o personagem mais casca grossa e com pose de invulnerável, chorando com saudades de um amigo caído em batalha. É difícil segurar a emoção.

Mas falando sobre a comédia, Gunn trabalha diversos tipos para todos os gostos sempre com uma acuidade paranormal para tornar suas piadas eficientes. Há escatologia, slapstick, ironias diversas e até mesmo incorpora o humor de Chuck Jones, gênio criador dos Looney Tunes na excelente sequência que Yondu, Groot, Kraglin e Rocket fazem 700 saltos para viajar até Ego o mais rápido possível.

Enquanto esbanja liberdade, criatividade e muito profissionalismo no texto, tive a leve impressão de que James Gunn estava um pouco mais travado em termos de decupagem e câmera. É óbvio que ainda se trata de um filme muitíssimo bem gravado e sequenciado, porém em muitos termos é uma obra quadrada na linguagem cinematográfica quando comparada às criativas sequências do primeiro filme.

Audácia Visual

Talvez seja por uma familiaridade que Gunn ainda tenha que conquistar nos próximos trabalhos, já que esse longa possui uso exaustivo de CGI para construir cenários completos. E, como todos pudemos ver, se trata de computação gráfica da mais alta qualidade. A topografia de Ego é tão hiper-realista que me fez sentir estar dentro de um mundo crível e real assim como tinha acontecido com Pandora em Avatar de James Cameron.

É irônico ter essa impressão já que os créditos de abertura são muitíssimos criativos ao acompanharmos boa parte da luta dos Guardiões contra a criatura a partir do “ponto de vista” do Baby Groot se divertindo enquanto dança “Mr. Blue Sky”da Electric Light Orchestra. É um bom plano sequência que quebra a mesmice que víamos tantas vezes no gênero.

Aliás, já na abertura do filme, durante o flashback, percebe-se que Guardiões da Galáxia Vol. 2 é um divisor de águas para a Marvel. Uma das reclamações mais constantes dos filmes do MCU era o visual ‘feio’. Um efeito negativo provocado pela falta de um color grading mais expressivo que tornassem as imagens mais estilizadas ou vivas, abandonando as cores chapadas que protagonizavam em todo bendito filme.

Felizmente, isso virou história. Este novo longa é belíssimo, repleto de cores vivas e contrastes agradáveis aos olhos. Finalmente as cores serão um instrumento eficiente para potencializar a encenação desses filmes. Gunn já usa tons nobres como o azul marinho e o dourado para o belíssimo salão dos Soberanos cujas linhas apontam o nosso olhar para a sacerdotisa Ayesha – apesar do texto ser muito bom em geral, a vilã é inexpressiva apenas gerando alguns minions para os heróis combaterem ao longo da jornada.

Além de usar a cor para oferecer uma estética aprazível, o diretor também não menospreza em nada o 3D. Finalmente, depois de eras, temos um filme cujo recurso justifica sua existência. Seja na abertura ou na espetacular cena de prison break na qual Yondu e Rocket causam uma carnificina contra os tripulantes amotinados da nave.

Aliás, essa excelente sequência é uma das poucas que mostram uma linha autoral que é traduzida pela câmera e montagem. Gunn referência os westerns spaguettis mais uma vez ao juntar planos rápidos com leves zooms nos rostos de capangas conforme a flecha os executa no melhor estilo da trilogia do Homem Sem Nome. Depois toda a cena continua se elevando com uso adequado de slow motions e até mesmo planos azimutais maravilhosos, além do jogo muito inspirado de Yondu e Rocket destruírem muitos inimigos com o auxílio de monitores.

Outra ótima sequência é que marca a principal luta de Gamora contra Nebula em uma planície e caverna de Ego. Apostando somente na encenação e em nenhum uso de trilha musical, Gunn constrói o embate mais visceral da franquia até então. Quando o quebra pau vai para o mano-a-mano, a referência estética a Quentin Tarantino, especialmente na ênfase em Kill Bill, vem à tona mimetizando breves momentos da luta da Noiva contra Vernita Green.

Apesar de não apresentar encenação extremamente inventiva, outras cenas sempre possuem uma energia tão fantástica que é difícil permenacer impassível ao talento do diretor. Sempre existem gags inteligentes que a tornam únicas: Rocket detonando um grupo de Saqueadores ao melhor estilo Esqueceram de Mim ao som da ótima “Southern Nights”, das naves soberanas controladas via interface que mimetiza antigos fliperamas ou já da inesperada participação especial de Pac Man – repare que há uma leve brincadeira em um plano que Gunn mostra a nave de Ego chegando ao planeta em certo ângulo que forma o rosto do clássico personagem.

Sobre a já tão comentada tracklist de Guardiões Vol. 2, me limito a apontar que a escolha das músicas continua excelente, porém seu uso é menos inspirado do que no primeiro filme. Aqui, boa parte delas encaixam muito bem como “My Sweet Lord”, “Brandy” e “Father and Son”. Outras simplesmente colorem a ação com eficiência.

Uma coisa que poucos apontam também é a qualidade de Gunn como diretor de atores. Ele extrai muito mais do que o básico até mesmo com Bradley Cooper, limitado a dublar Rocket. As performances excelentes até mesmo surgem de Dave Bautista, Michael Rooker, Pom Klementiff e Kurt Russell. Também fui pego de surpresa pela qualidade que Chris Pratt apresenta ao ver e se maravilhar com a ilusão do plano de Ego. Tudo é muito orgânico mesmo quebrando o aspecto enlatado que esses filmes estavam adquirindo.

Menos é Mais

Já estava ficando agonizado depois de tanto tempo sem conseguir gostar verdadeiramente de um filme da Marvel Studios. Para a minha sorte e alegria, Guardiões da Galáxia Vol. 2 é uma daquelas pérolas que o gênero deve se agarrar com força. O filme corrige o maldito vício da zona de conforto que a produtora estava solidificando a cada obra. Revigora o gênero, traz uma belíssima história sobre família e paternidade e ainda aborda a dor da perda com bastante relevância.

É preciso encarar essa obra como ela é. Compará-la incessantemente com o primeiro filme não irá tornar sua experiência melhor. As propostas são consideravelmente distintas e ainda assim Gunn faz de tudo que ambos os filmes conversem com o propósito louvável de engrandecer os personagens e ajustá-los para a grande batalha que os aguarda em Guerra Infinita.

No que muitos julgam como erro, aponto como o maior acerto e qualidade desta obra. James Gunn entendeu que menos é mais e trouxe uma das melhores diversões que poderíamos conferir neste 2017. Vou além, muito mais do que isso, Gunn entende que os seus personagens não são apenas meros bonequinhos de ação, mas os aborda com sentimentos, relações, atos e consequências reais.

São personagens vivos. É isso que torna Guardiões da Galáxia, simplesmente, único.

Guardiões da Galáxia Vol. 2 (Guardians of the Galaxy Vol. 2, EUA – 2017)

Direção: James Gunn
Roteiro: James Gunn

Elenco: Chris Pratt, Zoe Saldana, Dave Bautista, Vin Diesel, Bradley Cooper, Michael Rooker, Karen Gillan, Pom Klementieff, Sylvester Stallone, Kurt Russell, Elizabeth Debicki, Chris Sullivan,  Sean Gunn, Tommy Flanagan, Laura Haddock, Miley Cyrus, David Hasselhoff, Stan Lee, Ving Rhames,  Michael Rosenbaum, Michelle Yeoh
Gênero: Aventura, Ficção Científica

Duração: 136 min

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